
Estudo publicado na Science Advances sugere que o Índico, hoje estável, pode passar a oscilar como o Pacífico e alterar monções.
O Oceano Índico, que hoje tem temperaturas de superfície relativamente estáveis de um ano para o outro, pode passar a oscilar de forma abrupta, como o Pacífico faz no El Niño, se o aquecimento global seguir a trajetória atual. É o que indica um estudo de cientistas da Universidade do Arizona, da Universidade do Texas em Austin e da Universidade do Havaí em Manoa, publicado em 6 de maio de 2020 na revista Science Advances. Segundo as simulações, o fenômeno poderia surgir já em 2050.
Um oceano que seria exceção
O El Niño é um padrão climático do Oceano Pacífico que altera o tempo em várias partes do planeta. O Índico, hoje, tem oscilações muito discretas porque os ventos predominantes sopram de forma branda de oeste para leste, o que mantém as condições do mar estáveis.
De acordo com as simulações, o aquecimento global poderia inverter a direção desses ventos. Com isso, o oceano perderia a estabilidade e entraria em ciclos de aquecimento e resfriamento comparáveis aos do El Niño e da La Niña no Pacífico.
“Nossa pesquisa mostra que aumentar ou diminuir a temperatura média global em apenas alguns graus faz o Oceano Índico operar exatamente como os outros oceanos tropicais, com temperaturas de superfície menos uniformes ao longo do Equador, clima mais variável e seu próprio El Niño”, disse o autor principal, Pedro DiNezio, climatologista do Instituto de Geofísica da Universidade do Texas.
Como os cientistas chegaram a essa conclusão
A equipe analisou simulações climáticas e as agrupou conforme a capacidade de reproduzir as observações atuais. Quando as tendências de aquecimento foram incluídas, as simulações mais fiéis ao presente foram justamente as que mostravam um El Niño no Índico surgindo até 2100.
O trabalho amplia um artigo de 2019 de vários dos mesmos autores, que encontrou evidências de um El Niño no Índico no passado, preservadas nas conchas de foraminíferos, organismos marinhos microscópicos que viveram há 21 mil anos, no auge da última era do gelo, quando a Terra era bem mais fria.
Kaustubh Thirumalai, professor do Departamento de Geociências da Universidade do Arizona, liderou o estudo de 2019. Para ele, o modo como as condições glaciais afetaram ventos e correntes no Índico se parece com o que o aquecimento causa nas simulações. “Isso significa que o Oceano Índico atual pode, na verdade, ser incomum”, afirmou.
Quem sentiria o efeito
O resultado esperado seriam novos extremos climáticos na região, incluindo perturbações nas monções da África Oriental e da Ásia. Inundações, tempestades e secas tenderiam a piorar e a ficar mais frequentes, com impacto maior sobre as populações mais vulneráveis.
Uma falha nas monções preocupa porque milhões de pessoas dependem das chuvas anuais regulares para produzir alimentos. “Há muitos países densamente povoados ao redor do Oceano Índico, do sudeste da África até o oeste da Austrália, particularmente o subcontinente indiano e o sudeste asiático”, disse Thirumalai. “Se você tem um ano de monção fraco na Índia, isso cobra um preço enorme da agricultura, que por sua vez está diretamente ligada ao PIB indiano.”
Michael McPhaden, oceanógrafo físico da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) e pioneiro no estudo da variabilidade climática tropical, não participou da pesquisa, mas comentou os resultados. “Se as emissões de gases de efeito estufa continuarem nas tendências atuais, até o fim do século eventos climáticos extremos atingirão países ao redor do Oceano Índico, como Indonésia, Austrália e África Oriental, com intensidade crescente”, afirmou. “Muitos países em desenvolvimento nessa região já têm risco elevado diante desses eventos extremos, mesmo no clima atual.”
O que isso significa para a Amazônia
O Índico fica longe da Amazônia, mas o clima do planeta funciona como um sistema conectado. O próprio El Niño do Pacífico é conhecido na região por estar associado a secas severas em partes da floresta. O estudo, porém, não analisou efeitos sobre a América do Sul, e qualquer influência de um eventual El Niño indiano sobre as chuvas amazônicas é uma pergunta em aberto, que não foi testada pelos autores.
O que a pesquisa reforça é a lição que a região já conhece: pequenas mudanças na temperatura média global podem reorganizar padrões de vento e chuva, com custo maior para quem tem menos recursos para se adaptar.
O que ainda é incerto
Os resultados vêm de simulações, e não de observações do futuro. Por isso, a data de 2050 corresponde ao cenário em que as tendências atuais de aquecimento continuem. Thirumalai ressalta a necessidade de entender as incertezas sobre as mudanças climáticas em curso e futuras para construir sociedades resilientes.
A pesquisa foi financiada pelo Programa de Paleoclima da Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF). Novos estudos com outros modelos e com mais registros do passado devem testar se o padrão se repete e quais regiões seriam mais afetadas.
Com informações de Universidade do Arizona.
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