Restaurar ecossistemas enfrenta juntas as crises do clima e da biodiversidade

Raízes aéreas de manguezal em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém

Estudo liderado por pesquisadores brasileiros e publicado na Nature mostra que recuperar áreas agrícolas nos lugares certos evitaria a maioria das extinções previstas e retiraria da atmosfera quase metade do CO2 acumulado desde a Revolução Industrial.

Recuperar 30% das terras que foram convertidas em lavoura e pasto, escolhendo as áreas prioritárias e mantendo de pé os ecossistemas naturais que restam, evitaria mais de 70% das extinções projetadas de mamíferos, aves e anfíbios. A mesma restauração poria o planeta no caminho de sequestrar mais de 465 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), quase metade de todo o aumento desse gás na atmosfera desde a Revolução Industrial.

Os números são do estudo Global priority areas for ecosystem restoration (Áreas prioritárias globais para restauração de ecossistemas), publicado em outubro de 2020 na revista científica Nature. O trabalho reúne 27 autores e foi liderado pelo pesquisador Bernardo Strassburg, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), com participação de Valerie Kapos e Lera Miles, do Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC, na sigla em inglês).

O pesquisador Bernardo Strassburg, primeiro autor do estudo sobre áreas prioritárias para restauração, durante o Web Summit Rio 2023, no Rio de Janeiro.
O pesquisador Bernardo Strassburg, primeiro autor do estudo sobre áreas prioritárias para restauração, durante o Web Summit Rio 2023, no Rio de Janeiro. Foto: Vaughn Ridley/Web Summit Rio

Para o UNEP-WCMC, o resultado reforça uma tese que a instituição defende: mudança climática e perda de biodiversidade são crises gêmeas e precisam ser enfrentadas em conjunto. O aquecimento acelerado já afeta a economia, as sociedades e a saúde das pessoas, e empurra muitas espécies e ecossistemas para o declínio. Ao mesmo tempo, proteger e restaurar a biodiversidade é parte essencial da resposta ao clima.

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Os pesquisadores desenvolveram um algoritmo que classifica locais do planeta para restauração segundo três critérios: conservação da biodiversidade, mitigação da mudança climática e custo. O método foi aplicado em 1.200 cenários, cobrindo todos os biomas terrestres. Num cenário mais modesto, com restauração de 15% das terras convertidas em áreas prioritárias, seria possível evitar mais de 60% das extinções esperadas e sequestrar 299 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente a 30% do aumento do gás na atmosfera desde a Revolução Industrial, ou 14% de todas as emissões do período.

O planejamento faz diferença no bolso. Segundo os autores, a relação entre custo e benefício pode ficar até 13 vezes melhor quando a escolha das áreas é otimizada pelo método multicritério, o que mostra o peso do planejamento espacial em uma escala global.

O estudo também contesta a ideia de que restaurar é sinônimo de plantar floresta. Dos 2,87 bilhões de hectares de terras convertidas identificadas, 54% eram originalmente florestas, 25% campos naturais, 14% formações arbustivas, 4% áreas áridas e 2% áreas úmidas. As áreas úmidas têm a maior importância relativa para a biodiversidade, e as florestas, para a mitigação do clima. Quando a meta é reduzir custos, o foco se desloca para ecossistemas áridos e campos. Quando os três objetivos são buscados juntos, todos os biomas contam.

Imagem do satélite Landsat 8, de julho de 2016, mostra faixas de floresta convertidas em lavoura e pasto às margens do rio Madeira, na região de Abunã, em Rondônia. A América do Sul tem a maior extensão de terras convertidas identificadas no estudo.
Imagem do satélite Landsat 8, de julho de 2016, mostra faixas de floresta convertidas em lavoura e pasto às margens do rio Madeira, na região de Abunã, em Rondônia. A América do Sul tem a maior extensão de terras convertidas identificadas no estudo. Imagem: Paul Quast/O.V.E.R.V.I.E.W.

A América do Sul aparece com a maior extensão de terras convertidas, distribuídas de forma relativamente uniforme na metade superior do ranking global de prioridades. O Caribe tem a menor extensão disponível para restauração, mas quase toda ela está entre os 10% de áreas mais prioritárias do mundo.

Para Neville Ash, diretor do UNEP-WCMC, o estudo aponta um caminho de baixo custo. “A restauração de ecossistemas deveria estar no centro dos esforços globais para enfrentar as crises da natureza e do clima, mas precisa ser feita em escala local. A década que temos pela frente é crucial, e este estudo mostra como esforços de restauração priorizados são um meio custo-efetivo de manter o sistema de suporte à vida do planeta”, afirmou.

A abordagem usada na análise já serve de apoio aos países signatários da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) na discussão de metas para o marco global de biodiversidade pós-2020. Para os pesquisadores, planejar a restauração em escala global entrega mais benefícios por hectare recuperado, o que torna a cooperação internacional decisiva.

Trabalhar com a natureza para conservar, manejar e restaurar ecossistemas é o que se convencionou chamar de soluções baseadas na natureza. Segundo o UNEP-WCMC, está entre as formas de melhor custo-benefício para mitigar a mudança climática e para se adaptar a ela. A vantagem sobre obras de infraestrutura é agir nas duas frentes ao mesmo tempo: além de sequestrar e estocar carbono, ecossistemas saudáveis ajudam comunidades a enfrentar os impactos do clima e oferecem outros benefícios. A instituição cita quatro exemplos de ecossistemas em que conservar, manejar e restaurar contribui para as duas metas: turfeiras, florestas, pradarias marinhas e manguezais.

Manguezal em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém (PA). Os mangues estão entre os ecossistemas que, conservados ou restaurados, ajudam a conter o aquecimento e a proteger comunidades de seus impactos.
Manguezal em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém (PA). Os mangues estão entre os ecossistemas que, conservados ou restaurados, ajudam a conter o aquecimento e a proteger comunidades de seus impactos. Foto: Laíse Barros

A década de 2021 a 2030 foi declarada pelas Nações Unidas a Década da Restauração de Ecossistemas. Para o UNEP-WCMC, esses dez anos formam uma janela decisiva. O sucesso vai exigir esforços globais coordenados e ações locais que tratem clima e biodiversidade de forma integrada, além de ampliar a escala das soluções baseadas na natureza. Isso depende de informar e capacitar governos, empresas e comunidades para aplicá-las e de seguir reunindo evidências sobre o que de fato funciona.

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