
Descoberta no Egito preserva rituais do Reino Antigo e mostra como a necrópole foi reutilizada por séculos.
Imagine encontrar uma sala funerária em que os objetos ainda estão diante do lugar para o qual foram preparados há mais de quatro milênios. Foi essa a cena registrada por arqueólogos em Saqqara, no Egito, onde uma missão nacional descobriu a tumba de Sekhentiu-Ptah, um funcionário que acumulava cargos próximos ao centro do poder durante o Reino Antigo.
A estrutura foi localizada no Setor A, a oeste do Bubasteion, durante a primeira temporada de escavações da equipe na área. Além da capela funerária, os pesquisadores identificaram uma porta falsa intacta, um conjunto completo de peças rituais de alabastro, uma rede de poços funerários e três sarcófagos de pedra que permaneciam selados.
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O nome e as funções de Sekhentiu-Ptah apareceram em inscrições hieroglíficas gravadas na porta falsa e nos objetos da tumba. Os títulos indicam que ele era camareiro real, supervisor de todas as obras do rei, responsável pelos documentos reais, sacerdote da deusa Maat e supervisor dos escribas.
Um de seus cargos chama atenção pela descrição: “Guardião dos Segredos dos Decretos Reais”. A expressão sugere uma posição de confiança dentro da administração, ligada ao controle de informações e ordens emitidas pela autoridade real. A combinação de funções também mostra que a burocracia egípcia dependia de especialistas encarregados de obras, registros, escrita e cerimônias religiosas.
Segundo o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, a tumba de Sekhentiu-Ptah foi descoberta em Saqqara, durante a primeira temporada de escavações no Setor A, em setembro de 2026.
A porta que ligava a tumba ao mundo dos mortos
No interior da capela, a equipe encontrou uma porta falsa ainda em sua posição original. Apesar do nome, não se tratava de uma passagem usada para entrar ou sair. Na tradição funerária egípcia, esse elemento funcionava como um ponto simbólico de contato entre o morto e o mundo dos vivos.
Era diante dela que as oferendas podiam ser apresentadas. A porta também estava associada à ideia de que o espírito do falecido poderia receber alimentos e outros cuidados necessários à vida após a morte. Por isso, encontrar o elemento preservado em seu contexto ajuda os pesquisadores a entender a disposição da capela, e não apenas o formato isolado do monumento.
Diretamente diante da porta havia uma mesa de oferendas, um disco de oferendas, uma bacia de purificação, um jarro e outra bacia, todos feitos de alabastro. A permanência conjunta das peças é relevante porque permite observar como o espaço ritual foi organizado no momento de sua utilização.
Uma necrópole usada por diferentes gerações
A descoberta não se limita à tumba do funcionário. Nos poços próximos, os arqueólogos encontraram restos humanos, peças de cartonnage funerário pintado, uma estátua de madeira em forma de falcão, cerâmicas e mais de 100 ushabtis de faiança.
Os ushabtis eram pequenas figuras colocadas nas tumbas para representar trabalhadores que executariam tarefas para o falecido no além. O material recuperado nos poços pertence a um período muito posterior ao de Sekhentiu-Ptah, associado ao chamado Período Tardio da história egípcia.
Essa diferença de datas transforma o local em uma espécie de cemitério sobre outro cemitério. A tumba do Reino Antigo foi construída no terceiro milênio antes da era comum, época relacionada à construção das grandes pirâmides. Séculos depois, a mesma área continuou sendo procurada para novos sepultamentos e práticas funerárias.
O que permaneceu intacto, e o que foi violado
A preservação, porém, não foi completa. A equipe identificou aberturas escavadas entre algumas câmaras funerárias, sinais de que ladrões de tumbas já haviam invadido partes do complexo em algum momento da Antiguidade.
Mesmo com essas interferências, os objetos mantidos em posição original oferecem uma oportunidade rara de reconstruir a organização interna do espaço. Os três sarcófagos de pedra ainda selados ampliam o interesse da descoberta, embora o material divulgado não apresente informações sobre a abertura ou o conteúdo deles.
Para Mohamed Abdel-Badie, chefe do Setor de Antiguidades do Egito, o conjunto intacto de objetos fornece dados importantes sobre os rituais e as práticas funerárias do Reino Antigo. Já o diretor das escavações, Amr El-Tayebi, afirmou que os achados ajudam a compreender a arquitetura e a transformação do sítio ao longo de diferentes fases históricas.
Por que Saqqara continua revelando novas camadas
Saqqara foi uma das principais áreas funerárias de Mênfis, antiga capital egípcia, e reúne monumentos de vários períodos. A longa ocupação explica por que uma escavação pode revelar, no mesmo espaço, uma tumba da época das pirâmides e objetos relacionados a práticas muito mais recentes.
O caso também ajuda a separar duas ideias que costumam aparecer juntas quando se fala em arqueologia egípcia: a descoberta de uma peça valiosa e a reconstrução de um contexto. Uma está ligada ao objeto em si. A outra depende da posição em que ele foi encontrado, de sua relação com as paredes, inscrições, restos humanos e demais elementos do local.
Essa distinção interessa também ao público brasileiro, inclusive na Amazônia. Em áreas arqueológicas do Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão, a interpretação de um vestígio depende igualmente do lugar onde ele aparece e de sua relação com camadas anteriores. Os ambientes e as culturas são diferentes, mas o princípio de preservar o contexto é o mesmo: retirar uma peça sem registrar seu entorno pode apagar parte da história que ela ajudaria a contar.
Escavação deve continuar no Setor A
A missão egípcia ainda está documentando os achados e comparando o material com descobertas realizadas em outras partes do país. A equipe pretende publicar os resultados em revistas científicas com avaliação por pares, etapa que permitirá detalhar as inscrições, a cronologia dos sepultamentos e a relação entre as diferentes áreas do complexo.
Os arqueólogos também avaliam que o Setor A pode conter outras estruturas e artefatos sob a areia. As próximas temporadas devem definir se a tumba de Sekhentiu-Ptah é uma unidade isolada ou parte de um conjunto maior ligado à administração e às práticas funerárias de Saqqara.
Com informações do Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito.
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