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Genoma revela quinto gato-tigre na Bolívia, espécie separada há 1,4 milhão de anos

Genoma revela quinto gato-tigre na Bolívia, espécie separada há 1,4 milhão de anos
Foto: Chris Simms

O tilcayo vive nas florestas de Yungas e só foi reconhecido após a análise genética de 38 felinos.

Um pequeno felino manchado, do tamanho aproximado de um gato doméstico, acaba de ganhar um nome científico próprio. Encontrado nas florestas bolivianas de Yungas, no lado oriental dos Andes, o animal foi identificado como uma espécie distinta depois que pesquisadores compararam o genoma completo de 38 indivíduos do gênero Leopardus. O resultado é o reconhecimento do Leopardus tilcayo, o quinto gato-tigre conhecido na América do Sul.

A descoberta não veio de uma diferença evidente na pelagem ou no tamanho. Esses animais são noturnos, discretos e tão parecidos entre si que a observação em campo raramente basta para separá-los. A distinção apareceu no DNA, que revelou uma linhagem evolutiva própria entre os felinos analisados.

Uma família que passou décadas escondida à vista

Os gatos-tigres vivem em uma ampla faixa do continente, da Costa Rica a países como Bolívia, Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador e Peru. Durante muito tempo, populações com diferenças regionais foram reunidas sob um único nome científico, Leopardus tigrinus.

O avanço dos estudos genéticos mudou esse quadro. Em 2013, a ciência reconheceu oficialmente o gato-tigre-do-sul, Leopardus guttulus. Em 2017, Leopardus emiliae voltou a ser tratado como espécie própria. Em 2024, foi reconhecido o gato-tigre-nublado, Leopardus pardinoides. O tilcayo é o quinto integrante dessa divisão, em um processo que revisa classificações feitas quando os pesquisadores tinham acesso a muito menos informação molecular.

Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, participou da pesquisa. Segundo o estudo publicado na revista Current Biology em setembro de 2026, o Leopardus tilcayo foi identificado nas florestas de Yungas bolivianas por apresentar uma combinação genética diferente das demais linhagens de gatos-tigres.

O que o DNA revelou sobre o tilcayo

Para chegar ao resultado, os cientistas sequenciaram e compararam genomas completos de 38 animais do gênero Leopardus. Desse conjunto, 26 eram gatos-tigres coletados em diferentes pontos da área onde o grupo é conhecido. Em vez de observar somente a aparência, a equipe procurou sinais de parentesco, separação evolutiva e mistura genética entre as populações.

A análise indicou que a linhagem do tilcayo se separou da ancestral que reúne Leopardus tigrinus e Leopardus pardinoides há quase 1,4 milhão de anos. Esse intervalo não significa que o animal tenha permanecido exatamente igual desde então, mas mostra que sua trajetória evolutiva é antiga e suficientemente independente para justificar o reconhecimento como espécie.

O novo felino mede entre 42 e 50 centímetros da cabeça ao corpo e pesa de 1,5 a 2 quilos. A identificação visual, no entanto, continua difícil. As cinco espécies de gato-tigre têm aparência muito semelhante, uma característica chamada pelos pesquisadores de críptica. Na prática, fotografias ou observações rápidas podem não ser suficientes para determinar a qual espécie pertence um indivíduo.

Outra linhagem pode estar escondida nos Andes

O mesmo trabalho também apontou uma população geneticamente distinta nas florestas de Yungas do Peru, no lado oeste dos Andes. Ela pertence à linhagem de Leopardus tigrinus e foi descrita pelos autores como uma nova subespécie, Leopardus tigrinus antisuyo.

A existência de montanhas, rios e outros obstáculos geográficos ajuda a explicar por que populações de pequenos felinos podem permanecer isoladas por longos períodos. Os Andes, em particular, formam uma paisagem com mudanças bruscas de altitude e de vegetação. Essas barreiras podem reduzir o cruzamento entre grupos e favorecer a formação de novas linhagens.

Para Leslie Lyons, da Universidade da Califórnia em Davis, a revisão da taxonomia não é inesperada porque esses gatos são difíceis de encontrar e observar. A pesquisadora avalia que ainda pode haver outras populações com história evolutiva própria em áreas pouco estudadas da América do Sul.

O que a descoberta muda para a conservação

Reconhecer uma espécie não é apenas acrescentar um nome à lista de felinos. A mudança pode alterar a forma como o risco de desaparecimento é calculado. Antes, uma população pequena e isolada poderia ser avaliada junto com grupos maiores de Leopardus tigrinus. Agora, os dados sobre o tilcayo precisam ser examinados separadamente.

O gato-tigre, tratado de forma ampla, está classificado como vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Já o tilcayo e a subespécie peruana ainda precisam passar por avaliações próprias. O desmatamento provocado pela expansão da agricultura aparece como uma preocupação central, porque reduz e fragmenta as florestas onde esses animais vivem.

A conexão com o Brasil é direta, embora o novo felino não tenha sido identificado no território brasileiro. O país está entre as áreas de ocorrência dos gatos-tigres e reúne diferentes ambientes florestais ligados à grande paisagem sul-americana. Para os estados amazônicos, o caso reforça uma questão conhecida por pesquisadores e comunidades: animais visualmente semelhantes podem esconder diferenças genéticas importantes, e a perda de floresta pode eliminar linhagens antes mesmo que elas sejam estudadas.

O próximo passo será reunir mais dados sobre a distribuição, o tamanho das populações e as ameaças ao Leopardus tilcayo, para que a espécie seja avaliada individualmente e incluída em estratégias específicas de proteção.

Com informações de Current Biology.

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