
Modelo reúne pesquisa, processamento local e parcerias com comunidades para transformar biodiversidade em produtos e renda.
Antes de chegar ao frasco de um cosmético, um ingrediente amazônico passa por uma cadeia que envolve cultivo, beneficiamento, pesquisa, controle de qualidade e acordos com comunidades. É nesse percurso que a Natura concentra parte de sua estratégia para a região, usando 52 bioativos amazônicos em produtos de beleza e associando a conservação da floresta à geração de renda.
A iniciativa ganhou destaque às vésperas do Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro. A empresa afirma que sua atuação, iniciada com a linha Natura Ekos em 2000, alcança mais de 10 mil famílias ligadas a comunidades agroextrativistas e contribui para conservar 2,2 milhões de hectares de floresta.
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O desenvolvimento de um bioativo não se resume à escolha de uma espécie conhecida na região. A Natura avalia características da planta, conhecimentos associados, formas de cultivo, disponibilidade da matéria-prima, segurança, eficácia e estabilidade. Também considera se a cadeia consegue atender à demanda sem pressionar os ciclos naturais.
Esse trabalho é feito com comunidades fornecedoras, cooperativas, instituições de pesquisa e outros parceiros. A matéria-prima pode ser transformada em óleo, extrato ou outro insumo antes de entrar na formulação de um produto. Quanto mais etapas permanecem próximas do território de origem, maior tende a ser o valor agregado local.
Um exemplo está em Benevides, no Pará, onde funciona desde 2014 o Ecoparque da empresa. O complexo ocupa 172 hectares e reúne atividades de pesquisa, desenvolvimento e processamento de ativos da biodiversidade amazônica. Também é responsável pela produção de mais de 90% dos sabonetes da Natura.
Da menta amazônica à baunilha: quatro caminhos para a biodiversidade
Entre os ingredientes utilizados pela marca está a menta amazônica, incorporada à linha Natura Ekos Equilibrivm. O ativo foi desenvolvido com exclusividade pela empresa e passa por cultivo e beneficiamento em comunidades da Amazônia. A extração do óleo ocorre em uma agroindústria instalada na própria comunidade produtora.
Segundo a Natura, esse tipo de estrutura pode elevar em até 60% a geração de renda local. A empresa informa ter desenvolvido 20 agroindústrias em parceria com comunidades amazônicas, com o objetivo de fazer com que parte maior do valor da cadeia permaneça perto da origem.
A baunilha amazônica aparece em uma linha com hidratante corporal, creme para as mãos, óleo corporal, sabonete em barra e fragrância. Já o cupuaçu, fruto tradicionalmente utilizado na região, é empregado em produtos voltados à hidratação e ao cuidado da pele. No Pará, o ajuru, espécie nativa de áreas de restinga, integra a linha Chronos Derma como bioativo associado à firmeza da região dos olhos.
Segundo Natura, a empresa desenvolveu 52 bioativos amazônicos e os utiliza em mais da metade de seu portfólio. A companhia também informa manter parcerias com dezenas de comunidades fornecedoras, embora os números apresentados variem conforme o recorte da cadeia considerado.
O dinheiro que chega às comunidades
O impacto econômico aparece em diferentes frentes. Em 2025, o investimento direto da Natura em comunidades amazônicas chegou a R$ 62,39 milhões, valor 29% maior que o registrado no ano anterior, de acordo com a empresa.
Outra frente é o mecanismo de financiamento Amazônia Viva, criado em parceria com a VERT Securitizadora e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, o Funbio. A iniciativa combina crédito, assistência técnica, apoio à gestão de cooperativas e conexão com compradores. Até o fim de 2025, havia mobilizado R$ 41 milhões em investimentos diretos, com 100% de adimplência entre os tomadores de crédito, segundo a Natura.
Em Rondônia, a comunidade RECA participa de um modelo de pagamento por serviço ambiental. A remuneração está relacionada à conservação da floresta e à produção de bioativos. Um estudo realizado em 2025 pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, apontou que produtores participantes tinham renda média anual 37% superior à de não participantes.
O mesmo levantamento indicou diferença na trajetória educacional das famílias: 25% dos filhos dos participantes estavam no ensino superior, contra 4% no grupo de comparação. Os dados também apontaram maior capacidade de formar reservas financeiras e mais acesso a atividades de lazer entre os produtores envolvidos.
O que esse modelo representa para a Amazônia
Para os estados amazônicos, a discussão vai além da presença de ingredientes regionais em produtos vendidos no Brasil. A cadeia envolve produção rural, cooperativismo, pesquisa, logística, pequenas agroindústrias e serviços ambientais. Pará e Rondônia aparecem como exemplos concretos, mas o modelo pode alcançar outros territórios quando houver organização comunitária, mercado e capacidade de beneficiamento.
Esse ponto é importante porque a venda de matéria-prima sem processamento costuma deixar menos renda no território. Quando o óleo ou o extrato é produzido na própria comunidade, surgem empregos, conhecimento técnico e maior participação local nas etapas de uma cadeia industrial.
Em Benevides, o programa Benevides Recicla reúne a empresa, o poder público municipal, organizações parceiras e catadores em ações de coleta seletiva, gestão de resíduos e geração de renda. Os materiais recuperados podem retornar à cadeia de embalagens, aproximando a agenda da biodiversidade da economia circular.
A promessa de uma economia regenerativa
A Natura estabeleceu, em sua Visão 2050, o compromisso de se tornar uma empresa 100% regenerativa até aquele ano. A proposta coloca a Amazônia como centro de uma economia baseada em riqueza, inovação e tecnologia associadas à conservação.
Entre os próximos objetivos está ampliar a substituição de matérias-primas por insumos de origem amazônica sempre que possível e garantir pagamentos diretos por serviços ambientais a todas as comunidades fornecedoras. A execução dessa promessa dependerá da escala das cadeias, da proteção dos territórios e da continuidade das parcerias.
“Nossa trajetória na Amazônia mostra que biodiversidade, inovação e desenvolvimento podem caminhar juntos. O nosso papel é contribuir para que esse modelo continue evoluindo, em parceria com diferentes atores e valorizando os conhecimentos, as pessoas e os territórios que fazem parte dessas cadeias”, afirma Ana Costa, vice-presidente de Sustentabilidade, Jurídico e Reputação Corporativa da Natura.
A experiência mostra que um cosmético feito com ingredientes da floresta pode carregar uma cadeia produtiva inteira, mas também evidencia que o resultado depende de remuneração justa, processamento local e acompanhamento dos impactos. A Natura deverá avançar nos compromissos previstos para 2050 à medida que ampliar suas cadeias amazônicas e os pagamentos por serviços ambientais.
Com informações de Natura.
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