O bisão-europeu sobreviveu à extinção escondido numa floresta da Polônia, mas cientistas dizem que ali não é a sua casa ideal

O bisão-europeu sobreviveu à extinção escondido numa floresta da Polônia, mas cientistas dizem que ali não é a sua casa ideal
Macho de bisão-europeu (Bison bonasus) na Floresta de Białowieża, na Polônia. Foto: Charles J. Sharp, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Na Polônia, o bisão-europeu é chamado de rei da floresta. A imagem do animal está em logotipos, rótulos e brasões. Mas um grupo de pesquisadores defende uma ideia que desafia o apelido: a floresta não seria o lar ideal da espécie, e sim o último refúgio que restou para ela depois que os humanos tomaram os campos abertos onde vivia.

Um parente diferente do bisão americano

O bisão-europeu, Bison bonasus, também chamado de wisent, é uma espécie diferente do bisão americano. É mais alto e esguio, tem a corcova menor, a cabeça mais erguida e menos pelagem. Apesar do porte, é ágil e pode correr a cerca de 56 quilômetros por hora. Ao pisotear a vegetação e espalhar sementes, ele modifica a paisagem e cria clareiras usadas por outras espécies.

Extinto na natureza em 1919

A espécie já ocupou boa parte da Europa. Caçado pela carne e como troféu de nobres, e empurrado pelo avanço das lavouras, o bisão foi perdendo território até que, no século 19, restava apenas na Floresta de Białowieża, na fronteira entre a Polônia e Belarus, área que reis e czares mantinham como reserva de caça.

A Primeira Guerra Mundial selou o destino dos animais. Em 1915, tropas alemãs ocuparam a região e passaram a caçar os bisões para comer. Havia cerca de 730 na floresta antes da guerra, e em 1918 restava apenas um quarto. Com a volta de moradores famintos e um inverno de muita neve, que deixava as pegadas à mostra, o último bisão selvagem de Białowieża foi morto em 1919. Uma subespécie do Cáucaso foi extinta em 1927.

Salvo por 12 animais de zoológico

Depois da extinção na natureza, restavam 54 bisões em zoológicos e parques particulares do mundo. Apenas 12 deram origem a toda a população atual, e boa parte dos genes vem de um único casal, chamado Planta e Plebejer. A partir dos anos 1930, cientistas passaram a registrar cada animal de linhagem pura para evitar cruzamentos com outras espécies, e em 13 de setembro de 1952 os dois primeiros bisões foram soltos de novo na floresta de Białowieża.

Hoje existem cerca de 9.500 bisões-europeus no mundo, e perto de 900 vivem em Białowieża, a maior população em liberdade. Outros grupos foram levados para países como Rússia, Alemanha, Ucrânia, Romênia e Espanha. Mesmo assim, a espécie ainda aparece como quase ameaçada na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza. A origem em tão poucos indivíduos deixa os animais geneticamente frágeis: um vírus ou parasita poderia devastar rebanhos inteiros em semanas.

Uma espécie refugiada

O ecólogo Rafał Kowalczyk, da Academia Polonesa de Ciências, estuda os bisões de Białowieża há mais de 20 anos. Em 2012, ele e colegas da Suécia e da África do Sul propuseram o conceito de espécie refugiada. Assim como pessoas refugiadas, uma espécie nessa situação perde acesso aos melhores lugares para viver e fica confinada a ambientes de baixa qualidade, o que prejudica sua saúde e sua capacidade de crescer.

Para os pesquisadores, esse é o caso do bisão. No início, a espécie vivia em áreas abertas, campos e estepes. Foi empurrada para a floresta pelos humanos. Lá, encontra pouca comida no inverno e depende de alimentação artificial: os guardas florestais levam cerca de meia tonelada de feno por vez, três a quatro vezes por semana nos meses frios. A consequência é um animal manejado quase como gado.

Uma floresta também em crise

Białowieża é uma das últimas florestas primárias de planície da Europa, patrimônio mundial da Unesco, com cerca de 12 mil espécies de animais e árvores centenárias. Mas está secando. Temperaturas mais altas e lençóis freáticos mais baixos favorecem o besouro-de-casca, que ataca abetos enfraquecidos pela seca.

Diante disso, a proposta dos cientistas é dar ao bisão paisagens mais parecidas com as de origem, que combinem floresta, campos e áreas úmidas, onde ele possa se alimentar sozinho o ano todo. Seria a chance de o rei da floresta voltar a ser, também, um animal dos campos.

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