Calmaria de ventos fracos no Mar de Coral, somada a sistemas distantes e a um El Niño forte, pode aquecer o oceano e ameaçar a Grande Barreira

Calmaria de ventos fracos no Mar de Coral, somada a sistemas distantes e a um El Niño forte, pode aquecer o oceano e ameaçar a Grande Barreira
Foto: Divulgação

Pesquisa australiana mostra como sistemas de tempo a milhares de quilômetros se combinam e prolongam as calmarias que favorecem o branqueamento de corais.

Quando o vento some sobre o Mar de Coral, no litoral norte de Queensland, a água passa a esquentar sem ter por onde dissipar o calor. Um novo estudo australiano explica o que sustenta essas calmarias, e por que elas importam agora: um El Niño forte está em curso no Oceano Pacífico, o que reacende o temor de ondas de calor marinhas e de branqueamento de corais na Grande Barreira de Corais.

A pesquisa foi conduzida por Lara Richards durante o doutorado no Centro de Excelência do ARC para o Clima do Século 21 (21st Century Weather), na Universidade Monash. Hoje ela é pesquisadora na Universidade de Reading. O trabalho foi publicado na revista Weather and Climate Dynamics, com participação de pesquisadores da Universidade de Melbourne.

O que são as calmarias e por que esquentam o mar

Os cientistas chamam esses períodos de “doldrums”, ou calmarias. São fases de ventos fracos, menos nuvens e ar seco em movimento descendente, condições incomuns para trópicos úmidos, onde o esperado seria muita nebulosidade, trovoadas e chuva.

Em situação normal, os alísios de leste ajudam a resfriar as águas ao redor do recife. Eles agitam a camada superior do oceano e facilitam a saída de calor pela superfície. Quando a calmaria persiste, esse resfriamento natural é suprimido.

“Quando as calmarias persistem, o oceano permanece por mais tempo em fase de aquecimento, o que pode produzir aumentos rápidos de temperatura e contribuir para o branqueamento de corais”, disse Richards.

O papel do El Niño

As calmarias podem ocorrer em qualquer época e não são causadas pelo El Niño-Oscilação Sul (ENSO). Ainda assim, um El Niño ativo eleva o nível de ameaça de fundo. Uma calmaria prolongada durante uma fase forte do fenômeno pode contribuir para uma onda de calor marinha e aumentar o risco de branqueamento em massa.

A relação entre vento fraco, menos nuvens, aquecimento do oceano e branqueamento já era bem compreendida. O que faltava era explicar por que as calmarias se formam e por que algumas passam rápido, enquanto outras se arrastam.

Olhar para além do recife

Segundo a equipe, o diferencial do estudo foi observar a interação entre sistemas de tempo nos trópicos e nas latitudes médias, separados por milhares de quilômetros. Esses padrões atmosféricos podem se combinar numa receita potencialmente fatal para os corais.

“Muita pesquisa anterior se concentrou no que acontece localmente sobre a Grande Barreira de Corais. Este estudo olha além do tempo local para entender como sistemas de tempo muito maiores interagem para criar essas condições”, afirmou Yi Huang, coautora do trabalho, do 21st Century Weather e da Universidade de Melbourne.

Segundo a Universidade Monash e parceiros do centro de pesquisa, o resultado é o entendimento mais abrangente até agora das condições atmosféricas que produzem calmarias duradouras e aumentam o risco de um evento de branqueamento em massa.

O que isso significa para a Amazônia

A Grande Barreira fica do outro lado do planeta, mas o raciocínio ajuda a ler a região. Também na Amazônia o El Niño costuma ser associado a alterações no regime de chuvas e a períodos mais quentes e secos, e o aquecimento dos oceanos tropicais é acompanhado de perto por quem estuda o clima regional. O estudo australiano não trata da Amazônia, mas reforça que efeitos locais podem depender de sistemas atmosféricos distantes.

Também vale lembrar que a costa amazônica abriga recifes, como os da foz do Amazonas, ecossistema que depende de monitoramento de temperatura e que, por isso, tem interesse em abordagens que antecipem episódios de calor extremo no mar.

O que ainda falta

O trabalho não prevê quando ocorrerá um novo evento de branqueamento nem garante que ele acontecerá. Ele aponta os ingredientes atmosféricos que tornam as calmarias mais longas e, portanto, mais perigosas, o que pode melhorar o acompanhamento de alertas conforme o El Niño avança nos próximos meses.

Com informações de Universidade Monash e 21st Century Weather.

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