
Relatório da ONU mostra que proteger a variedade da vida é uma das formas mais baratas de frear o aquecimento, e a Amazônia está no centro dessa conta.
Imagine uma esponja gigante que, todos os anos, absorve cerca de metade da poluição de carbono lançada pelas atividades humanas. Essa esponja existe: são as florestas, os solos, as zonas úmidas e o oceano. Segundo a Organização das Nações Unidas, quando os humanos produzem gases de efeito estufa, cerca de metade fica na atmosfera e a outra metade é absorvida por terra e mar. O risco é que a esponja esteja encolhendo, e a Amazônia é um dos pontos mais sensíveis dessa história.
O que é biodiversidade e por que ela entra na conta do clima
Biodiversidade, ou diversidade biológica, é a variedade de vida na Terra, em todas as formas: de genes e bactérias a ecossistemas inteiros, como florestas e recifes de coral. É resultado de 4,5 bilhões de anos de evolução, cada vez mais influenciada pelos humanos.
Ela sustenta a comida, a água, os remédios e a estabilidade do clima. Mais da metade do PIB mundial depende da natureza, e mais de 1 bilhão de pessoas dependem das florestas para viver.
Ecossistemas saudáveis funcionam como sumidouros naturais de carbono, isto é, lugares que retiram gás carbônico do ar e o mantêm armazenado. Por isso, proteger e restaurar a natureza é chamado de solução baseada na natureza.
Onde o carbono fica guardado
Nem todo ambiente guarda carbono do mesmo jeito. Segundo a ONU, proteger, manejar e restaurar florestas responde por cerca de dois terços do potencial de mitigação de todas as soluções baseadas na natureza. As florestas ainda cobrem mais de 30% das terras do planeta.
As turfeiras, áreas alagadas como pântanos e brejos, ocupam apenas 3% da superfície terrestre, mas armazenam o dobro do carbono de todas as florestas. A lógica é a de uma conserva: enquanto o solo permanece encharcado, o carbono não oxida e não volta ao ar. Secar uma turfeira é abrir a lata.
No mar, pradarias de gramas marinhas e manguezais capturam gás carbônico em taxas de até quatro vezes as das florestas terrestres. Para a região amazônica, que tem extenso litoral de mangue no Pará, Amapá e Maranhão, o dado tem peso direto.

No conjunto, cerca de um terço das reduções de emissões necessárias na próxima década poderia vir do aumento da capacidade da natureza de absorver carbono.
A esponja está falhando
A ONU alerta que até 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, muitas em poucas décadas. Cerca de 85% das zonas úmidas, como os manguezais e os pântanos salgados, já desapareceram.
Sobre a floresta, o texto é direto: ecossistemas insubstituíveis, como partes da Amazônia, estão deixando de ser sumidouros de carbono para virar fontes, por causa do desmatamento. Na prática, o que antes ajudava a resfriar o planeta passa a esquentá-lo.
A principal causa da perda de biodiversidade continua sendo o uso da terra, sobretudo para produzir alimentos. A atividade humana já alterou mais de 70% de toda a terra livre de gelo. Quando uma área vira lavoura ou pasto, plantas e animais perdem o habitat.
O clima entra como segundo golpe
O aquecimento ganha peso crescente nesse processo. Segundo a ONU, a mudança climática já alterou ecossistemas marinhos, terrestres e de água doce, causou perda de espécies locais, aumento de doenças e mortes em massa de plantas e animais, resultando nas primeiras extinções causadas pelo clima.
Em terra, espécies sobem para altitudes maiores ou migram para latitudes mais próximas dos polos. O risco de extinção aumenta a cada grau de aquecimento. Nos oceanos, 14% dos corais do mundo foram perdidos entre 2009 e 2018, principalmente pelo clima, e mais calor ameaça quase todos os recifes restantes.
Há ainda efeito sobre a saúde. Quando animais e vírus mudam de lugar, aumentam as chances de doenças passarem aos humanos. Para populações amazônicas que dependem de pesca, frutos e plantas medicinais, a perda de serviços da natureza atinge alimento, remédio e renda.

Dois acordos, uma mesma crise
Clima, perda de biodiversidade e poluição formam o que a ONU chama de tripla crise planetária. Os governos tratam o assunto em duas convenções, ambas criadas na Rio-92: a de Mudança do Clima (UNFCCC) e a da Diversidade Biológica (CBD).
Em dezembro de 2022, na COP15, em Montreal, os países adotaram o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que sucede as Metas de Aichi, de 2010. O texto busca combater as causas da perda de biodiversidade, restaurar ecossistemas e proteger os direitos dos povos indígenas.
Inger Andersen, diretora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, resumiu a ligação: “Delivering on the framework will contribute to the climate agenda, while full delivery of the Paris Agreement is needed to allow the framework to succeed”. Ela acrescentou: “We can’t work in isolation if we are to end the triple planetary crises.”
O secretário-geral da ONU afirmou: “Indigenous Peoples, people of African descent, and local communities are guardians of our nature. Their traditional knowledge is a living library of biodiversity conservation.” Na Amazônia, onde terras indígenas figuram entre as áreas mais preservadas, a frase tem aplicação concreta.
Quem paga a conta
Em novembro de 2024, na COP16, em Cali, na Colômbia, os países chegaram a um consenso sobre o funcionamento do Fundo de Cali. Ele foi lançado em Roma, em fevereiro de 2025, e deve receber contribuições de empresas que usam comercialmente dados de recursos genéticos. A meta é levantar 200 bilhões de dólares adicionais por ano até 2030 para cobrir a lacuna de financiamento da biodiversidade.
“Those profiting from nature cannot treat it like a free, infinite resource. They must step up and contribute to its protection and restoration”, disse o secretário-geral da ONU.
Os detalhes científicos estão no relatório do IPCC sobre riscos de extinção e na publicação do PNUMA sobre soluções baseadas na natureza. A expectativa é que as metas do Marco de Kunming-Montreal e a regulamentação do Fundo de Cali sejam acompanhadas nas próximas conferências do clima e da biodiversidade, incluindo a COP30, realizada em Belém.
Com informações da Organização das Nações Unidas (ONU).
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