
Novo evento climático pode atingir comunidades, rios, produção de alimentos e a resiliência da floresta entre 2026 e 2027.
Um novo El Niño pode agravar as secas na Amazônia entre meados de 2026 e o primeiro trimestre de 2027, com efeitos sobre rios, alimentos, energia, saúde e transporte. A previsão, apresentada pelo cientista Carlos Nobre com base em estudo do Painel Científico para a Amazônia, coloca em alerta cerca de 48 milhões de pessoas que vivem na região.
O fenômeno também pode aumentar a inflamabilidade da vegetação, favorecer incêndios e acelerar a morte de árvores. O impacto é especialmente grave para povos indígenas, comunidades ribeirinhas e populações rurais que dependem dos rios para trabalhar, estudar, buscar atendimento médico e comprar alimentos.
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O El Niño ocorre quando as águas do Pacífico equatorial aquecem de forma anormal, alterando a circulação da atmosfera e os padrões de chuva em diferentes partes do planeta. Na Amazônia, episódios intensos costumam estar associados a períodos de estiagem, temperaturas elevadas e redução do nível dos rios.
Quando os canais ficam rasos, embarcações maiores deixam de navegar e comunidades podem ficar isoladas. O transporte de pessoas, combustível, remédios e mercadorias se torna mais demorado e caro. A consequência aparece no preço final dos produtos, principalmente em localidades distantes dos centros de distribuição.
Segundo o Painel Científico para a Amazônia, a seca de 2023 afetou cerca de 150 mil famílias e mais de 600 mil pessoas. No Amazonas, os 62 municípios decretaram situação de emergência naquele ano, em razão da redução da capacidade de resposta do poder público diante da crise hídrica.
Entenda o caso
O alerta foi reforçado após uma reunião realizada em 2024 por integrantes do Painel Científico para a Amazônia. Na ocasião, pesquisadores analisaram os efeitos da seca extrema associada ao El Niño de 2023 e 2024, agravada pelas altas temperaturas do Atlântico ao norte do Equador.
O estudo sobre as secas reúne evidências sobre os impactos sociais e ambientais dos eventos extremos. A análise indica que as consequências não terminam quando a chuva retorna, pois a floresta pode levar anos para se recuperar de ondas de calor, estiagens e incêndios.
Energia, pesca e produção de alimentos entram em risco
A baixa dos rios também compromete a geração de energia em usinas hidrelétricas. Com menos água disponível, a produção pode cair e provocar interrupções no fornecimento para residências, comércios, escolas e unidades de saúde.
Durante o El Niño de 2023 e 2024, o Equador registrou cortes de energia de várias horas por dia devido à falta de água nas hidrelétricas. Em São Gabriel da Cachoeira, no alto Rio Negro, a escassez energética afetou o funcionamento de serviços básicos, segundo o relato apresentado no estudo.
Manaus já enfrentou situação semelhante durante a seca de 1997, quando a cidade registrou cortes de energia de até seis horas diárias relacionados ao baixo nível da represa da hidrelétrica de Balbina. O episódio mostra como uma crise nos rios pode provocar efeitos em cadeia mesmo em centros urbanos.
A pesca é atingida em três frentes. O acesso a lagos e rios diminui com a desconexão dos canais, o transporte do pescado até os mercados fica mais caro e a mortalidade de peixes pode aumentar quando a água esquenta e perde oxigênio dissolvido.
A produção de alimentos também sofre. Temperaturas elevadas prejudicam cultivos como cacau e mandioca, além de produtos extrativos como o açaí. Grandes áreas de monocultura, incluindo plantações de soja instaladas em regiões desmatadas, podem registrar queda de produtividade durante períodos de calor e seca intensos.
Calor, fumaça e doenças pressionam os serviços públicos
Os efeitos sobre a saúde incluem maior dificuldade de acesso a médicos, aumento da exposição à fumaça, desnutrição, estresse térmico e possível expansão de doenças transmitidas por vetores. Crianças e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis nas áreas atingidas.
O cotidiano das comunidades também muda. Moradores rurais podem precisar alterar o horário de trabalho para evitar as horas mais quentes do dia. Escolas podem suspender aulas em períodos de calor extremo, enquanto unidades de saúde enfrentam dificuldades para manter atendimento e transporte de pacientes.
Na Amazônia brasileira, aproximadamente 8,5 milhões de pessoas vivem em áreas com infraestrutura limitada e serviços insuficientes para responder aos extremos climáticos. A vulnerabilidade é distribuída pelos estados da região, incluindo Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, onde populações dependem de redes de transporte e abastecimento sensíveis à variação dos rios.
Incêndios podem prolongar os danos por anos
Secas e ondas de calor deixam a vegetação mais inflamável. No entanto, isso não significa que o fogo surja sozinho. Mais de 95% dos incêndios florestais registrados na Amazônia em 2023 e 2024 foram iniciados por atividades humanas insustentáveis e ilegais, segundo o material analisado pelo Painel Científico para a Amazônia.
O fogo pode matar árvores, degradar o solo e reduzir a capacidade de a floresta resistir a novas secas. O processo de mortalidade pode continuar por dois ou três anos depois do evento climático, em um fenômeno conhecido como morte progressiva da vegetação.
Esse mecanismo preocupa cientistas porque seus efeitos podem se aproximar, em escala ambiental, dos danos provocados pelo desmatamento por corte raso. A combinação entre desmatamento, incêndios, calor e estiagem amplia o risco de a floresta perder resiliência e se aproximar de um possível ponto de não retorno.
O que pode ser feito
O alerta não representa uma previsão de que todos os impactos ocorrerão com a mesma intensidade em cada município. A força do El Niño, a distribuição das chuvas, as condições do Atlântico e as políticas locais de resposta podem alterar o resultado.
Mesmo assim, o estudo aponta a necessidade de preparar planos de emergência para transporte, abastecimento, energia, saúde e segurança alimentar. O monitoramento dos rios, a proteção de comunidades isoladas, o combate ao fogo ilegal e o fortalecimento de sistemas de alerta são medidas decisivas.
A formação de um El Niño forte ou muito forte a partir da segunda metade de 2026 reforça a urgência de ampliar a adaptação climática na Amazônia. Novas avaliações deverão indicar a intensidade do fenômeno e orientar as ações públicas ao longo dos próximos meses.
Perguntas frequentes
O que é o El Niño?
É o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, capaz de alterar padrões de chuva e temperatura em várias regiões do mundo.
Como o El Niño afeta a Amazônia?
O fenômeno pode reduzir as chuvas, baixar o nível dos rios, elevar as temperaturas, prejudicar a pesca e a agricultura e aumentar o risco de incêndios.
O fogo na Amazônia é causado diretamente pelo El Niño?
O calor e a seca deixam a vegetação mais inflamável, mas o fogo geralmente começa por ação humana. Mais de 95% dos incêndios registrados em 2023 e 2024 foram associados a atividades humanas, segundo o estudo citado.
O acompanhamento das condições do Pacífico, dos rios e das chuvas será decisivo para definir os próximos planos de prevenção e resposta na região.
Com informações de Painel Científico para a Amazônia.
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