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“Isto não é alga”: as plantas que cobrem praias formam um pulmão verde capaz de guardar carbono sob a areia por séculos

Faixas de folhas marrons acumuladas em uma praia podem parecer sujeira ou algas arrancadas pelo mar. Em muitos litorais do Mediterrâneo, porém, parte desse material vem de pradarias marinhas: plantas com raízes, caules, folhas, flores e sementes que vivem totalmente submersas.

A diferença não é apenas de nome. Algas formam grupos biológicos diversos e não possuem a mesma organização das plantas vasculares. Fanerógamas marinhas descendem de plantas terrestres que retornaram ao oceano e desenvolveram adaptações para polinização, luz e salinidade sob a água.

Uma floresta baixa cresce no fundo do mar

Pradarias se fixam em sedimentos rasos, onde a luz alcança as folhas. Rizomas se espalham horizontalmente e produzem novos brotos. Essa rede estabiliza o fundo e reduz a ressuspensão de areia e lodo.

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As folhas diminuem a velocidade da água e capturam partículas. O resultado pode ser uma água mais clara, condição que permite maior entrada de luz e favorece o próprio crescimento. É um ciclo positivo que se rompe quando turbidez, dragagem ou poluição reduzem a fotossíntese.

Peixes juvenis, cavalos-marinhos, moluscos, crustáceos e tartarugas usam esses campos como abrigo e alimento. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente informa que pradarias ocupam apenas cerca de 0,1% do fundo oceânico, mas sustentam berçários ligados a mais de um quinto das 25 maiores pescarias do mundo.

As espécies variam entre oceanos. No Mediterrâneo, Posidonia oceanica forma pradarias antigas e densas. Em outras costas aparecem gêneros como Zostera, Thalassia e Halophila. A função geral é semelhante, mas velocidade de crescimento, tolerância à temperatura e capacidade de restauração não são iguais.

O “pulmão verde” é uma metáfora útil, mas incompleta

Durante a fotossíntese, as plantas consomem dióxido de carbono e liberam oxigênio. Em dias claros, uma pradaria produtiva pode elevar o oxigênio ao redor das folhas. À noite, plantas, animais e microrganismos respiram e consomem parte dele.

Por isso, chamar o ecossistema de pulmão não significa que todo oxigênio produzido abasteça permanentemente a atmosfera. O valor real combina produção primária, abrigo, filtragem da água e armazenamento de carbono.

O carbono capturado pelas folhas pode ser enterrado no sedimento. Em áreas com pouco oxigênio no subsolo, a decomposição é lenta. Raízes, rizomas e partículas trazidas pela água acumulam-se em camadas que persistem por séculos.

Uma área pequena guarda uma parcela desproporcional de carbono

O Pnuma estima que pradarias marinhas podem armazenar até 18% do carbono oceânico apesar de sua área reduzida. Os números variam conforme espécie, profundidade, sedimento e método de cálculo, mas o princípio é consistente: grande parte do estoque fica sob o fundo, não apenas nas folhas visíveis.

Isso torna a destruição duplamente prejudicial. A planta deixa de capturar carbono e o sedimento revolvido pode expor matéria antiga à decomposição. Proteger o estoque existente pode ser tão importante quanto restaurar novas áreas.

Restaurar não é simplesmente lançar sementes no mar. É necessário corrigir a causa da perda, como esgoto, ancoragem, obras, excesso de nutrientes ou turbidez. Sem água adequada, os brotos não recebem luz suficiente.

Âncoras e correntes podem abrir cicatrizes em poucos minutos. Boias de amarração instaladas fora das áreas sensíveis reduzem dano mecânico. Em locais turísticos, mapas náuticos e fiscalização são tão importantes quanto campanhas voltadas aos banhistas.

As folhas na praia também protegem a costa

O material acumulado na areia, chamado de arribação em alguns contextos, amortece ondas, retém sedimento e abriga pequenos organismos. Removê-lo com máquinas para produzir uma praia visualmente “limpa” pode acelerar erosão e destruir alimento.

Isso não impede manejo em áreas urbanas, sobretudo quando resíduos plásticos e lixo se misturam às folhas. A diferença está em separar limpeza de resíduos da retirada sistemática de matéria natural. Placas informativas ajudam banhistas a compreender que a faixa escura pode ser sinal de um ecossistema próximo.

Nem toda massa vegetal na praia vem de pradarias. Identificação depende da espécie e do litoral. A pauta francesa chama atenção justamente para a necessidade de olhar folhas, raízes e origem antes de usar o rótulo genérico “algas”.

O desaparecimento costuma começar antes de ser percebido

Pradarias podem perder densidade aos poucos. A água fica turva, clareiras crescem e o sedimento passa a se mover. Quando grandes áreas somem, peixes e invertebrados perdem estrutura de abrigo, e a praia pode responder com maior erosão.

Monitoramento por mergulho, imagens aéreas e satélites permite mapear extensão. Como tempestades e estações alteram naturalmente a aparência, séries longas são essenciais. Uma fotografia isolada não demonstra recuperação ou declínio.

Essas plantas permanecem pouco conhecidas porque quase tudo acontece abaixo da superfície. Quando folhas chegam à areia, tornam-se o vestígio mais visível de uma paisagem submersa. Antes de tratá-las como sujeira, é preciso reconhecer o que representam: raízes vivas estabilizando o fundo, folhas filtrando água e sedimentos guardando carbono muito depois de a maré mudar.

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