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Oceanos batem recorde de 21,1°C em agosto, enquanto El Niño acelera calor e ameaça costas e pesca

Oceanos batem recorde de 21,1°C em agosto, enquanto El Niño acelera calor e ameaça costas e pesca
Foto: aljazeera.com

Marca registrada fora do período normal de pico expõe a combinação entre aquecimento causado por combustíveis fósseis e El Niño.

A superfície dos oceanos atingiu 21,1°C na sexta-feira e no sábado anteriores a 25 de agosto de 2026, igualando o maior valor já registrado para a média global e superando o recorde de 21,09°C observado em março de 2024. O dado foi divulgado pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, que alertou para uma combinação incomum: o El Niño está se fortalecendo justamente sobre décadas de aquecimento provocado pela atividade humana.

A marca chama atenção não apenas pelo número, mas pelo calendário. As águas do planeta costumam alcançar as temperaturas mais altas em março e abril, quando termina o verão no Hemisfério Sul, uma região dominada por oceanos. Desta vez, porém, o recorde apareceu em agosto, meses antes do período habitual de pico.

Um recorde antecipado em um planeta já mais quente

Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, a temperatura média global da superfície do mar chegou a 21,1°C em agosto de 2026, quando o padrão sazonal normalmente apontaria para valores menores. A instituição classificou o momento como um sinal de pressão sem precedentes sobre os oceanos.

Samantha Burgess, líder estratégica para o clima no Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, afirmou que o El Niño está adicionando calor ao sistema, mas não explica sozinho o resultado. “O El Niño está adicionando calor ao sistema, mas está fazendo isso sobre décadas de aquecimento causado pelos seres humanos”, disse.

A diferença de apenas 0,01°C em relação ao recorde de 2024 pode parecer pequena, mas a média global dos oceanos reúne uma quantidade gigantesca de água. Alterações aparentemente discretas nessa escala representam o acúmulo de energia capaz de modificar correntes, tempestades, ecossistemas e cadeias alimentares inteiras.

Por que o El Niño ainda pode elevar a temperatura

O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento temporário de áreas do Pacífico equatorial. Essa mudança interfere na circulação atmosférica e desloca padrões de chuva, secas e temperaturas em diferentes partes do mundo. O problema atual é que o fenômeno ocorre sobre uma base oceânica já aquecida pela emissão de gases de efeito estufa.

Samantha Burgess avaliou que os oceanos devem continuar esquentando até que o episódio atual alcance seu auge, previsto entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A Organização Meteorológica Mundial também projeta fortalecimento nos próximos meses.

O Copernicus afirmou que seus modelos sazonais indicam que o evento pode atingir níveis não observados há várias décadas. A previsão, no entanto, não significa que todos os efeitos serão iguais em cada país. O El Niño reorganiza os padrões climáticos, mas seus impactos dependem da região, da estação do ano e das condições ambientais locais.

Aquecimento ameaça recifes, pesca e cidades costeiras

O aquecimento do oceano produz efeitos que vão muito além da temperatura medida em alto-mar. A água mais quente se expande, contribuindo para a elevação do nível do mar. Também aumenta a probabilidade e a intensidade de ondas de calor marinhas, períodos prolongados de temperaturas anormais que podem provocar branqueamento e morte de corais.

Pradarias marinhas, manguezais e outros ambientes costeiros também ficam sob pressão. Quando esses ecossistemas perdem produtividade, o impacto se espalha pela cadeia alimentar e pode atingir a pesca, a aquicultura e a segurança alimentar de comunidades que dependem diretamente do mar.

O oceano mais quente ainda absorve menos dióxido de carbono da atmosfera. Isso enfraquece uma das principais barreiras naturais contra o aquecimento global e pode criar um ciclo de retroalimentação: mais calor reduz a capacidade de absorção de carbono, enquanto a concentração de gases mantém a tendência de aquecimento.

“Um oceano tão quente desestabiliza os padrões climáticos e ameaça a segurança alimentar, a prosperidade econômica e a vida marinha. Um oceano mais quente não é nosso amigo”, afirmou Jane Lubchenco, oceanógrafa e ex-diretora da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos.

O reflexo possível no litoral amazônico

Na Amazônia, a discussão alcança diretamente o litoral do Pará e do Amapá, além das áreas costeiras do Maranhão incluídas na Amazônia Legal. Estuários, manguezais e comunidades pesqueiras da região dependem do equilíbrio entre água doce, marés, sedimentos e temperatura.

O aumento da temperatura global dos oceanos não permite atribuir automaticamente cada seca, chuva extrema ou mudança na pesca ao El Niño. Essa seria uma conclusão que o dado não sustenta sozinho. O que ele revela é um cenário de maior vulnerabilidade, no qual eventos naturais passam a atuar sobre ecossistemas já pressionados pelo aquecimento, pelo desmatamento de áreas costeiras e pela ocupação desordenada.

Para os estados amazônicos com ligação costeira, a elevação do nível do mar pode agravar erosão, salinização de áreas baixas e perda de habitats. A intensidade desses efeitos dependerá da evolução do fenômeno, das condições locais e da capacidade de proteção das comunidades. Mesmo sem uma previsão específica para cada município, a tendência global reforça a necessidade de monitoramento permanente.

O que os próximos meses podem revelar

O recorde de agosto funciona como um indicador de que os oceanos estão respondendo simultaneamente a uma oscilação climática natural e a uma tendência de longo prazo causada pela queima de combustíveis fósseis. Copernicus estima que o aquecimento provocado por essa influência humana já elevou as temperaturas oceânicas em cerca de 0,8°C.

Mais calor disponível na superfície do mar também significa mais energia e umidade para a atmosfera, aumentando o potencial de eventos extremos. Isso não determina sozinho quando ou onde ocorrerá uma tempestade, mas amplia as condições favoráveis para fenômenos severos.

O próximo ponto de observação será o período entre novembro e janeiro, quando o El Niño deve se aproximar do pico projetado. A evolução das temperaturas oceânicas e dos impactos sobre ecossistemas e comunidades costeiras será acompanhada pelos centros meteorológicos e climáticos nos meses seguintes.

Com informações de Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus.

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