
Levantamento do Inpe mostra aumento de 282% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a vazante acelera e reduz a visibilidade na capital.
Fumaça retorna a Manaus durante a seca
O cheiro de fumaça voltou a ser percebido em Manaus, acompanhado de névoa persistente e redução da visibilidade em diferentes pontos da capital. Os relatos foram mais frequentes na Zona Norte, onde a presença do material suspenso alterou a aparência do céu e tornou o ar mais carregado durante os dias de setembro. O cenário reaparece no auge da estação seca amazônica, período marcado por menor volume de chuvas e maior presença de queimadas na região.
O episódio ocorre ao mesmo tempo em que o Amazonas registra uma aceleração expressiva nos focos de calor. Entre 1º e 19 de setembro de 2026, foram identificados 2.384 focos no estado pelo Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. No mesmo intervalo de 2025, o número havia sido de 624. A diferença é de 1.760 focos, uma alta de 282%, equivalente a 3,82 vezes o total observado um ano antes.
Curva de setembro muda o ritmo do ano
Os números não representam o acumulado anual, mas revelam a velocidade com que os registros cresceram em setembro. Em apenas 19 dias, o Amazonas concentrou uma quantidade de focos muito superior à observada no mesmo período do ano anterior. A comparação ajuda a dimensionar a mudança do ritmo justamente na fase mais seca do calendário regional, quando a vegetação perde umidade e o fogo encontra condições mais favoráveis para se espalhar.
No acumulado de 2026, o estado ainda está distante do recorde registrado em 2024. O dado que chama atenção agora é a inclinação da curva em setembro, com uma diferença de milhares de ocorrências em relação à comparação anual. Focos de calor são pontos detectados por sensores de satélite que indicam temperatura elevada na superfície. Eles podem estar associados a queimadas, incêndios ou outras fontes de calor, e o registro não equivale automaticamente à medição da área atingida.
Rio Negro baixa mais rápido em setembro
A fumaça retorna enquanto o rio Negro também apresenta uma vazante acelerada. Em 18 de setembro de 2026, o nível medido no Porto de Manaus era de 21,26 metros, 3,41 metros abaixo da marca observada na mesma data de 2025. Nos primeiros 18 dias deste mês, o rio havia descido 2,83 metros. No mesmo período do ano anterior, a queda registrada foi de 2,01 metros.
O Serviço Geológico do Brasil projeta que a vazante de 2026 pode ser a terceira mais severa da história, atrás das ocorridas em 2023 e 2024. A combinação de estiagem, descida do nível do rio e avanço dos focos define o contexto ambiental de setembro no entorno de Manaus. A leitura desses indicadores exige cuidado, porque cada série descreve um aspecto diferente do período seco e os números devem ser analisados em conjunto, sem transformar a coincidência temporal em uma explicação automática.
Partículas da fumaça chegam aos pulmões
O principal risco à saúde está relacionado ao material particulado fino presente na fumaça, conhecido como PM2,5. Essas partículas são pequenas o suficiente para alcançar os alvéolos pulmonares, estruturas responsáveis pelas trocas gasosas no organismo. Em dias de concentração elevada, crianças, idosos, pessoas com asma e gestantes formam os grupos que exigem maior atenção, especialmente quando o cheiro fica intenso ou a visibilidade diminui.
As orientações de saúde pública para esses períodos incluem evitar exercícios ao ar livre nos horários em que a fumaça estiver mais densa, manter as janelas fechadas quando o odor estiver forte e reforçar a hidratação. A redução da exposição é especialmente importante para quem já apresenta sintomas respiratórios. Tosse, irritação e dificuldade para respirar são sinais que merecem atenção, sobretudo quando aparecem ou se intensificam durante a permanência em áreas tomadas pela fumaça.
Dados foram divulgados em 21 de setembro
Os dados sobre os focos de calor foram divulgados em 21 de setembro de 2026 pelo Programa Queimadas do Inpe e repercutidos pelo BNC Amazonas. A contagem considera o intervalo de 1º a 19 de setembro, o que explica a referência a 19 dias no balanço. O número de 2.384 focos pode ser comparado diretamente com os 624 registrados no mesmo recorte de 2025, permitindo calcular a diferença absoluta de 1.760 ocorrências e o aumento de 282%.
Em Manaus, a fumaça e a névoa foram relatadas no mesmo período em que o nível do rio Negro marcava 21,26 metros no Porto da cidade. A vazante projetada para 2026 acrescenta uma dimensão histórica ao cenário, mas a consequência mais imediata para a população é a piora da qualidade do ar nos momentos de maior concentração. O céu encoberto lembra que a estação seca não se mede apenas pela régua do rio ou pelos pontos vistos pelos satélites. Ela também chega ao cotidiano pelo cheiro, pela respiração e pela distância que os olhos deixam de alcançar.
Com informações de BNC Amazonas, com dados do Inpe.
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