
Documento reúne protocolos científicos para prevenir conflitos e orientar respostas em diferentes regiões do Brasil.
Pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) participaram da elaboração de um documento técnico nacional com orientações para prevenir e responder a conflitos entre seres humanos e onças-pintadas. As diretrizes foram construídas por especialistas de instituições públicas, privadas, universidades e organizações não governamentais e orientam órgãos ambientais, forças de segurança, produtores rurais e comunidades sobre como agir em casos que vão de avistamentos a ataques.
O material apresenta definições técnicas, critérios para classificar ocorrências, estratégias de prevenção, procedimentos de atendimento e parâmetros para decisões sobre captura, manejo e destinação dos animais. A proposta é padronizar a resposta institucional e ampliar a segurança das populações sem deixar de lado a conservação da espécie.
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As diretrizes começaram a ser elaboradas durante o I Workshop Internacional: Conflitos com Grandes Felinos, Riscos, Causas e Soluções, realizado em agosto de 2025, no Mato Grosso do Sul. O processo reuniu pesquisadores, gestores ambientais, profissionais ligados ao manejo de grandes felinos e representantes de diferentes setores.
Entre as medidas previstas está a classificação das ocorrências em quatro níveis de gravidade. Cada nível pode determinar prazos de atendimento, composição das equipes técnicas e procedimentos específicos. A avaliação deve considerar as circunstâncias do encontro, o comportamento do animal, o local da ocorrência e a existência de risco para pessoas ou para a própria onça.
“Entre as recomendações estão a classificação das ocorrências conforme o nível de gravidade, a adoção de protocolos padronizados de atendimento e a atuação integrada entre órgãos ambientais, forças de segurança, instituições de pesquisa e gestores públicos”, explicou Rogério Fonseca, professor da Ufam e um dos autores do documento.
Segundo a Ufam, as diretrizes nacionais foram elaboradas a partir de evidências científicas e experiências práticas discutidas no workshop realizado em Mato Grosso do Sul, em agosto de 2025. O texto também recomenda monitoramento contínuo, comunicação direta com as comunidades e produção de dados para apoiar decisões futuras.
Entenda o caso
Conflitos entre humanos e onças-pintadas podem ocorrer em áreas rurais, unidades de conservação, comunidades próximas a ambientes florestais e regiões onde atividades produtivas avançam sobre habitats da espécie. Os episódios têm causas e níveis de risco diferentes, por isso não devem receber uma resposta automática ou igual em todos os casos.
O documento diferencia situações como avistamentos esporádicos, aproximações recorrentes e ataques a seres humanos. A classificação busca evitar decisões baseadas apenas em relatos isolados ou em percepções sem confirmação técnica.
O que fazer ao encontrar uma onça
Entre as orientações apresentadas está a recomendação de não correr durante um encontro com uma onça-pintada. A pessoa deve manter contato visual com o animal, evitar movimentos bruscos e buscar a aproximação de outras pessoas de forma gradual, sempre que isso for possível e seguro.
A orientação não substitui o acionamento dos órgãos responsáveis. Depois de um avistamento ou de qualquer situação de risco, a ocorrência deve ser comunicada às autoridades ambientais para registro, avaliação e eventual adoção de medidas de manejo.
As diretrizes também reforçam que a captura ou a remoção de uma onça não deve ser a primeira resposta em todos os casos. Esse tipo de decisão precisa considerar evidências, avaliação técnica e o risco de repetição do conflito. A atuação desarticulada pode aumentar o estresse do animal e dificultar a proteção das pessoas.
Experiência da Ufam na Amazônia
A contribuição da Ufam está ligada ao trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Interações Fauna e Floresta (LaIFF/Ufam). O professor Rogério Fonseca coordena os projetos Amigos da Onça e OIAA ONÇA, que acompanham registros de ocorrências e apoiam ações de orientação e manejo.
O projeto Amigos da Onça atua desde 2008 com o mapeamento de ataques de carnívoros silvestres em atividades produtivas próximas às rodovias BR-230, BR-163, BR-174, BR-319 e às rodovias estaduais AM-010 e AM-070. A iniciativa busca orientar produtores rurais sobre medidas capazes de reduzir a possibilidade de conflitos com onças.
O OIAA ONÇA funciona como um banco de dados de ciência cidadã. Usuários podem registrar avistamentos e ataques, que são posteriormente analisados por uma equipe de profissionais com experiência na espécie. A partir das informações, os especialistas identificam o registro e podem propor ações de manejo quando necessário.
De acordo com Rogério Fonseca, os registros realizados na plataforma são encaminhados automaticamente ao banco de dados das autoridades brasileiras responsáveis pelo controle e pelo acompanhamento de carnívoros silvestres, incluindo o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, o Cenap, vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A integração é especialmente relevante para a Amazônia, onde comunidades, propriedades rurais, estradas e áreas protegidas formam uma paisagem extensa e diversa. No Amazonas e nos demais estados da região, a distância entre os locais de ocorrência e os centros de decisão pode atrasar a resposta, tornando o registro padronizado uma ferramenta importante.
Ciência e conservação
Para Fabrícia Reges Ferreira, pesquisadora da Ufam e autora do material, a construção das diretrizes considerou diferentes realidades regionais e internacionais.
“O documento foi construído de forma colaborativa e, ao longo desse processo, foram discutidas evidências científicas, experiências práticas e diferentes realidades internacionais e regionais, buscando consolidar diretrizes técnicas que possam orientar a prevenção, o manejo e a mitigação de conflitos entre humanos e onças-pintadas de forma integrada e baseada na ciência”, afirmou.
A onça-pintada é um dos principais predadores dos ecossistemas brasileiros e exerce papel importante no equilíbrio ambiental. Ao mesmo tempo, ocorrências próximas a comunidades e áreas produtivas exigem respostas rápidas, qualificadas e proporcionais ao risco.
O livro “Diretrizes e fundamentos para mitigação de conflitos entre humanos e onças-pintadas” está disponível no repositório digital da Ufam. O conteúdo pode ser consultado em acesso ao documento técnico. A aplicação das recomendações deverá apoiar novos registros, avaliações e ações integradas de prevenção em diferentes regiões do país.
Perguntas frequentes
O que fazer ao encontrar uma onça-pintada?
Não corra, mantenha contato visual e evite movimentos bruscos. Procure se afastar com segurança e comunique o caso aos órgãos ambientais responsáveis.
Todo avistamento exige captura do animal?
Não. A captura ou o manejo dependem da avaliação técnica da ocorrência, do comportamento do animal e do nível de risco para pessoas e para a própria onça.
Como registrar um encontro com uma onça?
O registro pode ser feito na plataforma OIAA ONÇA, que reúne informações de ciência cidadã e permite a análise colaborativa por profissionais especializados.
Com informações de Ufam.
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