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Gravações de bioacústica subaquática revelam que o boto-cor-de-rosa possui comunicação social vasta e complexa nos rios da Amazônia

O boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), principal cetáceo das bacias hidrográficas sul-americanas, emite um vasto repertório de sons sociais subaquáticos mapeados recentemente por pesquisadores através do uso de microfones especializados instalados em locais de agregação comunitária na Amazônia.

Historicamente, os golfinhos de água doce foram classificados pela biologia e pela literatura científica tradicional como animais predominantemente silenciosos, isolados e dotados de uma estrutura social simplista quando comparados aos seus parentes marinhos, como as orcas e os golfinhos-nariz-de-garrafa. Acreditava-se que o uso do som pelo boto-cor-de-rosa limitava-se quase que exclusivamente a estalidos curtos e ultrassônicos voltados para a ecolocalização — o radar biológico indispensável para navegar e localizar peixes em águas de visibilidade nula devido ao excesso de sedimentos e lodo. No entanto, o avanço tecnológico na área da bioacústica e da ecoacústica subaquática subverteu esse paradigma. Ao mergulharem hidrofones digitais de alta sensibilidade e combinarem o monitoramento sonoro a análises genéticas e de inteligência artificial, cientistas brasileiros e internacionais descobriram que os botos mantêm uma rede de comunicação acústica rica, diversificada e de forte cunho social.

O grande desafio metodológico que impedia o mapeamento do universo sonoro do boto-cor-de-rosa residia nas próprias características físicas e acústicas dos rios amazônicos. Diferente dos oceanos abertos, onde as ondas de som viajam por quilômetros de forma linear sem grandes interferências, os rios e as florestas inundadas (igapós) constituem ambientes extremamente ruidosos. O barulho de fundo provocado pelo movimento das correntezas, pela queda de galhos, pela chuva torçal equatorial e pelas embarcações rurais cria uma barreira de interferência eletroacústica severa. Além disso, as vocalizações sociais dos botos possuem frequências e durações muito distintas dos assobios longos e contínuos dos golfinhos marinhos, caracterizando-se por sons mais curtos, graves e transições de frequência rápidas que passavam despercebidos por equipamentos de gravação analógicos antigos.

Para romper essa barreira e decodificar a linguagem do boto, equipes de pesquisadores nacionais instalaram hidrofones automatizados associados a câmeras subaquáticas em pontos de forte interação antrópica e natural, como na área do mercado de peixes do município de Mocajuba, no Pará, às margens do Rio Tocantins. Nesse local, onde os indivíduos são identificados individualmente por suas marcas biológicas e cicatrizes corporais naturais, os cientistas conseguiram registrar mais de duzentos sons diferentes emitidos pelos animais. Ao todo, o inventário acústico catalogou cerca de 237 tipos de vocalizações distintas, revelando uma das maiores complexidades de comunicação já registradas entre os cetáceos de águas continentais do planeta.

Os dados processados por redes neurais artificiais indicam que o tipo de som mais comum e repetitivo registrado nos hidrofones ocorre em contextos de forte vínculo familiar e cuidado parental. Os chamados e assobios curtos apresentaram um pico de ocorrência drástico quando fêmeas adultas estavam acompanhadas por seus filhotes na área de amostragem. Os cientistas sugerem que essas vocalizações funcionam como assinaturas de contato ou “nomes acústicos” de curta distância, permitindo que a mãe e o filhote mantenham a coesão do par e não se percam em meio à correnteza ou quando adentram a vegetação densa e emaranhada dos igapós inundados durante a cheia, onde a visibilidade visual é nula.

Além dos assobios de contato materno, os hidrofones captaram uma diversidade de sons de baixa frequência associados a interações sociais complexas de cunho agonístico (disputas territoriais) e reprodutivo. Os botos emitem sons descritos pelos bioacústicos como “rosnados”, “estalos” e “grunhidos” quando estão disputando espaços de alimentação ou quando os machos tentam impressionar as fêmeas em rituais de cortejo. Essas exibições de comunicação mostram que, embora os botos não formem grandes cardumes estruturados como os golfinhos do mar, eles mantêm interações dinâmicas e de alta complexidade social quando se encontram em áreas com grande abundância de recursos alimentares de subsistência.

Outra vertente fascinante revelada pela bioacústica subaquática aponta para a existência de possíveis dialetos acústicos regionais entre as diferentes populações de botos distribuídas pelos rios da América do Sul. Pesquisas comparativas demonstram que as propriedades acústicas das vocalizações dos botos que habitam a bacia do Rio Amazonas (Inia geoffrensis) diferem de forma estatisticamente significativa das frequências de som emitidas pelas populações do Rio Araguaia e da bacia boliviana. Essas barreiras geográficas e geológicas parecem estar moldando variações de “linguagem” local, um indício contundente de evolução cultural e isolamento comportamental em andamento nas águas doces do país.

A preservação do ecossistema acústico da Amazônia é fundamental para garantir a sobrevivência e a integridade reprodutiva do boto-cor-de-rosa, espécie que atualmente encontra-se classificada como ameaçada de extinção devido às pressões antrópicas. A proliferação do tráfego de barcos a motor sem isolamento acústico, a construção de usinas hidrelétricas que fragmentam os rios e o ruído industrial gerado por portos provocam o fenômeno da poluição sonora subaquática. Esse ruído antropogênico contínuo amortece os canais de comunicação dos botos, mascarando seus sons sociais e interferindo em seu sistema de ecolocalização, o que pode desorientar os animais e aumentar as taxas de atropelamentos por hélices e emalhamento acidental em redes de pesca.

Implementar o monitoramento acústico passivo por inteligência artificial em larga escala é uma ferramenta de conservação inovadora desenvolvida por institutos de pesquisa nacionais, como o Instituto Mamirauá. Esses sistemas permitem mapear a densidade populacional e os movimentos dos botos em tempo real sem causar estresse físico ou capturas arriscadas para os animais. Ao desvendarmos o código secreto das vocalizações do boto-cor-de-rosa, a ciência brasileira demonstra a sofisticação intelectual da nossa fauna, transformando o maior personagem do folclore amazônico em um modelo de alta relevância biológica e conservacionista para o patrimônio ecológico e tecnológico do planeta.

Como gravações de bioacústica subaquática revelaram que o boto-cor-de-rosa emite sons sociais nos rios | Saiba como o uso de hidrofones e algoritmos permitiu catalogar mais de 200 vocalizações complexas do cetáceo amazônico.

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