
O pescador Anderson Guedes, de Rondônia, estava atrás de traíra quando sentiu uma dor forte nas pernas. Sozinho na margem, achou que tinha sido atingido por uma arraia, comum naquela região. Era outra coisa: um poraquê, o peixe-elétrico da Amazônia, que tinha seguido a isca sem ser visto e passado raspando com uma descarga. Quando enxergou o tamanho do animal, decidiu tirá-lo da água. Medido, o peixe tinha dois metros, o maior exemplar da espécie já registrado no Brasil.
A captura aconteceu em fevereiro de 2025, na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa, mas o vídeo só foi divulgado no começo de 2026. O recorde foi homologado pela entidade que valida marcas de pesca no país.
Meia hora de cuidado
Segundo o próprio pescador, a luta levou cerca de 30 minutos, com atenção constante para não levar outro choque. Para manusear o peixe, ele usou um alicate de plástico, material que não conduz eletricidade. Depois da medição, o poraquê foi devolvido ao rio.
Guedes contou que fez questão de medir porque a literatura que conhecia falava em exemplares de até um metro e meio. A espécie, porém, pode passar de dois metros e chegar a cerca de 2,5 metros, o que torna o registro raro, mas plausível.
Até 860 volts
O poraquê não é uma enguia, apesar do nome em inglês, electric eel. É um peixe da ordem dos gimnotiformes, a mesma dos peixes-faca. Cerca de 80% do corpo é ocupado por órgãos formados por células chamadas eletrócitos, que funcionam como pilhas empilhadas. Juntas, elas produzem descargas que podem chegar a 860 volts, suficientes para paralisar presas e causar muita dor em uma pessoa.
O peixe também usa eletricidade de baixa intensidade para se orientar e localizar presas na água escura dos rios amazônicos. Outro detalhe curioso: ele respira ar. Precisa subir à superfície com frequência para engolir oxigênio, e por isso vive bem em águas paradas e pouco oxigenadas, onde outros peixes sofrem.
Onde vive o poraquê
O peixe-elétrico ocorre nas bacias do Amazonas e do Orinoco e em rios das Guianas. Prefere águas lentas, igapós, lagos de várzea e igarapés com fundo de lama, onde passa boa parte do tempo parado, perto do fundo. Caça principalmente à noite, usando pulsos elétricos fracos para detectar peixes escondidos e descargas fortes para atordoá-los. Pesquisadores já observaram grupos de poraquês caçando juntos, cercando cardumes antes de dar os choques.
Três espécies, não uma
Durante mais de 200 anos, a ciência tratou o poraquê como uma única espécie. Em 2019, um estudo liderado por pesquisadores brasileiros e do Smithsonian mostrou que existem pelo menos três: Electrophorus electricus, Electrophorus voltai e Electrophorus varii. O E. voltai, que vive nas águas do Escudo Brasileiro, foi o que registrou a descarga mais forte já medida em um animal, de 860 volts.
O choque é perigoso para gente?
Mortes causadas por poraquê são raras, mas possíveis. Segundo o biólogo Flávio Terassini, o maior risco ocorre quando a pessoa está com o corpo todo dentro da água no momento da descarga. Nesse caso, o choque pode provocar desmaio ou parada respiratória e levar ao afogamento. Por isso, quem pesca ou toma banho em rios onde há poraquê deve evitar mexer no animal e manter distância.
A descarga também é usada como defesa. Quando se sente ameaçado, o peixe pode saltar parcialmente para fora da água e encostar no inimigo, o que concentra a corrente no corpo de quem está perto, comportamento já descrito por cientistas.
Soltar faz diferença
Guedes lembrou que muita gente corta a linha ou mata o peixe-elétrico por medo. Ao devolver o recordista ao rio, ele manteve na natureza um animal adulto de grande porte, justamente o tipo de indivíduo que mais contribui para a reprodução da espécie. Para a ciência, registros assim também ajudam a entender até que tamanho esses peixes chegam fora dos aquários e coleções.
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