A planta que cresce para baixo: as 'huperzias' pendem dos galhos das florestas brasileiras como cordões verdes

A planta que cresce para baixo: as 'huperzias' pendem dos galhos das florestas brasileiras como cordões verdes
Foto: Steve Fitzgerald/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). Phlegmariurus phlegmaria, espécie pendente do grupo, em floresta tropical na Austrália.

Elas parecem cordões verdes pendurados nos galhos das árvores, com ramos que descem em vez de subir. Por isso, ganharam fama nas redes como “a planta que cresce ao contrário”. Popularmente chamadas de huperzias, essas plantas são licófitas, uma linhagem muito antiga de plantas vasculares que não produz flores nem sementes e se reproduz por esporos. No Brasil, segundo um levantamento dos botânicos Benjamin Øllgaard e Paulo G. Windisch publicado em 2019 na revista científica Rodriguésia, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, existem 41 espécies do grupo, e 25 delas são endêmicas, ou seja, só existem no país.

Huperzia ou Phlegmariurus?

O nome popular vem do gênero Huperzia, mas a classificação mudou. Segundo o levantamento publicado na Rodriguésia, das 41 espécies brasileiras do grupo, apenas uma pertence hoje ao gênero Huperzia: a Huperzia catharinae, uma planta terrestre e ereta, conhecida apenas pela coleta que serviu para descrevê-la, em Santa Catarina. As outras 40 estão no gênero Phlegmariurus, e 24 delas são endêmicas do Brasil.

Por isso, muitas das plantas vendidas ou chamadas de huperzia, inclusive as pendentes, pertencem na verdade ao gênero Phlegmariurus.

Por que elas crescem para baixo

A maior parte das espécies de Phlegmariurus é epífita: vive sobre outras plantas, presa a troncos e galhos, sem tirar nutrientes delas. Muitas têm caules finos e flexíveis que, com o peso, pendem em direção ao chão. Não é que a planta “cresça ao contrário”: seus ramos simplesmente não se sustentam de pé e caem, formando as cortinas verdes.

Segundo o levantamento, algumas espécies brasileiras podem chegar a pelo menos 70 centímetros de comprimento, como a Phlegmariurus acerosus, descrita como fina e flacidamente pendente. Outras, como a Phlegmariurus fontinaloides, são delicadas, com caules finos e avermelhados, e vivem em florestas montanas e de neblina.

Onde vivem no Brasil

Segundo os autores, essas plantas ocorrem na maioria dos ambientes de clima úmido, das florestas tropicais de baixada às florestas de montanha e aos campos de altitude. O grupo é especialmente rico nas serras do Sudeste, mas há registros em vários estados, incluindo Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia e Mato Grosso. A Phlegmariurus capillaris, uma epífita pendente muito delicada de floresta úmida, é conhecida no Brasil apenas em Roraima. Já a Phlegmariurus dichotomus vive em florestas de beira de rio e de baixada.

Plantas de esporos

As licófitas estão entre as plantas vasculares mais antigas do planeta, com uma história que começou há mais de 400 milhões de anos, muito antes das plantas com flores. Em vez de sementes, elas produzem esporos em pequenas estruturas na ponta dos ramos ou junto às folhas. Os esporos são levados pelo vento e, em ambiente úmido, dão origem a novas plantas.

Cuidado com a coleta

As huperzias dependem de ambientes úmidos e preservados, e algumas são arrancadas da mata para venda como planta ornamental. Como mais da metade das espécies brasileiras só existe aqui, a retirada da natureza pode afetar populações pequenas. Quem quiser cultivar deve procurar mudas produzidas em viveiro.

Perguntas frequentes

O que é a planta que cresce ao contrário?

É uma licófita epífita do grupo das huperzias, hoje classificada em sua maioria no gênero Phlegmariurus, cujos ramos pendem dos galhos.

Huperzia tem flor?

Não. Ela se reproduz por esporos, como as samambaias.

Quantas espécies existem no Brasil?

41 espécies do grupo, segundo levantamento publicado na revista Rodriguésia em 2019, sendo 25 endêmicas.

Existe na Amazônia?

Sim. Há registros em estados como Amazonas, Pará, Roraima e Rondônia.

Para os botânicos, ainda há muito a descobrir sobre esse grupo, que vive no alto das árvores e passa despercebido para quem anda no chão da floresta.

Com informações do levantamento de Benjamin Øllgaard e Paulo G. Windisch publicado na revista Rodriguésia, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

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