Marés extremas podem ocorrer todo ano até 2100 e ameaçar cidades, manguezais e patrimônios costeiros

Marés extremas podem ocorrer todo ano até 2100 e ameaçar cidades, manguezais e patrimônios costeiros
Foto: James Hancock /

A elevação dos oceanos já altera comunidades e ecossistemas, enquanto o ritmo do fenômeno acelera em escala global.

Uma maré extrema que antes ocorria uma vez em um século já se tornou até 12 vezes mais frequente desde 1900. Em muitos pontos do planeta, esse tipo de evento poderá acontecer pelo menos uma vez por ano até o fim deste século. A causa não está apenas em tempestades mais intensas: o oceano parte de um patamar cada vez mais alto por causa do aquecimento global.

O alerta aparece em uma declaração de alto nível que líderes mundiais devem adotar na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York, em setembro de 2026. O documento classifica a elevação do nível do mar como uma ameaça existencial para populações, patrimônios culturais e natureza. A expressão não descreve um risco hipotético, mas uma transformação que já afeta cidades, ilhas e comunidades costeiras.

O oceano subiu mais rápido nas últimas décadas

O nível médio global do mar aumentou 20 centímetros entre 1901 e 2018. Desde 1993, porém, a elevação acumulada chegou a 10,6 centímetros, sinal de que o processo ganhou velocidade nas últimas décadas.

Dois mecanismos explicam a maior parte desse avanço. O primeiro é o derretimento de geleiras e mantos de gelo. O segundo é a expansão da água quando ela esquenta, fenômeno semelhante ao que ocorre com um líquido aquecido dentro de um recipiente. Também influenciam o armazenamento de água nos continentes e as mudanças no volume de gelo terrestre.

Segundo a Carbon Brief, a influência humana é a causa dominante da elevação do nível do mar desde pelo menos 1970. Em um cenário de emissões moderadas, a média global poderá subir mais 56 centímetros até 2100, em comparação com o período de referência de 1995 a 2014.

Por que o mesmo aumento produz efeitos diferentes

A média mundial não conta toda a história. O chamado nível relativo do mar mede a combinação entre o avanço da água e o movimento do terreno em determinado local. Uma cidade pode enfrentar uma elevação acima da média global se o solo estiver afundando, se houver mudanças nas correntes oceânicas ou se atividades humanas alterarem o armazenamento de água subterrânea.

Jacarta, na Indonésia, é um exemplo citado no levantamento. Partes da cidade afundaram até 15 centímetros por ano na última década, principalmente por causa da retirada excessiva de água subterrânea. Quando o terreno desce e o oceano sobe, a distância entre a superfície e a água diminui duas vezes.

Esse processo aumenta alagamentos persistentes, acelera a erosão de praias e falésias e fortalece as marés de tempestade. Também eleva o lençol freático, o que dificulta o escoamento da água da chuva. Sistemas de abastecimento, redes de esgoto, hospitais, mercados e estradas ficam mais expostos e podem deixar comunidades isoladas.

O impacto chega primeiro às áreas mais baixas

Cerca de 770 milhões de pessoas, ou 10% da população mundial, vivem em locais considerados sob risco agudo. O critério usado pela ONU inclui áreas situadas a menos de cinco metros acima da linha de maré alta. Entre elas estão moradores de grandes cidades como Mumbai e Kolkata, na Índia, e Shenzhen e Guangzhou, na China.

O crescimento urbano amplia a exposição. Entre 2000 e 2018, a população mundial aumentou pouco mais de 23%. No mesmo período, o número de pessoas vivendo a até cinco quilômetros do litoral cresceu 28%. Mesmo sem uma elevação adicional do oceano, as perdas anuais provocadas por inundações nas 136 maiores cidades costeiras poderiam chegar a 52 bilhões de dólares em 2050, contra 6 bilhões em 2005.

Marés extremas podem ocorrer todo ano até 2100 e ameaçar cidades, manguezais e patrimônios costeiros
Foto: James Hancock /

Para reduzir o risco, algumas cidades construíram barreiras móveis, diques e muros. Veneza, na Itália, instalou o sistema MOSE, formado por comportas que podem ser levantadas durante marés altas. A estrutura foi acionada pela primeira vez em outubro de 2020 e utilizada outras 48 vezes nos dois anos seguintes. Outras regiões escolheram soluções como a restauração de manguezais e pântanos, o controle de construções em zonas vulneráveis e a transferência de moradores para áreas mais elevadas.

Manguezais e espécies perdem espaço para a água

A adaptação tem limites quando o ecossistema não encontra para onde avançar. O fenômeno é conhecido como compressão costeira: de um lado, o mar sobe; de outro, estradas, bairros, portos e outras estruturas bloqueiam a migração natural de manguezais, estuários, planícies de maré e pradarias marinhas.

Quase 28 milhões de hectares de áreas úmidas costeiras desapareceram desde 1970, segundo o relatório Global Wetland Outlook de 2025. A conversão para a agricultura é apontada como o principal fator de perda, mas a mudança do clima intensifica os efeitos de enchentes, secas, incêndios, tempestades e elevação do mar.

O problema ameaça espécies que só existem em ilhas ou em faixas litorâneas restritas. Mais de 20% das espécies de plantas conhecidas no planeta são exclusivas de ilhas. Modelagens indicam que uma elevação de um metro poderia submergir cerca de 6% da área de habitats insulares analisados e reduzir pela metade ou mais o território de mais de 11% das ilhas desses pontos de biodiversidade.

Em 2024, pesquisadores registraram nos Estados Unidos o primeiro caso conhecido de extinção local de uma planta atribuído à elevação do nível do mar. O cacto de Key Largo perdeu seu único grupo norte-americano depois que furacões, marés de tempestade, erosão e entrada de água salgada degradaram o ambiente. Os exemplares restantes foram retirados em 2021 para cultivo em estufas.

O que isso significa para a Amazônia costeira

Para leitores da Amazônia, o tema não se limita a mapas de países insulares ou grandes metrópoles asiáticas. A lógica descrita no relatório também ajuda a compreender a vulnerabilidade de comunidades, portos, áreas urbanizadas, manguezais e atividades agrícolas instaladas em terrenos baixos do litoral amazônico.

Na prática, uma elevação do mar pode favorecer a entrada de água salgada em áreas costeiras, pressionar sistemas de drenagem e reduzir a capacidade de ecossistemas que funcionam como proteção natural. Quando a ocupação humana impede a migração de manguezais para o interior, a mesma barreira que protege uma construção pode retirar espaço de reprodução e alimentação de várias espécies.

As consequências também podem atravessar fronteiras entre municípios e estados. A perda de estradas, redes de água, áreas produtivas e serviços públicos em uma zona costeira afeta o abastecimento e a circulação de pessoas em regiões mais amplas. Por isso, a adaptação precisa combinar obras, planejamento territorial, recuperação de ecossistemas e redução das emissões que aceleram o aquecimento.

O risco não é igual para todos

Países insulares em desenvolvimento estão entre os mais expostos. Muitos atóis do Pacífico têm elevação média de apenas um a dois metros acima do mar e pontos máximos entre três e cinco metros. Alguns estudos indicam que ilhas recifais podem crescer verticalmente quando ondas transportam sedimentos para sua superfície, mas isso não significa que continuem adequadas para moradia ou infraestrutura.

A elevação relativa do mar em partes do Pacífico também pode ficar entre 11% e 33% acima da média global em 2100 por causa da influência do derretimento da camada de gelo da Antártida. Kiribati perdeu duas pequenas ilhas desabitadas em 1999. Em 2014, pesquisadores relataram o desaparecimento de várias ilhas desabitadas das Ilhas Salomão.

O próximo passo da discussão internacional é transformar o reconhecimento do risco em financiamento, planejamento e proteção efetiva para comunidades e ecossistemas. A declaração prevista para setembro de 2026 deverá reforçar esse compromisso global.

Com informações de Carbon Brief.

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