Aquecimento acelera em ondas e atinge cada região em um tempo

Santa Cruz de la Sierra, no leste da Bolívia, região onde o estudo detectou a única aceleração do aquecimento na América do Sul
Santa Cruz de la Sierra, no leste da Bolívia. Foto: Ruditaly / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Estudo que analisou cinco bases de temperatura de 1970 a 2024 identifica sete regiões onde o ritmo de aquecimento mudou de patamar, com inícios que vão dos anos 1980 aos 2010. Uma delas, no leste da Bolívia, é o único ponto da América do Sul.

No sudeste do México, a temperatura média passou a subir cerca de dez vezes mais rápido depois de 2012. No sudeste da China, o ritmo quintuplicou a partir de 2013. No leste da Bolívia, a taxa de aquecimento saltou de 0,016 °C para 0,093 °C por ano depois de 2014. Os números estão em um estudo publicado em setembro de 2026 na revista científica Nature Communications, que mapeou onde e quando o aquecimento da superfície do planeta acelerou desde 1970.

O trabalho é assinado por Claudie Beaulieu, professora associada de ciências oceânicas da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC), com Adelicia Johnson, também da UCSC, Rebecca Killick, professora de estatística da Universidade Clemson e professora honorária da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e John Lanzante e Thomas Knutson, ligados ao Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

“O que quisemos foi oferecer um retrato mais claro, região por região, de onde o aquecimento está de fato acelerando e de quando isso começou”, disse Beaulieu, autora principal. “Nosso estudo mostra que as acelerações regionais surgiram em ondas distintas, com inícios que vão dos anos 1980 aos anos 2010, dependendo da área geográfica.”

No alto, o mapa marca as áreas onde o ritmo de aquecimento mudou desde 1970, com a cor indicando a década da mudança; os quadros vermelhos delimitam as sete regiões destacadas. Abaixo, as séries de temperatura de cada uma, com a linha vermelha mostrando a quebra de tendência. O quadro D corresponde à Bolívia.
No alto, o mapa marca as áreas onde o ritmo de aquecimento mudou desde 1970, com a cor indicando a década da mudança; os quadros vermelhos delimitam as sete regiões destacadas. Abaixo, as séries de temperatura de cada uma, com a linha vermelha mostrando a quebra de tendência. O quadro D corresponde à Bolívia. Imagem: Beaulieu et al. (2026), Nature Communications

A pesquisa entra num debate aberto. Os anos de 2023 e 2024 foram os dois mais quentes desde o início dos registros globais, em 1850, e parte dos cientistas sustenta que o aquecimento global acelerou depois de 2010, em razão da queda na emissão de aerossóis, partículas poluentes que refletem a luz do Sol e esfriam a atmosfera. Outros atribuem o pico principalmente à transição do fenômeno La Niña para o El Niño. Em trabalho anterior, de 2024, parte da mesma equipe concluiu que uma aceleração na média global ainda não era detectável estatisticamente.

Desta vez, o grupo desceu à escala regional. Os pesquisadores reuniram cinco bases de dados de temperatura da superfície, produzidas por NOAA, Agência Espacial dos Estados Unidos (Nasa), Berkeley Earth, pelo Centro Hadley do serviço meteorológico britânico com a Universidade de East Anglia e pelo conjunto DCENT-I, e aplicaram a cada ponto da grade um modelo estatístico de detecção de mudanças de tendência. Entre 4% e 10% das células analisadas mostraram ao menos uma alteração detectável no ritmo de aquecimento no período de 1970 a 2024.

“Ajustar nossos modelos em cada ponto da grade nos permite identificar regiões com comportamento semelhante de aquecimento”, afirmou Killick. “Isso é importante para que as comunidades locais entendam como o aumento do aquecimento terá impactos locais.”

Força estatística das mudanças no ritmo de aquecimento detectadas desde 1970, pela base Berkeley Earth. Quanto mais escuro o tom, mais nítida a aceleração; o sudeste da China concentra o sinal mais forte do planeta.
Força estatística das mudanças no ritmo de aquecimento detectadas desde 1970, pela base Berkeley Earth. Quanto mais escuro o tom, mais nítida a aceleração; o sudeste da China concentra o sinal mais forte do planeta. Imagem: Beaulieu et al. (2026), Nature Communications

As mudanças aparecem sobretudo nas latitudes médias do Hemisfério Norte e, em terra, são na maior parte acelerações. Nos anos 1980 e 1990, o aquecimento ganhou velocidade no Mediterrâneo oriental e no Pacífico Norte. Nos anos 2000, no litoral da Nova Zelândia. Nos anos 2010, no sudeste do México e no Golfo do México, no sudeste da China e na Bolívia. O caso chinês é o mais nítido do ponto de vista estatístico.

O único ponto da América do Sul na lista é o leste da Bolívia. Ali, a mudança foi datada em 2014, e a taxa posterior, de 0,093 °C por ano, equivale a quase 1 °C por década. Os autores ressalvam que o sinal boliviano aparece em quatro das cinco bases, não na DCENT-I, e é o mais difícil de detectar entre os sete.

Fim de tarde na Chiquitania, no leste da Bolívia, região onde o estudo detectou a única aceleração da América do Sul.
Fim de tarde na Chiquitania, no leste da Bolívia, região onde o estudo detectou a única aceleração da América do Sul. Foto: Osireg / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O estudo não se propõe a explicar a causa de cada aceleração. Os autores apontam, porém, que os casos do México e da China são compatíveis com mudanças nos aerossóis, que têm efeito curto e regional. As emissões chinesas de dióxido de enxofre de usinas a carvão e da indústria caem desde 2007, e o México tem plano de reduzir aerossóis até 2030. Oscilações naturais de longo prazo do Pacífico e do Atlântico também podem pesar, e separar uma coisa da outra exigirá novos trabalhos.

Usina termelétrica na China. As emissões chinesas de dióxido de enxofre de usinas a carvão e da indústria caem desde 2007.
Usina termelétrica na China. As emissões chinesas de dióxido de enxofre de usinas a carvão e da indústria caem desde 2007. Foto: Windmemories / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O grupo lembra que regiões com grande população e baixo desenvolvimento socioeconômico são as mais vulneráveis a um aquecimento acelerado, e que ecossistemas sofrem mais com mudanças rápidas do que com as graduais, porque têm menos tempo para se adaptar.

Início das mudanças no ritmo de aquecimento em cada uma das cinco bases de temperatura analisadas, com cores do roxo (anos 1980) ao amarelo (anos 2010). A concordância entre as bases é o que dá confiança às sete regiões destacadas no estudo.
Início das mudanças no ritmo de aquecimento em cada uma das cinco bases de temperatura analisadas, com cores do roxo (anos 1980) ao amarelo (anos 2010). A concordância entre as bases é o que dá confiança às sete regiões destacadas no estudo. Imagem: Beaulieu et al. (2026), Nature Communications

“Esperamos que este trabalho, ao revelar quando e onde essas acelerações ocorreram no passado, junto com um painel público interativo que permite à população continuar monitorando as taxas locais de aquecimento clicando em um mapa, ofereça ferramentas e apoio para antecipar melhor os impactos localizados e direcionar esforços para onde são mais necessários”, disse Beaulieu.

Imagens: Beaulieu et al. (2026), Nature Communications

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA