
Entre 1979 e 1982, sapos e pererecas desapareceram de forma misteriosa da Estação Biológica de Boracéia, uma reserva de Mata Atlântica na Serra do Mar, em São Paulo. Alguns cientistas atribuíram o sumiço ao clima ou a eventos extremos. Mais de quatro décadas depois, exemplares guardados num museu dos Estados Unidos apontam o culpado: o fungo quitrídio.
O estudo, liderado por pesquisadores do Smithsonian, foi publicado na revista científica Molecular Ecology.
Um caso antigo sem solução
A quitridiomicose é causada pelo fungo microscópico Batrachochytrium dendrobatidis, que provavelmente surgiu na Ásia e se espalhou pelo mundo nos anos 1970 e 1980. Ele só foi descrito pela ciência em 1999, quando centenas de espécies de anfíbios já tinham sofrido quedas catastróficas ou sido extintas. Como muitas dessas mortes aconteceram antes da descoberta do fungo, provar a culpa dele sempre foi difícil.
Para Jack Boyette, do Smithsonian e da Universidade Estadual da Pensilvânia, líder do estudo, muitas dessas mortes antigas continuam entre os casos mais duradouros sem solução da epidemiologia da vida selvagem.
A coleção que guardou a prova
A chave estava no Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, que guarda a coleção do herpetólogo William Ronald Heyer. Ele coletou anfíbios em Boracéia em cinco expedições: duas nos anos 1970, antes do sumiço, e três nos anos 1980, depois das mortes.
A equipe tirou amostras de mais de 370 exemplares de 17 espécies. O resultado foi claro: os anfíbios coletados antes de 1979 não tinham sinal do fungo. Mais da metade dos coletados nos anos 1980 estava infectada. A chegada do fungo coincidiu exatamente com o desaparecimento.
Um paradoxo
Surpreendentemente, as espécies que mais sumiram não tinham infecção detectável, e as que nunca diminuíram estavam muito infectadas. Para Boyette, as espécies que resistiram provavelmente toleravam o fungo e viviam com ele sem morrer. Já as mais sensíveis podem ter morrido tão rápido que não sobrou nenhum indivíduo infectado para Heyer coletar.
Cinco espécies sumidas
Entre 2022 e 2024, a equipe voltou seis vezes a Boracéia, junto com pesquisadores da Universidade de São Paulo, para estudar as populações atuais. Das 17 espécies da coleção de Heyer, só 12 foram encontradas. O destino das outras cinco é incerto, e a ausência contínua levanta a suspeita de que tenham desaparecido do local.
Mas a história também é de resistência. A maioria das espécies parece ter se recuperado desde o início dos anos 1980. O fungo continua presente, mas os padrões de infecção sugerem que as espécies desenvolveram tolerância, o que ajudou na recuperação.
Museus contra epidemias
Para o geneticista Michael Campana, do Smithsonian, quem coletou esses animais não podia imaginar a importância que eles teriam hoje. Sem as coleções, seria impossível detectar patógenos que passaram despercebidos por décadas. O método pode ajudar a prever o impacto de outras doenças, como um fungo parente que ameaça salamandras na Europa.
O país dos anfíbios
O Brasil tem a maior diversidade de anfíbios do mundo, com mais de mil espécies, e a Mata Atlântica concentra boa parte delas, muitas exclusivas do bioma. O fungo quitrídio é considerado uma das maiores ameaças à fauna de anfíbios do planeta, e pesquisadores brasileiros monitoram sua presença em várias regiões do país.
Perguntas frequentes
O que é o fungo quitrídio?
Um fungo microscópico que ataca a pele dos anfíbios e já causou o declínio de centenas de espécies no mundo.
Onde fica Boracéia?
A Estação Biológica de Boracéia fica na Serra do Mar, em Salesópolis, no estado de São Paulo.
Com informações do Smithsonian e do estudo publicado na Molecular Ecology.
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