
Registro feito nos Montes de Toledo sugere que um dos felinos mais ameaçados do mundo pode estar inventando soluções para um clima cada vez mais quente.
Imagine um predador de garras afiadas que, em vez de devorar a caça, a leva até um bebedouro e a mergulha na água, como quem põe feijão de molho. Foi exatamente isso que câmeras escondidas flagraram nos Montes de Toledo, no centro da Espanha: entre 2020 e 2025, cinco linces-ibéricos fêmeas protagonizaram oito cenas de coelhos mortos sendo molhados. Segundo um estudo publicado em março de 2026, é a primeira vez que se observa um carnívoro encharcando a própria presa.
Uma cena que ninguém esperava ver
Leopardos e lobos, lembram os autores, costumam rasgar, matar e devorar a caça com garras e caninos. Molhar o alimento parecia coisa de outros bichos. Por isso os pesquisadores ficaram chocados quando uma câmera registrou uma fêmea carregando um coelho morto até um bebedouro e o mergulhando. Depois, viram o comportamento se repetir.
Outros animais já foram vistos lavando ou umedecendo comida. Primatas não humanos limpam alimentos para tirar areia, e há espécies que molham a comida para amolecê-la. Mas são onívoros ou comedores de frutas, e a maior parte desses registros veio de animais em cativeiro. O caso do lince é diferente: é um carnívoro, em vida livre.
Oito mergulhos, cinco fêmeas
A equipe, liderada por pesquisador do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha, monitora linces com armadilhas fotográficas nos Montes de Toledo desde 2014, para estudar sobrevivência, população e reprodução. O primeiro registro curioso veio em 9 de agosto de 2020, quando uma fêmea chamada Naia levou um coelho morto até um bebedouro.
Três anos depois, Naia e outra fêmea, Luna, de um território vizinho, foram filmadas imergindo presas. Naia respondeu por quatro dos oito episódios. Em um deles, em 16 de julho de 2024, a fêmea Ulcera aparece carregando um coelho até o bebedouro e o mergulhando.
Cada imersão durou cerca de um minuto, com a mais longa passando de quatro minutos. Todas as autoras do comportamento eram fêmeas e, em vez de comer ali, levaram os coelhos embora depois de encharcá-los.
Por que um lince molharia o jantar?
Os cientistas descartaram o calor extremo como gatilho imediato, já que a região não passava por ondas de calor. Também não puderam comparar com outras áreas: o comportamento não foi visto em outras regiões nem em centros de criação, onde os linces são monitorados por vídeo.
Um padrão chamou atenção. Todos os casos envolveram linces com territórios parcialmente sobrepostos ou seus descendentes. Para os pesquisadores, isso sugere que o hábito pode circular em grupos familiares ou redes locais, embora não tenham observado aprendizado direto.
“Embora os linces sejam geralmente solitários, eles exibem certo grau de coesão social, em grande parte baseada em parentesco”, afirma Jiménez, um dos autores.
Quatro das cinco fêmeas estavam em idade reprodutiva. Por isso, a hipótese é que tentavam hidratar os filhotes, acrescentando água à presa, ou amolecer a carne para facilitar a passagem do leite ao alimento sólido.
Quanta água cabe em um coelho
Em experimentos, uma carcaça de coelho molhada por 30 segundos e deixada na sombra reteve cerca de 4% do peso corporal do animal em água 40 minutos depois. É um volume que, para filhotes, pode fazer diferença.
A ideia ganha força porque os filhotes costumam nascer no início da primavera, mas fatores como falha na fertilização, perda precoce de ninhadas e primeira gestação tardia podem levar partos a final de maio. Essas ninhadas tardias enfrentam tempo mais quente e seco, e os autores apontam que o hábito poderia ajudar os filhotes à medida que as temperaturas da região sobem.
“Isso é muito interessante e realmente uma observação surpreendente. Gatos selvagens são vistos como caçadores eficientes e guiados por instinto, então ver um indivíduo modificar a forma de lidar com a presa é bastante notável.”
A frase é de Wong, diretor de ciência de conservação de pequenos felinos de uma organização internacional, que não participou do estudo. Ele avalia que o comportamento indica resolução de problemas: o lince pode estar experimentando uma nova forma de manejar o alimento. Para Wong, comportamentos assim tendem a ser aprendidos, muitas vezes a partir de um indivíduo que testa por acaso e repete porque há benefício.
Um especialista em coelhos que quase sumiu
O lince-ibérico (Lynx pardinus) depende do coelho-europeu para sobreviver. A espécie, endêmica da Península Ibérica, já esteve à beira da extinção. A pressão veio de mudanças no ecossistema, caça excessiva e doenças que derrubaram as populações de coelho, além da perda de florestas mediterrâneas para a urbanização e a agricultura. Programas de recuperação fizeram os números subir desde então.
Para Jiménez, entender como os animais ajustam o comportamento às condições locais ajuda a melhorar o manejo de populações reintroduzidas e em recuperação.
O que isso diz para a Amazônia
O lince vive a milhares de quilômetros da floresta, mas a lição conversa com a região. Onças-pintadas, suçuaranas e jaguatiricas também enfrentam habitat fragmentado e clima mais extremo, e Wong lembra que grandes felinos, como tigres e leopardos, podem mudar técnicas de caça e manejo da presa em resposta a ambientes em transformação. Câmeras-armadilha, aliás, são ferramenta comum em pesquisas amazônicas, e registros de comportamentos incomuns podem surgir de qualquer monitoramento de longo prazo.
Os pesquisadores devem seguir acompanhando os territórios dos Montes de Toledo para verificar se o hábito se espalha e se os filhotes de fato se beneficiam. Só novas temporadas de registros poderão dizer se a técnica dos linces é uma curiosidade passageira ou parte de sua adaptação ao clima que vem.
O estudo completo e o comunicado do instituto de pesquisa estão disponíveis no site do Instituto de Investigação em Recursos Cinegéticos.
Com informações de Smithsonian Magazine e do Instituto de Investigação em Recursos Cinegéticos (IREC).
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