Uma família plantou 840 mil árvores no Rio de Janeiro e, 25 anos depois, a anta voltou a nascer livre no estado, onde tinha sumido havia mais de um século

Uma família plantou 840 mil árvores no Rio de Janeiro e, 25 anos depois, a anta voltou a nascer livre no estado, onde tinha sumido havia mais de um século
Anta-brasileira (Tapirus terrestris). Foto: Giles Laurent, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Em 2001, Nicholas e Raquel Locke criaram a Reserva Ecológica de Guapiaçu, a Regua, em Cachoeiras de Macacu, no estado do Rio de Janeiro. A ideia era proteger e recuperar a bacia do rio Guapiaçu, numa região onde boa parte da Mata Atlântica tinha virado pasto. Vinte e cinco anos depois, a reserva chegou a 840 mil árvores nativas plantadas e cerca de 607 hectares restaurados. E a floresta recebeu de volta um morador que estava ausente havia mais de um século: a anta.

Do pasto à floresta

O trabalho começou num viveiro de mudas nativas. As plantas foram para áreas de pasto degradado, que passaram a ser protegidas. Fragmentos de floresta foram ligados por corredores, permitindo que animais circulem entre eles. A reserva também recuperou áreas alagadas e faz o monitoramento da sobrevivência das árvores e da fauna.

A volta da anta

A anta, Tapirus terrestris, foi extinta no estado do Rio por causa da caça e do desmatamento. A reintrodução começou em 2017, com a chegada dos primeiros animais, trazidos de zoológicos e criadouros de outros estados. O trabalho envolve os projetos Refauna e ANTologia, em parceria com a Regua, e o Parque Estadual dos Três Picos.

Os animais são microchipados e usam colares com GPS e rádio para que os pesquisadores acompanhem seus movimentos. Poucos anos depois, nasceu o primeiro filhote em liberdade no estado em mais de cem anos. Até 2025, a reserva registrou oito filhotes, incluindo uma segunda geração, ou seja, antas que já são filhas de animais nascidos no Rio.

Reprodução lenta

O ritmo de crescimento é devagar, e isso é normal para a espécie. A gestação da anta dura cerca de 13 meses e gera um único filhote, que acompanha a mãe por cerca de um ano e meio. Por isso, cada nascimento conta muito. A meta dos pesquisadores é chegar a uma população de 50 antas no mosaico central de áreas protegidas da Mata Atlântica fluminense.

A jardineira da floresta

A anta é o maior mamífero terrestre do Brasil e pode passar de 250 quilos. Ela come grande quantidade de frutos e espalha as sementes pelas fezes, às vezes a quilômetros de distância. Muitas árvores de sementes grandes dependem de animais desse porte para se espalhar. Sem a anta, a floresta perde uma das suas principais plantadoras.

Por isso, trazer a anta de volta não é só recuperar uma espécie. É devolver à floresta uma função ecológica que estava faltando. A floresta plantada pela família Locke ganha, assim, uma ajudante para continuar crescendo sozinha.

Restaurar dá resultado

A Mata Atlântica é um dos biomas mais ameaçados do Brasil, com uma pequena parte da cobertura original preservada. Iniciativas como a de Guapiaçu mostram que áreas degradadas podem voltar a ser floresta e que, com tempo e trabalho, até animais extintos localmente podem retornar. A reserva também virou destino de observação de aves e de pesquisa.

Perguntas frequentes

Onde fica a Reserva Ecológica de Guapiaçu?

Em Cachoeiras de Macacu, no estado do Rio de Janeiro, na bacia do rio Guapiaçu.

Por que a anta tinha sumido do Rio?

Por causa da caça e do desmatamento. Ela estava extinta no estado havia mais de cem anos.

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