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Unesp rastreia tráfico: gênese do pepino-do-mar na Ásia via GRU

Unesp rastreia tráfico: gênese do pepino-do-mar na Ásia via GRU
Ilustração: IA

Parceria Unesp-Ibama revela esquema global e riscos ambientais do comércio ilegal de espécies marinhas.

Uma colaboração estratégica entre o Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes (Lagenpe) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru, e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) está revelando o intrincado mundo do comércio ilegal de pepinos-do-mar. Publicada na prestigiada revista Scientific Reports, a pesquisa detalha como análises genéticas permitiram rastrear a origem de espécimes apreendidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), expondo uma ameaça invisível à biodiversidade costeira brasileira.

Os animais, identificados como Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, eram contrabandados em grandes volumes, secos, para atender à demanda da culinária e medicina tradicional asiática. Embora listadas atualmente como de “Menor Preocupação” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a exploração em larga escala dessas espécies pode desencadear um desequilíbrio ecológico significativo, impactando ecossistemas marinhos vitais.

A ameaça silenciosa do comércio ilegal

O biólogo Fabio Porto-Foresti, professor no Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências da Unesp, enfatiza a gravidade do tráfico. “O comércio ilegal de qualquer espécie é extremamente danoso, porque é uma ameaça invisível. O pepino seco, forma em que é transportado, permite que seja levada grande quantidade nas bagagens”, explica o docente. Essa facilidade de transporte, aliada à sua condição de produto não perecível, dificulta imensamente a fiscalização e incentiva redes criminosas. Caso muitos indivíduos sejam removidos de uma mesma região, o potencial evolutivo e reprodutivo da espécie pode ser irremediavelmente comprometido.

Ricardo Utsunomia, também docente da Unesp, complementa a análise ao destacar o papel ecológico desses invertebrados. “O pepino-do-mar fica no fundo do oceano, extraindo e ingerindo matéria orgânica. A retirada deles de forma intensiva e em tão pouco tempo causa um desequilíbrio ecológico muito grande”, afirma. A exploração desmedida pode levar à redução drástica de populações, replicando cenários observados em outros países, como a China, onde a demanda por pepinos-do-mar já resultou em colapsos ecológicos no passado.

Entenda o caso

O projeto que culminou na identificação do tráfico de pepinos-do-mar teve início em 2015, focado inicialmente em peixes-de-bico. Ao longo dos anos, a equipe de cientistas, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), expandiu suas análises para incluir nadadeiras de tubarão e bexigas natatórias. A metodologia central é a análise genética: o marcador molecular permite identificar espécies mesmo quando o material está descaracterizado, como os pepinos-do-mar secos. Em 2023, espécimes secos, acondicionados em caixas e malas, com cerca de 500 indivíduos cada, foram apreendidos no GRU e enviados para o laboratório da Unesp para extração de DNA e sequenciamento.

Parceria essencial e método inovador

Desde 2015, a colaboração entre o Lagenpe e o Ibama tem sido fundamental. Enquanto o Ibama realiza as apreensões, os pesquisadores da Unesp aplicam a análise molecular, que permite a identificação precisa das espécies envolvidas no tráfico. “O marcador molecular nos permite saber o que está sendo comercializado, principalmente na forma descaracterizada, que impede uma análise morfológica. Porém, o que não vemos morfologicamente, vemos do ponto de vista genético”, explica Porto-Foresti. Com informações da Unesp, a pesca e a comercialização de pepinos-do-mar no Brasil são regulamentadas pela Portaria Ibama nº 93/1998, exigindo comprovação de origem ambiental e documentação legal.

O sequenciamento genético obtido a partir das amostras apreendidas é então comparado com um banco de dados internacional. Essa abordagem não apenas confirma a espécie, mas também contribui para o mapeamento das redes de tráfico e dos pontos de origem. Conforme o professor Porto-Foresti, essa ferramenta pode ser aplicada a diversos outros grupos de animais, tornando a fiscalização muito mais eficaz. A exemplo disso, em 2022, o Ibama intensificou as operações de fiscalização em portos e aeroportos da região Norte, identificando rotas utilizadas para o tráfico de animais silvestres e produtos florestais, que possuem intercessões com o tráfico de espécies marinhas.

Paralelos com o tráfico de barbatanas de tubarão e o papel da Amazônia Azul

O padrão de exploração dos pepinos-do-mar reflete de perto o que ocorre com as barbatanas de tubarão, outro produto de alta demanda nos mercados asiáticos. As populações de tubarões em todo o mundo sofreram declínios acentuados devido à pesca predatória para o comércio ilegal de suas barbatanas, um exemplo cruel dos impactos que a desregulamentação ambiental pode causar. Esse paralelo serve como um alerta para a urgência de fortalecer a fiscalização e a pesquisa no contexto brasileiro. A ‘Amazônia Azul’, nome dado à vasta área marítima sob jurisdição brasileira, de mais de 5,7 milhões de km², é um hotspot de biodiversidade de valor econômico e ecológico inestimável, mas também vulnerável ao crime ambiental.

A proteção da fauna marinha é particularmente relevante para os estados costeiros da Amazônia, como Amapá, Pará e Maranhão, que abrigam ecossistemas únicos e sensíveis, como manguezais e recifes, que podem ser afetados pela retirada indiscriminada de organismos bentônicos como os pepinos-do-mar. A capacidade de rastrear a origem e as espécies traficadas se torna uma ferramenta crucial para defender essa riqueza natural e evitar que as áreas costeiras da Amazônia se tornem novas fontes para o mercado ilegal. O objetivo maior desse projeto é identificar as espécies comercializadas ilegalmente, sejam elas pepinos-do-mar, peixes, camarões ou outros grupos, e, assim, contribuir para o controle do tráfico e a conservação marinha no Brasil. Novos desdobramentos sobre o impacto do tráfico de espécies marinhas nas regiões costeiras da Amazônia são aguardados.

Perguntas Frequentes

O que é o pepino-do-mar e por que ele é traficado?

O pepino-do-mar é um invertebrado marinho com mais de 1.250 espécies globais, sendo cerca de 40 no Brasil. É traficado principalmente para mercados asiáticos, onde é valorizado na culinária e medicina tradicional, muitas vezes apreendido na forma seca.

Como a análise genética ajuda a combater o tráfico?

A análise genética permite identificar a espécie de pepino-do-mar mesmo quando o material está seco e descaracterizado, o que é impossível pela morfologia. Isso ajuda a rastrear a origem, as rotas do tráfico e a subsidiar a repressão ao crime ambiental.

Quais os riscos ecológicos do tráfico de pepinos-do-mar?

A retirada em larga escala de pepinos-do-mar de ecossistemas costeiros provoca desequilíbrio ecológico, pois eles são importantes na reciclagem de matéria orgânica no fundo do oceano. A longo prazo, pode levar à redução populacional e perda de biodiversidade.

Com informações de Unesp.

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