
Solitário e de atividade diurna, crepuscular e noturna, o cervídeo evita a ameaça primeiro com imobilidade e depois com fuga
O veado-mateiro (Mazama americana) é o maior dos veados do gênero Mazama e vive em florestas da América do Sul. Quando percebe uma ameaça, pode primeiro ficar imóvel. Se o perigo se aproxima, salta pela vegetação fechada ou atravessa um rio a nado. O Animal Diversity Web, base de dados do Museu de Zoologia da Universidade de Michigan, descreve essa sequência: o animal às vezes congela no lugar ao ver ou ouvir algo se aproximar e, diante de risco imediato, foge por dentro da mata densa ou nada para o outro lado.
Esse comportamento combina com o modo de vida da espécie, que é solitária, se abriga na vegetação fechada e usa a água como refúgio. Os dados a seguir vêm principalmente da avaliação do estado de conservação do veado-mateiro publicada por Duarte e colaboradores (2012) na revista Biodiversidade Brasileira, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Imobilidade, fuga e refúgio na água
Segundo Duarte e colaboradores (2012), a espécie utiliza ambientes florestais primários e secundários, desde campos próximos a matas de galeria até florestas fechadas, com preferência por locais perto de corpos d’água. O veado-mateiro abriga-se na vegetação fechada e pode se refugiar dentro da água por ser um grande nadador. Na Amazônia, de acordo com Bodmer (1997), prefere as encostas de florestas úmidas de terra firme.
Os predadores naturais são a onça-pintada e a onça-parda, e o ser humano também caça a espécie, segundo o Animal Diversity Web. Para um animal de porte médio, ficar parado e depois correr para a mata fechada ou para a água são respostas que reduzem as chances de captura. A cauda tem a face inferior branca, característica descrita para a espécie, mas as fontes de história natural consultadas não registram que ela seja erguida como sinal de alerta para outros indivíduos, comportamento que a literatura descreve para o veado-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus) da América do Norte.
Hábito solitário e atividade em qualquer hora
O padrão de atividade do veado-mateiro é chamado de catemeral: ele se movimenta de dia, ao entardecer e à noite, de acordo com Duarte e colaboradores (2012). A espécie é solitária, embora possa ser vista em pares no período reprodutivo (Azevedo, 2008; Vogliotti, 2008). Não há, portanto, uma manada organizada em torno de cada animal.
A reprodução também não segue uma estação rígida. Os machos não apresentam variação sazonal de androgênios nem troca anual dos chifres (Versiani e colaboradores, 2009), e os nascimentos ocorrem ao longo do ano (Pinder, 1997). A gestação dura cerca de sete meses, aproximadamente 225 dias, e nasce um único filhote, com listras brancas irregulares no dorso (Nowak, 1991).
Cardápio de frutos, sementes e fungos
O veado-mateiro alimenta-se de frutas, sementes, fungos, flores e brotos, e recorre a folhas e gramíneas quando os frutos ficam escassos, segundo Duarte e colaboradores (2012). Leeuwenberg e Lara-Resende (1994) o consideram uma espécie muito seletiva na alimentação, portanto vulnerável à degradação do ambiente, e sugerem seu uso como indicadora de qualidade da mata.
O Animal Diversity Web afirma que o consumo e o transporte de sementes ajudam a moldar as comunidades de plantas da floresta. Na época de menor oferta de frutos e fungos, o cervídeo come caules, cascas, folhas e até matéria animal, de acordo com a mesma fonte. A dispersão de sementes por essa espécie, porém, ainda tem poucas medições diretas em campo.
Uma espécie, vários cariótipos
A taxonomia do veado-mateiro é incerta. Hoje são descritos pelo menos sete citótipos diferentes, com número de cromossomos variando de 42 a 53 (Duarte e colaboradores, 2008; Abril e colaboradores, 2010). Duarte e Merino (1997) encontraram um polimorfismo citogenético que parece indicar a existência de várias espécies dentro do que se chama Mazama americana.
Por causa dessa inconsistência, a avaliação do ICMBio classifica a espécie como Dados Insuficientes. Rossi (2000), no entanto, não observou diferenças morfológicas entre exemplares coletados em regiões diferentes do Brasil. Se as sugestões de Abril e colaboradores (2010) forem aceitas, a espécie seria dividida em pelo menos duas, e a que ocorre na bacia do rio Paraná poderia ser considerada ameaçada.
Densidade baixa e ameaças
A espécie ocorre do sul do México ao norte da Argentina e se distribui por todo o Brasil, da margem direita do rio Amazonas ao Rio Grande do Sul. As densidades registradas são baixas: cinco indivíduos por quilômetro quadrado em um fragmento de floresta estacional semidecidual em São Paulo (Oliveira, 2010) e 0,24 indivíduo por quilômetro quadrado nas florestas de uma área do Pantanal (Desbiez e colaboradores, 2010). Não se conhece a tendência populacional.
Duarte e colaboradores (2012) apontam como ameaças a perda e a fragmentação do habitat, a introdução de doenças por bovinos domésticos, como febre aftosa e brucelose, e a caça de subsistência e comercial. Em âmbito estadual, a espécie foi considerada Em Perigo no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro e Vulnerável em São Paulo. Segundo os autores, não existem ações de conservação dirigidas especificamente a ela.
Observar um veado-mateiro parado entre as árvores, portanto, é ver uma estratégia de sobrevivência baseada em discrição: ficar imóvel, escolher a cobertura da mata, usar a água como rota de fuga e se alimentar de frutos que dependem de floresta preservada. Quanto mais fragmentada a mata, menor a chance de o animal repetir esse roteiro.
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