Ovos de bicho-pau com apêndice nutritivo atraem formigas e podem escapar de vespas parasitoides

Bicho-pau deposita ovos com estrutura idêntica a sementes para atrair formigas e proteger filhotes contra vespas
Ilustração: Revista Amazônia

Em algumas espécies de bicho-pau, o ovo carrega um apêndice atrativo para formigas, estratégia que estudos associam a menor parasitismo por vespas.

Nem todo bicho-pau protege os ovos do mesmo jeito. Segundo descrições gerais da ordem Phasmatodea, que reúne mais de 3.500 espécies descritas, as fêmeas podem lançar os ovos ao chão com um movimento do abdômen, colocá-los nas axilas das plantas, enterrá-los no solo ou colá-los na vegetação. Uma única fêmea pode produzir de 100 a 1.200 ovos, dependendo da espécie. Os ovos de várias espécies que os deixam cair no folhiço têm, sobre o opérculo, um apêndice gorduroso chamado capitulum.

O capitulum lembra o elaiossomo, estrutura rica em lipídios presente em sementes dispersas por formigas. Em 1992, Hughes e Westoby publicaram na revista Functional Ecology um estudo mostrando que as duas estruturas são convergentes na função. Os capitula ocorrem apenas em espécies que deixam os ovos cair livremente no folhiço, e não nas que os enterram ou os colam na vegetação.

O que os experimentos mostraram

Em testes no sudeste da Austrália, a retirada do capitulum dos ovos de Eurycnema goliath reduziu de forma significativa a chance de as formigas Rhytidoponera metallica levarem os ovos para o ninho. Em trabalhos de Westoby e Hughes, ovos de fasmídeos e sementes com elaiossomo foram removidos pelas formigas em taxas parecidas e jogados juntos nas pilhas de lixo dos formigueiros. As formigas comem o capitulum e deixam o ovo intacto.

Hughes e Westoby também verificaram que ovos enterrados em ninhos de formigas sofreram menos parasitismo por vespas e que as ninfas conseguiam emergir mesmo sob 6 centímetros de solo. A proteção contra parasitoides é, portanto, um dos benefícios associados à estratégia, e não uma regra válida para todos os bichos-pau.

Vespas que atacam ovos de bicho-pau

As vespas das subfamílias Amiseginae e Loboscelidiinae, da família Chrysididae, são consideradas parasitoides obrigatórias de ovos de bichos-pau, segundo um banco de dados taxonômico online sobre esses grupos, que cataloga 187 espécies válidas. O mesmo trabalho aponta que apenas 12 associações entre espécie de vespa e espécie hospedeira estavam documentadas na literatura, o que mostra o quanto o tema ainda é pouco estudado.

Em Calynda bicuspis, um bicho-pau neotropical estudado na Costa Rica, os autores citam um parasitoide especialista nos ovos, do gênero Amisega, e sugerem que ovos agrupados podem ficar mais expostos a ele.

Nem sempre o ovo vai para o subsolo

A estratégia varia entre as espécies. No estudo de campo com Calynda bicuspis, a formiga Ectatomma ruidum encontrava e transportava os ovos rapidamente, tanto na estação seca quanto na chuvosa, mas os levava a cerca de 1 metro e os largava na superfície do solo, ao contrário do que ocorre com várias espécies do Velho Mundo, cujos ovos as formigas enterram. A remoção ou o selamento do capitulum mostrou que ele é o que induz o transporte. Dispersão pela superfície e enterro no ninho são, portanto, desfechos diferentes do mesmo mecanismo de atração.

Um artigo de 2015 no Journal of Chemical Ecology discute a possível convergência entre os sinais químicos dos ovos de fasmídeos e os das sementes dispersas por formigas, o que ajuda a explicar por que as formigas respondem ao capitulum como a um alimento.

Do ovo ao ninho: o caso de Extatosoma tiaratum

Na espécie australiana Extatosoma tiaratum, as formigas comem o capitulum e o ovo vai para a pilha de lixo da colônia, onde pode ficar dormente por meses. Um estudo de 2022 na Australian Journal of Zoology mostrou que a dispersão desses ovos por formigas depende da espécie de formiga envolvida. As ninfas recém-eclodidas dessa espécie lembram formigas e já foram observadas saindo de ninhos com aparência e comportamento de formiga. Esse comportamento foi descrito nessa espécie e não deve ser estendido a todos os bichos-pau.

O tempo de incubação também varia: segundo descrições gerais da ordem, pode ir de poucas semanas a mais de dois meses, dependendo da espécie.

Autotomia e regeneração de pernas

Em algumas espécies, o bicho-pau é capaz de soltar uma perna quando capturado, processo chamado de autotomia. Um estudo na revista Florida Entomologist sobre autotomia em um bicho-pau, que comparou perdas por predação e por muda, relata que as ninfas começam a regenerar a perna após a autotomia e podem recuperá-la na muda seguinte, em geral menor e mais fina que a original. Adultos não regeneram membros.

A estratégia dos ovos com capitulum mostra como a seleção natural pode aproximar grupos distantes: plantas e insetos chegaram, por caminhos independentes, a uma solução parecida para usar as formigas como transporte. Entender quais espécies de bicho-pau fazem isso, e com que resultado em cada ambiente, exige estudos de campo espécie por espécie, e no Brasil esse conhecimento ainda tem muitas lacunas.

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