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Cães alteram rotina de onças-pardas em áreas de proteção em SP

Cães alteram rotina de onças-pardas em áreas de proteção em SP
Ilustração: IA

Estudo da Unesp revela que onças evitam locais após passagem de cachorros em unidades de conservação.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou que a presença de cães de vida livre em unidades de conservação do interior de São Paulo está alterando o comportamento das onças-pardas, um dos maiores predadores terrestres da região. A pesquisa, publicada na revista científica Biological Conservation, surpreendeu ao constatar que as onças-pardas modificam seus deslocamentos e o uso do espaço para evitar o contato com os cachorros, em vez de dominá-los como seria esperado de um predador de topo de cadeia.

As onças-pardas evitam os locais onde cães passaram, levando, em média, 74 horas para retornar ao mesmo ponto. A retomada do uso rotineiro da área só ocorre cerca de cinco a seis dias após a passagem canina, indicando uma estratégia consistente de evitar encontros.

Interação inusitada gera surpresa entre pesquisadores

A interação entre cães e onças-pardas foi o foco do artigo intitulado Puma in check: How domestic dogs influence the behavior of a top predator. O trabalho utilizou 67 armadilhas fotográficas instaladas em duas unidades de conservação paulistas: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara. Os registros acumulados permitiram analisar os padrões de deslocamento e uso do território por ambos os animais.

Segundo a bióloga Rita Bianchi, professora da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, em Jaboticabal, a observação do aumento no número de cães circulando dentro de áreas protegidas foi o ponto de partida para a investigação. "Em algumas unidades de conservação percebemos que, a cada nova amostragem, aumentava o número de registros de cães. Isso despertou nossa preocupação. Queríamos entender por que eles estavam ocupando essas áreas e quais consequências isso poderia trazer para a fauna nativa", explica.

Cães rurais de vida livre: um desafio crescente

O estudo destaca a figura dos cães rurais de vida livre, animais que, embora tenham tutores e alimentação, permanecem soltos, explorando fazendas, estradas, plantações e áreas de vegetação nativa. Grandes parte desses animais acaba invadindo as unidades de conservação, onde interagem com a fauna silvestre. Essa população é numericamente maior do que os cães selvagens de fato, e sua presença representa um desafio singular para a conservação.

A onça-parda (Puma concolor) foi escolhida para o estudo não apenas por ser um predador de topo, mas também por sua notável adaptabilidade a diferentes habitats e sua dieta generalista. Os dados coletados revelaram que, embora cães e onças possam frequentar as mesmas áreas, eles o fazem em diferentes momentos. A onça-parda reorganiza seu uso do espaço no tempo, minimizando as chances de encontros diretos com os cães.

"Como um amante de grandes felinos, eu achava que a onça parda ia impor respeito e controlar a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais pequenos, mas quando chegasse um animal maior o cenário ia mudar. Então foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães", afirmou Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp.

Implicações para a Amazônia e outras regiões

Embora o estudo tenha sido realizado em São Paulo, suas conclusões têm implicações para outras regiões brasileiras, incluindo a Amazônia, onde a interação entre fauna silvestre e animais domésticos, especialmente cães, é uma preocupação crescente. O problema dos cães de vida livre impacta não apenas grandes felinos, mas também outras espécies nativas, seja pela predação direta, transmissão de doenças ou competição por recursos. Um estudo liderado pela Unesp em 2024, verificou que 74% de registros de cães em áreas de conservação eram de cães semidesilvestres, reiterando a tendência observada.

A onça-parda está amplamente distribuída em todo o continente americano, do Canadá à Patagônia, sendo o felino com a maior distribuição geográfica nas Américas. Sua presença em biomas como a Amazônia e o Cerrado, por exemplo, a torna um importante indicador da saúde dos ecossistemas. O comportamento de evitação observado nestes estudos em São Paulo pode se replicar em outras regiões, evidenciando uma pressão invisível, mas significativa, sobre a ecologia desses predadores.

Entenda o caso: a pressão dos cães domésticos na vida silvestre

Os cães domésticos, descendentes dos lobos e domesticados há milhares de anos, têm uma população global que ultrapassa 1 bilhão. Muitos vivem em ambientes urbanos, mas uma parcela significativa, os cães rurais de vida livre, circulam sem controle em áreas naturais. Essa mobilidade crescente gera interações com a fauna silvestre, culminando em impactos ecológicos que, como mostra este estudo, afetam até mesmo predadores de topo como a onça-parda. Os possíveis motivos da evitação pela onça-parda incluem o receio de confrontos com matilhas ou a associação da presença canina com a atividade humana.

Os próximos passos da pesquisa incluem investigar de forma mais aprofundada os mecanismos por trás dessa evitação e quais as consequências a longo prazo para a dinâmica populacional das onças-pardas e outros grandes felinos em áreas com alta densidade de cães de vida livre. A compreensão dessas interações é crucial para o desenvolvimento de estratégias de conservação eficazes que considerem a complexa relação entre humanos, animais domésticos e a vida selvagem.

Perguntas Frequentes

Por que as onças-pardas evitam os cães?

As onças-pardas podem evitar os cães tanto pelo risco de confrontos com matilhas quanto pela associação da presença canina com a atividade humana, que frequentemente vem acompanhada de veículos e outras ameaças.

Qual a duração da mudança de comportamento da onça-parda?

Após a passagem de um cão, a onça-parda demora cerca de 74 horas para retornar ao mesmo local e retoma o uso rotineiro da área somente após cinco ou seis dias.

Onde foi realizado o estudo?

O estudo foi realizado em duas unidades de conservação no interior paulista: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara.

Com informações de Unesp.

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