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Uma lacraia entrou numa estrutura de madeira no Parque Cristalino, agarrou um morcego pelo pescoço e revelou uma cena raríssima na Amazônia

O morcego estava abrigado dentro de uma construção de madeira no Parque Estadual Cristalino, no norte de Mato Grosso. Provavelmente escolhera aquele espaço pelo mesmo motivo que tantos morcegos utilizam telhados, ocos de árvores e frestas: proteção durante as horas de repouso.

Naquela ocasião, entretanto, o abrigo transformou-se em uma armadilha.

Uma lacraia da espécie Scolopendra viridicornis entrou na estrutura, alcançou o morcego e prendeu o animal com numerosas pernas. Em seguida, posicionou as forcípulas — apêndices modificados que inoculam veneno — na região do pescoço da vítima.

O morcego era um Molossus molossus, espécie conhecida no Brasil como morcego-de-cauda-livre. Embora o mamífero pudesse voar, a aproximação aconteceu enquanto ele estava recolhido, num espaço apertado e sem uma rota fácil de fuga.

O episódio tornou-se o primeiro registro de uma lacraia predando um morcego na Amazônia e apenas o terceiro caso desse tipo então documentado no mundo.

O ataque aconteceu onde o morcego deveria estar protegido
O detalhe mais curioso da observação é o cenário. A captura não ocorreu durante uma perseguição em pleno ar nem no chão da floresta. Ela aconteceu dentro de uma estrutura construída por seres humanos.

Morcegos da espécie Molossus molossus costumam descansar em colônias instaladas em árvores, construções e outras cavidades. Ao anoitecer, deixam seus esconderijos para capturar insetos durante o voo. São animais rápidos e perfeitamente adaptados à vida aérea.

Durante o repouso, porém, essa vantagem desaparece.

No espaço estreito em que o encontro foi registrado, a lacraia conseguiu usar o próprio corpo como uma espécie de rede viva. Suas pernas sustentavam a vítima enquanto as forcípulas permaneciam posicionadas perto do pescoço. O veneno e a pressão exercida pelo predador reduziram progressivamente a capacidade de reação do morcego.

As lacraias não possuem mandíbulas com presas semelhantes às das serpentes. O primeiro par de pernas foi transformado em estruturas curvas e pontiagudas, ligadas a glândulas de veneno. Elas servem para dominar pequenos animais e iniciar a alimentação.

A cena demonstra que uma construção pode criar encontros ecológicos improváveis. O mesmo abrigo que protege um morcego do sol, da chuva e de predadores maiores também pode permitir a entrada silenciosa de um caçador capaz de atravessar frestas.

Uma caçadora de invertebrados capaz de vencer vertebrados
A imagem popular da lacraia costuma associá-la a baratas, grilos e outros invertebrados. Essa visão não está errada, mas é incompleta.

Grandes escolopendras são predadoras generalistas. Dependendo do tamanho e da oportunidade, podem capturar aranhas, escorpiões, sapos, lagartos, serpentes pequenas, roedores e outros animais vertebrados. Elas caçam principalmente durante a noite, orientadas pelo contato com o substrato e por sinais químicos e mecânicos.

A Scolopendra viridicornis possui corpo alongado, resistente e dividido em numerosos segmentos. Cada segmento carrega um par de pernas, permitindo que o animal distribua sua força por vários pontos. As últimas pernas também podem auxiliar na sustentação e na defesa.

Contra uma presa maior, essa anatomia oferece uma vantagem. Em vez de depender apenas da mordida, a lacraia consegue cercar, pressionar e estabilizar o corpo capturado.

Isso não significa que morcegos sejam parte frequente de sua dieta. O valor do registro científico está justamente na raridade. A observação documentou uma possibilidade ecológica que dificilmente seria detectada por análises comuns de alimentação.

Um evento pode acontecer poucas vezes e ainda assim ser importante. Quando o encontro envolve um predador inesperado, ele amplia o conhecimento sobre as relações alimentares existentes na floresta.

O morcego também era um consumidor de insetos
O ataque ligou dois níveis diferentes da cadeia alimentar.

O Molossus molossus alimenta-se principalmente de insetos voadores, incluindo mariposas, besouros e formigas aladas. Ao sair do abrigo no começo da noite, ele percorre áreas abertas, bordas florestais e espaços acima das copas.

A lacraia, por sua vez, pertence ao grupo dos artrópodes — justamente o grande conjunto de animais que fornece boa parte da alimentação dos morcegos insetívoros. Naquela noite, entretanto, a relação habitual foi invertida: um artrópode tornou-se predador do mamífero.

Essa inversão ajuda a desmontar a ideia de que as cadeias alimentares são sequências rígidas, nas quais animais maiores sempre consomem os menores. Na natureza, o tamanho é somente um dos fatores envolvidos.

Local, horário, comportamento, veneno, surpresa e possibilidade de fuga podem decidir o resultado de uma interação. Um morcego em voo dificilmente seria alcançado por uma lacraia. Um morcego imóvel dentro de uma cavidade encontra-se em uma situação completamente diferente.

O episódio também sugere que os abrigos merecem atenção especial em estudos sobre morcegos. Dentro deles podem ocorrer disputas, parasitismo, ataques e outras interações que permanecem invisíveis para quem observa apenas os animais voando.

Um flagrante que mudou o que se sabia sobre a floresta
Grandes acontecimentos ecológicos nem sempre envolvem espécies desconhecidas. Algumas vezes, a novidade está em descobrir que dois animais já conhecidos podem interagir de uma maneira jamais registrada naquele ambiente.

Foi exatamente isso que aconteceu no Cristalino.

A lacraia não se tornou uma predadora especializada em morcegos por causa de uma única observação. Também não seria correto concluir que ataques semelhantes sejam comuns. O registro comprova somente que a captura é possível e que, pelo menos naquela circunstância, o artrópode conseguiu dominar o mamífero.

Essa cautela é essencial na divulgação científica. Um comportamento raro não deve ser transformado em regra. Entretanto, também não deve ser ignorado. Casos extraordinários ajudam pesquisadores a formular perguntas que antes não seriam consideradas.

Quantas interações parecidas ocorrem dentro de ocos de árvores e nunca são vistas? Lacraias procuram ativamente abrigos de morcegos ou apenas aproveitam encontros ocasionais? Construções de madeira aumentam a chance de contato entre esses animais?

Ainda não há respostas completas.

O que existe é a descrição de uma cena curta e surpreendente: no interior de uma estrutura do Parque Estadual Cristalino, um animal sem asas conseguiu capturar um dos habitantes mais habilidosos do céu noturno amazônico.

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