Ave com apenas duas mortes registradas desde 1926 leva o título de mais perigosa do mundo, mas já tem menos de 5 mil indivíduos

Ave com apenas duas mortes registradas desde 1926 leva o título de mais perigosa do mundo, mas já tem menos de 5 mil indivíduos
Foto: Divulgação

Enquanto a fama de violenta persiste, o casuar do sul enfrenta atropelamentos, ataques de cães e perda de floresta na Austrália.

Imagine uma ave de quase 1,70 metro de altura, capaz de correr a 50 km/h e de saltar mais de dois metros, com garras de até 12 centímetros. Agora imagine que, em quase cem anos, ela tenha sido associada a apenas duas mortes humanas. Esse é o casuar, que figura no Guinness Book of World Records como a ave mais perigosa do mundo, título que cientistas consideram injusto com um animal hoje ameaçado de extinção na Austrália.

Um visual que assusta, um comportamento que nem tanto

O casuar é a terceira maior ave do planeta, com até 79 quilos. O coice, usado para se defender de predadores, pode quebrar ossos, ferir órgãos internos e até matar.

A autora de livros infantis Beverley McWilliams, que escreveu “Cassowary Dad”, resume a impressão que a ave causa: “These birds look like an intimidating cross between a velociraptor, an emu, and a giant turkey”.

Segundo a National Geographic, em reportagem publicada em 2 de janeiro de 2026, os casuares não são naturalmente agressivos, apesar da anatomia intimidadora.

As duas mortes que ficaram na história

Os dois óbitos registrados foram o de um adolescente australiano, em 1926, depois de atingir uma ave com um taco, e o de um homem na Flórida, em 2019, morto por um casuar que mantinha em cativeiro.

Ave com apenas duas mortes registradas desde 1926 leva o título de mais perigosa do mundo, mas já tem menos de 5 mil indivíduos
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Um estudo com 150 ataques relatados em Queensland, na Austrália, mostrou que, na maioria dos casos, as aves atacaram para proteger comida, filhotes ou ovos, ou quando se sentiram encurraladas. Em 75% das ocorrências, as pessoas já haviam alimentado os animais.

“These cassowaries associate people with food, and this can change their naturally shy behavior”, explica McWilliams, “resulting in them chasing people and cars or approaching houses with the expectation of being fed.”

Para comparar: crocodilos matam cerca de mil pessoas por ano e hipopótamos, cerca de 500. O paleontólogo Todd Green, do New York Institute of Technology, resume: “They have the equipment to cause a lot of damage, but if you’re respecting them and respecting their space, it’s very unlikely to be an issue.”

Allen Sheather, da equipe de recuperação de casuares da Rainforest Rescue, trabalha com as aves há mais de 30 anos. Certa vez, uma fêmea se aproximou dele enquanto ele estava agachado, consertando a casa. Ela apenas o observou, pegou algumas frutas e foi embora. Para ele, a curiosidade da espécie costuma ser confundida com agressividade.

Pais dedicados e herdeiros dos dinossauros

Entre os casuares, quem choca os ovos é o macho. Durante a incubação, ele quase não sai do ninho e, depois do nascimento, passa até 18 meses com os filhotes, muitas vezes sozinho. “They are arguably nature’s most devoted dads”, diz McWilliams.

Ave com apenas duas mortes registradas desde 1926 leva o título de mais perigosa do mundo, mas já tem menos de 5 mil indivíduos
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A espécie também é uma ponte com o passado. Como a maioria das aves modernas, descende de dinossauros terópodes, e o capacete na cabeça, que ajuda a regular a temperatura em florestas quentes, é uma de suas características mais parecidas com as dos dinossauros. Para paleontólogos, observá-las ajuda a imaginar sentidos, penas e mobilidade de animais extintos.

O jardineiro da floresta

O casuar é considerado espécie-chave. Ele engole frutos inteiros e espalha as sementes por longas distâncias, abrindo caminho para novas plantas. A árvore rara Ryparosa kurrangii, de Queensland, brota cerca de 4% das vezes quando plantada sem a ajuda da ave. Quando as sementes passam antes pelo intestino do casuar, a germinação chega a 92%.

Nos povos indígenas de Nova Guiné, a ave aparece em mitos como herói, em canções e cerimônias, e há registros dela em artefatos de até 9 mil anos.

Quem corre risco de verdade

O casuar do sul está ameaçado na Austrália, com menos de 5 mil indivíduos na natureza. As causas são perda de habitat, atropelamentos e ataques de cães. Como a espécie demora a atingir a idade reprodutiva e pode viver até 50 anos, cada ave perdida pesa na população.

Para McWilliams, retratar o casuar apenas como perigoso é “unfair and potentially harmful to an animal that needs our protection”.

E a Amazônia com isso?

O casuar não vive na Amazônia, mas o papel que ele cumpre é familiar à região. Aqui, animais frugívoros como antas, tucanos e peixes que comem frutos da várzea também espalham sementes e sustentam a regeneração da floresta. A lógica é a mesma: quando um grande dispersor some, a mata sente. E a fama de bicho “perigoso” também pesa sobre espécies amazônicas.

O que está sendo feito

O governo de Queensland instalou sinalização para reduzir atropelamentos e criou programas de educação para donos de cães. ONGs como a Rainforest Rescue trabalham para restaurar e reconectar fragmentos de floresta. Segundo Sheather, o trabalho da equipe de recuperação permitiu estabilizar a população existente. Outros grupos australianos seguem com plantio de árvores, educação local e reabilitação de aves feridas, e o desafio agora é ampliar a reconexão de habitats.

Com informações de National Geographic.

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