Peixe de cabeça transparente e olhos verdes giratórios fica 20 minutos diante de robô a 600 metros de profundidade na Califórnia

Peixe de cabeça transparente e olhos verdes giratórios fica 20 minutos diante de robô a 600 metros de profundidade na Califórnia
Foto: acervo

O encontro com o peixe-barreleye, o primeiro registrado em 4K pelo MBARI, deixa pesquisadores ainda mais curiosos sobre como ele enxerga o mundo.

Quase todo peixe das profundezas some em poucos minutos quando as luzes de um robô o encontram. Este não. Um peixe de cabeça transparente e olhos enormes ficou cerca de 20 minutos parado diante das câmeras de pesquisadores do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI), a aproximadamente 600 metros de profundidade, ao largo da Baía de Monterey, na Califórnia (EUA).

O animal é um peixe-barreleye, da espécie Macropinna microstoma. A cena rendeu imagens raras e deixou a equipe, nas palavras do instituto, “mesmerizada”.

Um encontro que ninguém esperava

Os cientistas estavam a bordo do navio de pesquisa David Packard, na expedição de oito dias chamada Diving Deep for Delicate Drifters. O foco era estudar animais gelatinosos, como águas-vivas, sifonóforos e ctenóforos, e entender como eles se adaptaram à vida em águas profundas.

Para isso, usaram o veículo operado remotamente Doc Ricketts, que trabalhava a cerca de 90 quilômetros da costa. O peixe apareceu justamente quando o robô já subia, no fim do dia.

A equipe nem estava toda a postos. Boa parte dos cientistas já tinha ido para o laboratório de bordo catalogar amostras e correu de volta ao ouvir o aviso.

Vinte minutos que valem ouro

Segundo o MBARI, o último avistamento da espécie pela instituição foi em 2021, antes de seus robôs ganharem câmeras 4K. Desta vez, o registro saiu com muito mais detalhe.

“It’s always a thrill to chance upon a fish as rare and unique as this one”, disse um especialista de pesquisa do MBARI ao IFLScience. Ele completou: “The last time we observed a was 2021, before our ROVs were equipped with 4K cameras, making this encounter especially exciting. We typically have only a few minutes to observe these fish before they dart away, but this individual stayed with us for nearly 20 minutes, giving us an incredible opportunity to capture it from every angle.”

O cientista sênior Steve Haddock, do MBARI, chamou atenção para a calma do bicho. “I love how calm the fish is, almost like it was filmed in slow motion”, disse. Ele comparou: outros predadores, como os peixes-dragão, costumam congelar por alguns segundos e depois disparar para longe.

Peixe de cabeça transparente e olhos verdes giratórios fica 20 minutos diante de robô a 600 metros de profundidade na Califórnia
Foto: Divulgação

Com o peixe tão colaborativo, a equipe pôde testar diferentes ângulos de iluminação e até posicioná-lo diante da câmera de realidade virtual.

Cabeça de vidro e olhos que giram

O peixe-barreleye vive na chamada zona crepuscular, faixa entre 200 e 1.000 metros de profundidade, onde a luz do sol some rapidamente e o ambiente é frio e escuro.

A espécie é pequena, do tamanho de um punhado, mas tem um visual inconfundível: olhos tubulares enormes que giram dentro de uma cúpula transparente na cabeça. Ele costuma ficar quase imóvel, usando as grandes nadadeiras planas para se manter no lugar, à espera de uma presa.

Acredita-se que o tom verde dos olhos ajude o peixe a distinguir a luz natural, que vem de cima, da luz produzida por seres bioluminescentes. Assim, ele enxergaria presas em silhueta contra a claridade que desce da superfície.

O que ainda ninguém sabe

Haddock, porém, acha que a história não está completa. “There are hypotheses about the function of the transparent dome and its rotating tubular eyes, but I think we still don’t know exactly what it is looking for to detect its prey, when it rotates its eyes, and the function of the green pigmentation in the lenses”, afirmou ao IFLScience.

E deixou uma pergunta no ar: “What does the world look like through its eyes?”

E a Amazônia com isso?

O encontro aconteceu no Pacífico norte, longe da região, mas ajuda a mostrar quanto da vida marinha ainda é pouco conhecida. A costa amazônica, no Amapá e no Pará, também tem águas profundas pouco exploradas, e robôs e câmeras de alta resolução são justamente o que permite flagrar comportamentos que antes passavam despercebidos.

Segundo o MBARI, a expedição Diving Deep for Delicate Drifters teve oito dias de duração e rendeu a primeira filmagem do peixe-barreleye em 4K pela instituição, em águas da Baía de Monterey. As imagens devem seguir sendo estudadas pelos pesquisadores para tentar responder a perguntas que ainda estão em aberto sobre a visão do animal.

Com informações de MBARI.

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