A aranha que se finge de morta por fungo zumbi: espécie nova da Amazônia imita o cadáver de outra aranha tomado pelo parasita

A aranha que se finge de morta por fungo zumbi: espécie nova da Amazônia imita o cadáver de outra aranha tomado pelo parasita
Foto: D. Newman e P. Kaishian/Wikimedia Commons (CC BY 3.0). Aranha morta coberta pelo fungo Gibellula, o tipo de fungo que a nova espécie imita (registro feito nos EUA).

Uma aranha recém-descrita na Amazônia equatoriana sobrevive fingindo ser um cadáver. A Taczanowskia waska imita, com o corpo e com o comportamento, uma aranha morta e coberta pelo fungo Gibellula, um parasita que infecta e mata aranhas. A descrição foi publicada na revista científica Zootaxa por David R. Díaz-Guevara, da Fundação Waska Amazonía e do Instituto Nacional de Biodiversidade do Equador (INABIO), Alexander Griffin Bentley, da mesma fundação, e Nadine Dupérré, do Museu da Natureza de Hamburgo, na Alemanha. Segundo os autores, é o primeiro caso registrado de um aracnídeo que imita um fungo patogênico de aranhas.

Confundida com um “cordyceps”

O primeiro exemplar foi encontrado em 8 de agosto de 2025, durante uma caminhada noturna na reserva da Fundação Waska Amazonía, em Mera, na província de Pastaza, no Equador. A área fica na cabeceira do rio Pastaza, um afluente do Amazonas, na transição entre a floresta de sopé e a floresta montana, ao pé da Cordilheira dos Andes.

Os observadores acharam que estavam diante de um fungo Gibellula, do grupo popularmente chamado de cordyceps, e recolheram o achado porque nunca tinham visto um vivo. Ao publicar as fotos na plataforma de ciência cidadã iNaturalist, receberam o aviso de outros usuários: aquilo era uma aranha do gênero Taczanowskia. Segundo o artigo, ela só se mexeu quando foi tocada.

Como funciona o disfarce

Os fungos Gibellula costumam ficar presos à face de baixo das folhas, protegidos da chuva. A aranha foi encontrada exatamente nessa posição, de cabeça para baixo sob uma folha de arácea, a cerca de 1,45 metro do chão, com o saco de ovos pendurado perto. Segundo os pesquisadores, o disfarce reúne vários detalhes:

  • o abdômen claro, com pequenos espinhos brancos, imita o micélio, a parte “algodoada” do fungo;
  • dois tubérculos no abdômen parecem as estruturas de frutificação do Gibellula, com uma penugem amarelada na base;
  • as pernas, quase transparentes, ficam recolhidas e somem de vista;
  • a imobilidade completa reproduz uma aranha morta tomada pelo parasita.

O exemplar descrito é uma fêmea com cerca de 9 milímetros de comprimento e um abdômen mais largo do que longo, característica do gênero.

Defesa e armadilha ao mesmo tempo

Os autores levantam duas funções para o disfarce. A primeira é de defesa: predadores como aves evitariam algo que parece uma presa morta e contaminada. A segunda é de caça. As aranhas Taczanowskia são parentes das aranhas que tecem teias circulares, mas não fazem teia. Ficam paradas e agarram pequenos invertebrados que passam por perto, usando uma garra aumentada. Um inseto que vê uma aranha morta por fungo não teria motivo para fugir.

Um exemplar esquecido desde 1903

Durante a pesquisa, os cientistas encontraram outro exemplar da mesma espécie na coleção do Museu da Natureza de Hamburgo. Ele havia sido coletado na Bolívia em julho de 1903 e estava guardado havia mais de 120 anos sem ser identificado como espécie nova. O nome waska homenageia a fundação onde a aranha foi achada e, na língua kichwa, significa raiz ou cipó, como a planta em que ela vivia.

Parentes no Brasil

O artigo também reúne registros de ciência cidadã de outras aranhas da mesma família com aparência parecida com a de um fungo, no Vietnã, em Uganda, em Madagascar e no litoral do Brasil. No caso brasileiro, os autores propõem que a aranha Mastophora leucacantha, fotografada por um observador na plataforma iNaturalist, tenha um disfarce semelhante. Para os pesquisadores, isso sugere que mais de uma linhagem de aranhas desenvolveu esse tipo de imitação.

Entenda

Gibellula é um gênero de fungos que infecta aranhas. O fungo cresce dentro do corpo do hospedeiro, mata o animal e depois cobre o cadáver de micélio branco e estruturas que liberam esporos. Ele é parente dos fungos que transformam formigas em “zumbis”.

Mimetismo é quando um organismo imita outro ser vivo para obter vantagem, como escapar de predadores ou enganar presas.

Perguntas frequentes

Onde a aranha foi encontrada?

Na reserva da Fundação Waska Amazonía, em Pastaza, na Amazônia do Equador, e em um exemplar antigo coletado na Bolívia.

O que ela imita?

Uma aranha morta e coberta pelo fungo parasita Gibellula.

Por que isso é inédito?

Segundo os autores, é o primeiro caso registrado de aracnídeo que imita um fungo que ataca aranhas.

Ela é perigosa?

Não há registro de risco para pessoas. É uma aranha pequena, rara e difícil de encontrar.

Os pesquisadores defendem que plataformas de ciência cidadã ajudem a localizar outras populações da espécie e a estudar o comportamento de um gênero de que quase nada se sabe.

Com informações do artigo publicado na revista Zootaxa por pesquisadores da Fundação Waska Amazonía, do Instituto Nacional de Biodiversidade do Equador (INABIO) e do Museu da Natureza de Hamburgo.

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