Experimento florestal esquecido por 30 anos surpreendeu: árvores que ganharam espaço cresceram 20% mais e guardaram tanto carbono quanto a mata intocada

Experimento florestal esquecido por 30 anos surpreendeu: árvores que ganharam espaço cresceram 20% mais e guardaram tanto carbono quanto a mata intocada
Floresta de eucalipto-gigante (Eucalyptus regnans) na Tasmânia, Austrália. Foto: CSIRO, via Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0.

Qual é o melhor jeito de cuidar de uma floresta: protegê-la totalmente ou cortar árvores para sustentar a economia local? Na Austrália, esse debate é antigo e polarizado. Um experimento esquecido por décadas nas florestas de eucalipto-gigante do estado de Vitória mostrou que a realidade é mais interessante do que essa escolha entre dois lados.

O experimento

Desde os anos 1970, cientistas e o público questionavam o corte raso, em que todas as árvores de uma área são derrubadas. Ambientalistas diziam que ele destrói habitats. Engenheiros florestais respondiam que o eucalipto-gigante está adaptado a incêndios catastróficos e que o corte raso imitava esse efeito.

Em meados dos anos 1980, o governo de Vitória investiu o equivalente hoje a 26 milhões de dólares australianos para testar alternativas. Entre 1987 e 1989, montou o Projeto de Sistemas Silviculturais em duas áreas, Tanjil Bren e Cabbage Tree Creek. Foram comparados cortes rasos tradicionais, de 250 a 350 metros de largura, pequenos cortes em clareiras de 50 a 140 metros e desbastes pesados, em que de 50% a 70% das árvores eram retiradas. Grandes áreas ficaram intocadas, para comparação.

No início dos anos 2000, o resultado parecia claro: o eucalipto se regenerava melhor no corte raso. Os dados foram publicados, a estrada de acesso foi tomada pelo mato, a placa caiu e o experimento foi esquecido.

A surpresa 30 anos depois

Em 2014, pesquisadores da Universidade de Melbourne voltaram a Tanjil Bren com alunos. Os resultados antigos se mantinham, mas o que chamou atenção foram as áreas desbastadas. As árvores que ficaram eram enormes. Com só 80 anos, as maiores passavam, em média, de um metro de diâmetro na altura do peito, e algumas tinham mais de 1,5 metro. Eram 20% mais grossas que as maiores das áreas intocadas.

Mais impressionante: as áreas desbastadas tinham guardado tanto ou mais carbono na madeira que as áreas intocadas. Em 30 anos, recuperaram todo o carbono retirado no corte e ainda ganharam o mesmo que a floresta sem corte.

Bom para a fauna

Árvores maiores resistem melhor ao fogo e formam ocos, abrigo essencial para animais raros como o planador-grande e o gambá-de-leadbeater, um pequeno marsupial ameaçado. As acácias que cresceram nas áreas manejadas também são importantes para ele. Armadilhas fotográficas registraram o gambá-de-leadbeater em todas as áreas manejadas estudadas e em nenhuma das intocadas.

As lições

Para os pesquisadores, há três lições. Experimentos de longo prazo são insubstituíveis e não deveriam ser abandonados. O desbaste, em certos casos, pode fornecer madeira, guardar carbono e melhorar o habitat ao mesmo tempo. E não existe solução única para manejar florestas. O desbaste não pode nem deve ser feito em todo lugar, mas é uma ferramenta a considerar.

E na Amazônia?

No Brasil, o debate também existe. Na Amazônia, o manejo florestal sustentável, com exploração de impacto reduzido, retira poucas árvores por hectare e deixa a floresta se recompor por décadas antes de um novo corte. Estudos de longo prazo, como os feitos pela Embrapa em áreas experimentais no Pará, acompanham como a floresta se recupera. A experiência australiana reforça o valor desse tipo de pesquisa.

Perguntas frequentes

O que é desbaste florestal?

A retirada de parte das árvores de uma área para dar espaço e recursos às que ficam.

Cortar árvores pode aumentar o carbono?

No experimento australiano, as áreas desbastadas recuperaram em 30 anos todo o carbono retirado e igualaram a floresta intocada.

Com informações da Universidade de Melbourne.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA