
Projeto Mangues da Amazônia combina conhecimento local, georreferenciamento, censos de fauna e genética de árvores para proteger 131 mil hectares.
O mapa começa dentro da comunidade
Em reuniões com moradores do nordeste do Pará, pesquisadores abrem o mapa da região e fazem uma pergunta direta: onde está ocorrendo corte de madeira? As respostas indicam os pontos que serão visitados pela equipe do projeto Mangues da Amazônia. Em cada local, os pesquisadores realizam o georreferenciamento, conferem as informações e produzem mapas que são entregues a prefeituras, associações e lideranças comunitárias.
O procedimento transforma o conhecimento de quem vive no mangue em uma ferramenta de acompanhamento do território. A comunidade aponta os locais de uso, enquanto a equipe verifica as áreas e organiza os dados para orientar decisões. Segundo Marcus Fernandes, professor titular da Universidade Federal do Pará e coordenador-geral do projeto, já foram identificados pontos onde a madeira é cortada e transformada em tábuas no próprio local. A parceria também permite localizar áreas mais sensíveis, que podem ser priorizadas em ações de recuperação.
Quatro reservas formam a área de trabalho
O Mangues da Amazônia atua em quatro reservas extrativistas marinhas do nordeste paraense. São elas a Resex Marinha de Tracuateua, a Resex Marinha de Caeté-Taperaçu, a Resex Araí-Peroba e a Resex Gurupi-Piriá. As unidades ficam, respectivamente, nos municípios de Tracuateua, Bragança, Augusto Corrêa e Viseu.
Juntas, as reservas cobrem 131 mil hectares, área equivalente a cerca de 120 mil campos de futebol. O território faz parte da faixa contínua de manguezais protegidos legalmente que se estende entre o Maranhão e o Pará, considerada a maior do mundo. A dimensão ajuda a explicar por que o monitoramento e a fiscalização são complexos. Nesse cenário, os mapas participativos funcionam como uma forma de reunir informações dispersas e indicar onde a equipe deve concentrar visitas, diagnósticos e ações de reflorestamento.
Uso permitido não significa ausência de controle
A extração de madeira e a captura de caranguejos não são atividades proibidas nessas reservas. Elas fazem parte do uso previsto para territórios extrativistas, mas seguem regras de controle. No caso da madeira, é necessário informar ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, a quantidade, a espécie e o local do corte.
O problema aparece quando a declaração não corresponde ao lugar efetivamente explorado. Marcus Fernandes relata que algumas pessoas informam uma área e retiram madeira em outra, além de extraírem mais do que foi declarado. Parte desse material é destinada à produção de carvão para padarias e olarias. O pesquisador avalia que a extração é um problema na região, embora a situação seja menos grave do que a observada em áreas do Nordeste e do Sudeste. O mapeamento, nesse caso, não substitui a fiscalização, mas cria um registro territorial para apoiar o controle e a discussão entre órgãos públicos e comunidades.
Caranguejos e árvores entram no diagnóstico
A parceria não se limita aos pontos de corte. Os caranguejeiros participam do levantamento da fauna, que registra quantos machos e fêmeas existem em cada área, além do tamanho e do peso dos animais. Esses dados ajudam a formar um retrato de cada lugar e a acompanhar as condições das populações de caranguejos nos manguezais.
O projeto também mapeia geneticamente a vegetação para apoiar o plantio e a recuperação de áreas degradadas. Os pesquisadores já identificaram onde estão as árvores, mas ainda precisam comparar a qualidade dos diferentes tipos de mangue presentes no território, como o mangue-vermelho, o mangue-preto e o mangue-branco. A informação pode orientar a escolha do material vegetal usado em cada recuperação. Com a localização dos cortes, os registros da fauna e o conhecimento sobre as árvores reunidos no mesmo diagnóstico, o território passa a ser observado por diferentes ângulos.
Mapas aproximam proteção e uso do território
A experiência mostra que proteger um manguezal envolve mais do que delimitar uma unidade de conservação no mapa. Também é preciso saber como o espaço é usado, quais espécies estão presentes e onde a vegetação está mais vulnerável. Nas quatro reservas, esse trabalho combina a observação dos moradores com visitas técnicas, georreferenciamento, censos e análise genética da vegetação.
A divulgação do projeto ocorreu em 20 de junho de 2025, em informações publicadas pela Agência Brasil. Ao entregar os mapas a prefeituras, associações e lideranças, os pesquisadores fazem o diagnóstico circular entre quem administra, fiscaliza e vive nas reservas. A proteção, assim, deixa de depender apenas de uma visão distante do território e passa a incorporar os sinais percebidos no cotidiano. No mangue, cada ponto indicado no mapa representa uma decisão concreta sobre madeira, fauna ou recuperação, e é nessa conexão entre conhecimento local e ciência que a paisagem pode continuar sendo cuidada.
Com informações da Agência Brasil.
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