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Pesquisadores caminharam à noite em Tambopata e viram uma tarântula arrastando um pequeno marsupial pelo chão da Amazônia peruana

Em novembro de 2016, uma equipe realizava uma pesquisa noturna na floresta amazônica do sudeste do Peru quando ouviu um ruído entre as folhas secas.

O som poderia ter sido provocado por um lagarto, um roedor ou qualquer outro habitante da serrapilheira. Quando os pesquisadores direcionaram a atenção para o local, encontraram uma cena que nenhum deles esperava registrar.

Uma grande aranha migalomorfa — grupo que inclui as tarântulas — estava sobre um pequeno marsupial. O mamífero ainda se movimentava, mas já havia sido dominado. Cerca de meio minuto depois, deixou de reagir.

A aranha começou então a arrastar a presa pelo chão da floresta.

O encontro ocorreu na região de Tambopata, no departamento peruano de Madre de Dios, cuja principal cidade é Puerto Maldonado. Especialistas consultados posteriormente consideraram o episódio o primeiro registro documentado de uma aranha migalomorfa predando um marsupial.

O pequeno animal não era um rato comum

À primeira vista, o mamífero parecia um camundongo. Entretanto, a identificação posterior indicou que se tratava de um pequeno “mouse opossum”, nome em inglês utilizado para marsupiais diminutos das Américas.

Apesar da semelhança externa com roedores, esses animais pertencem a outra linhagem de mamíferos. Como outros marsupiais, seus filhotes nascem em um estágio bastante inicial de desenvolvimento. Nem todas as espécies possuem uma bolsa abdominal evidente como a dos cangurus.

Os pequenos marsupiais amazônicos podem deslocar-se pelo chão, pela vegetação baixa e por galhos. Alimentam-se de insetos, frutos e outros recursos, variando conforme a espécie.

Naquela interação, porém, o mamífero ocupou uma posição inesperada: tornou-se presa de um artrópode.

A diferença entre os dois animais não era tão extrema quanto a palavra “tarântula” pode sugerir. A vítima era pequena, e a aranha tinha tamanho considerável. Ainda assim, o fato de um invertebrado subjugar um mamífero chama atenção porque contraria a hierarquia intuitiva construída pelas pessoas.

Existe uma tendência de imaginar que vertebrados sempre dominam invertebrados. A floresta mostra que essa regra não existe.

A tarântula não precisou construir uma teia de captura

Grandes aranhas migalomorfas não dependem das teias circulares associadas às aranhas de jardim. Muitas caçam por emboscada ou procuram presas durante deslocamentos noturnos.

Suas quelíceras carregam presas capazes de perfurar e inocular veneno. Quando encontram um animal adequado, podem agarrá-lo com as pernas, posicionar as presas e esperar que a combinação de contenção física e veneno reduza sua resistência.

A alimentação das aranhas também é diferente daquela dos vertebrados. Elas liberam fluidos digestivos sobre ou dentro da presa, dissolvendo tecidos antes de ingerir o material liquefeito.

Insetos e outros artrópodes formam grande parte da dieta das tarântulas. Entretanto, indivíduos maiores podem consumir sapos, lagartos, pequenas serpentes e outros vertebrados quando surge uma oportunidade.

Isso não torna os mamíferos sua alimentação cotidiana. O flagrante de Tambopata foi valioso justamente porque uma interação possível, mas extremamente difícil de observar, conseguiu ser documentada.

O episódio integrou um conjunto de registros produzidos durante pesquisas realizadas entre 2008 e 2017. As equipes saíam à noite para procurar anfíbios e répteis e acabavam encontrando também confrontos entre pequenos vertebrados e artrópodes.

A noite amazônica revela uma cadeia alimentar diferente

Muitos habitantes da floresta permanecem escondidos durante o dia. Com a queda da temperatura e a redução da luz, aranhas, escorpiões, insetos, sapos, serpentes e pequenos mamíferos começam a circular.

Nesse período, a serrapilheira transforma-se numa rede de encontros. Folhas caídas, raízes, troncos e cavidades criam esconderijos, passagens e pontos de emboscada.

As pesquisas noturnas são realizadas lentamente. Observadores utilizam lanternas para examinar o chão, a vegetação e as margens de cursos d’água. Pequenos reflexos produzidos pelos olhos de alguns animais podem revelar presenças quase invisíveis.

Mesmo com esse esforço, uma predação costuma durar pouco. Para documentá-la, os pesquisadores precisam estar no lugar exato durante uma janela de poucos minutos.

Foi o ruído das folhas que denunciou o ataque em Tambopata. Sem ele, a equipe poderia ter passado a poucos metros sem perceber o acontecimento.

A observação ajuda a explicar por que relações ecológicas importantes permanecem subestimadas. A ausência de registros não significa necessariamente que um comportamento nunca ocorra. Pode significar apenas que ele acontece à noite, em baixa frequência e sob a cobertura de uma floresta extremamente densa.

Aranhas podem ter um papel maior do que aparentam

O estudo que apresentou o episódio reuniu diferentes casos de artrópodes predando vertebrados. Foram registradas interações envolvendo aranhas e pequenos sapos, lagartos, serpentes e o marsupial observado em 2016.

Os autores destacaram que a importância ecológica desses predadores pode ser maior do que normalmente se presume. Em ambientes tropicais, a abundância de artrópodes cria inúmeras oportunidades de ataque.

Isso não significa que tarântulas controlem sozinhas as populações de pequenos vertebrados. Significa que elas participam de uma rede alimentar muito mais complexa que a apresentada em esquemas escolares simplificados.

Um mesmo sapo pode comer insetos e ser capturado por uma aranha. Uma serpente jovem pode predar pequenos animais e, em outra circunstância, tornar-se alimento de um artrópode. O papel de cada espécie muda conforme tamanho, idade, horário e local do encontro.

Também é importante evitar transformar a observação em motivo de medo. As tarântulas não perseguem seres humanos como presas. O flagrante envolveu um pequeno mamífero compatível com a capacidade física daquela aranha.

A curiosidade está na inversão de expectativas.

Em uma noite úmida de Tambopata, o predador não tinha coluna vertebral. Tinha oito pernas, deslocava-se entre as folhas e era forte o suficiente para carregar um mamífero pela floresta.

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