A maioria das áreas marinhas protegidas do mundo não reduziu a pesca: em 58% delas, os barcos pescaram ainda mais depois da criação

A maioria das áreas marinhas protegidas do mundo não reduziu a pesca: em 58% delas, os barcos pescaram ainda mais depois da criação
Barcos de pesca de arrasto no porto de Sète, na França. Foto: Christian Ferrer, via Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.

O número de áreas marinhas protegidas explodiu nos últimos anos. Mas elas estão falhando em conter a maior ameaça à biodiversidade dos oceanos, a pesca. É o que mostra um estudo publicado na revista científica Science Advances, que analisou 861 áreas protegidas no mundo todo.

Resultado surpreendente

Segundo Joachim Claudet, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e coautor do estudo, a equipe não esperava resultados tão marcantes. A maioria das áreas tem níveis de proteção muito baixos, e a pesca industrial continua acontecendo dentro delas.

Os pesquisadores compararam dados de rastreamento de barcos da plataforma Global Fishing Watch com mapas das áreas protegidas, de 2012 a 2024. A atividade de pesca aumentou em 58% das áreas, diminuiu em 40% e ficou igual em 2%.

Proteção total funciona

Só as áreas de proteção total, onde a pesca é proibida, mostraram resultado consistente. Ainda assim, as que reduziram a pesca ficavam muitas vezes em lugares onde já havia pouca pesca industrial. Para Claudet, as áreas que regulam a pesca tendem a evitar justamente os lugares onde a pesca acontece.

A meta 30 por 30

Em 2022, 196 países concordaram em proteger 30% dos oceanos até 2030. Hoje, segundo o banco de dados Protected Planet, 17.227 áreas marinhas protegidas cobrem quase 10% dos oceanos. Com a conferência da biodiversidade COP17 marcada para a Armênia, Claudet questiona se a porcentagem de oceano coberta deve continuar sendo a principal medida de progresso. Para ele, esse número diz muito pouco sobre o quanto as áreas realmente protegem a vida marinha.

Proteção no papel

O estudo reforça uma crítica antiga dos cientistas: áreas protegidas só no papel, sem regras fortes e sem fiscalização, não cumprem o objetivo. A qualidade da proteção importa mais que a quantidade de área.

O caso brasileiro

O Brasil deu um salto na proteção marinha em 2018, quando criou grandes áreas em torno dos arquipélagos de São Pedro e São Paulo e de Trindade e Martim Vaz, elevando a cobertura para cerca de um quarto da zona econômica exclusiva. A maior parte, porém, é de áreas de proteção ambiental, que permitem uso, inclusive pesca, e só uma parcela menor é de proteção integral. Pesquisadores brasileiros defendem ampliar as zonas de proteção total e reforçar a fiscalização, inclusive com rastreamento de embarcações.

Perguntas frequentes

Áreas marinhas protegidas funcionam?

As de proteção total, onde a pesca é proibida, sim. Muitas das demais não reduziram a pesca, segundo o estudo.

Quanto do oceano está protegido?

Cerca de 10%, em mais de 17 mil áreas. A meta mundial é chegar a 30% até 2030.

Com informações do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e do estudo publicado na Science Advances.

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