
Alerta da UNICEF para a África reforça o debate sobre prevenção e proteção de comunidades tradicionais no Brasil.
Quando uma seca interrompe o transporte, uma chuva destrói uma estrada ou a falta de água afasta crianças da escola, o impacto climático deixa de ser apenas uma previsão meteorológica. Ele passa a ameaçar renda, alimentação, saúde e a continuidade de conhecimentos que dependem da vida comunitária. É nesse ponto que especialistas pedem atenção para quilombolas, ribeirinhos e povos indígenas diante do El Niño previsto para 2026.
O alerta ganhou dimensão internacional com uma estimativa da UNICEF de até US$ 173 milhões para ações de preparação e resposta em províncias e países prioritários da África Oriental e Austral. O cálculo aparece no relatório Protecting children from El Niño 2026, que relaciona o fenômeno a riscos para educação, nutrição, abastecimento de água e proteção infantil.
O custo mais alto pode aparecer fora dos mapas de emergência
O relatório não apresenta uma previsão financeira para o Brasil. A cifra de US$ 173 milhões se refere ao planejamento humanitário da UNICEF para a África Oriental e Austral, onde governos e organizações se preparam para possíveis efeitos sobre crianças e serviços públicos. A distinção é importante, porque o dado não pode ser usado como estimativa de prejuízo brasileiro.
Segundo a UNICEF, o El Niño de 2026 exige ações antecipadas para evitar que escolas, unidades de saúde e sistemas de abastecimento sejam atingidos quando o evento climático já estiver instalado. A estratégia inclui preparação para secas, inundações, deslocamentos populacionais, desnutrição e interrupções no calendário escolar.
Em Moçambique, informações do Instituto Nacional de Meteorologia indicam que o fenômeno poderá estar entre os mais severos registrados desde 1950. O Ministério da Educação e Cultura estima que 1,5 milhão de alunos possam ter a trajetória escolar afetada, caso os impactos sobre infraestrutura e acesso se confirmem.
Por que a cultura também entra na conta
No Brasil, a preocupação apresentada pela presidente do Instituto Reinventando Futuros, Liu Berman, está menos relacionada a uma cifra nacional e mais à capacidade de sobrevivência econômica e cultural de comunidades afastadas. O Censo 2022 do IBGE identificou mais de 7,6 mil comunidades quilombolas no país, distribuídas em diferentes contextos territoriais.
Em muitos desses locais, artesanato, cerâmica, pesca, turismo comunitário, agricultura e conhecimentos sobre o ambiente não são atividades separadas da vida cotidiana. Eles ajudam a gerar renda, preservar vínculos e transmitir histórias entre gerações. Quando uma estiagem reduz a produção, uma enchente isola a comunidade ou a escola deixa de funcionar, essas cadeias podem ser interrompidas ao mesmo tempo.
“Diante de um fenômeno climático dessa dimensão, a resposta não pode se limitar a mapear carências; precisamos olhar primeiro para as vocações e os ativos que cada comunidade já possui”, afirma Berman. Para ela, políticas de emergência precisam dialogar com economia solidária, economia criativa, turismo e desenvolvimento local, em vez de chegar apenas depois do desastre.

Muquém mostra como o território pode participar da solução
Um exemplo citado pela especialista é o Quilombo do Muquém, em União dos Palmares, Alagoas, onde a cerâmica e o artesanato têm papel na manutenção da cultura e da economia local. A experiência não representa, por si só, uma política climática comprovada nem permite medir a resistência da comunidade a um El Niño. Ela serve, porém, para ilustrar como atividades vinculadas ao território podem integrar estratégias de adaptação.
Investir em uma cooperativa de cerâmica, fortalecer o manejo sustentável da pesca ou organizar uma rota de ecoturismo pode criar renda e preservar práticas culturais. Mas essas ações só funcionam como proteção diante de eventos extremos se vierem acompanhadas de infraestrutura, acesso à água, transporte, conectividade, atendimento de saúde e escolas preparadas.
“Eu costumo dizer que o território é parte da construção da solução”, diz Berman. A proposta é que programas públicos reconheçam os recursos já existentes nas comunidades, em vez de impor modelos iguais a áreas com histórias, ecossistemas e necessidades distintas.
O que o alerta significa para a Amazônia
Na Amazônia, a distância dos centros urbanos aumenta o tempo de resposta quando rios baixam demais, estradas ficam intransitáveis ou unidades de atendimento precisam ser alcançadas por barco. Comunidades do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins podem enfrentar problemas diferentes entre si, porque os efeitos associados ao El Niño variam conforme a região, a estação e as condições locais.
O fenômeno costuma alterar padrões de chuva e temperatura em diversas partes do mundo, mas não produz o mesmo resultado em todos os lugares. Na Amazônia, períodos de menor precipitação podem pressionar rios, agricultura, pesca, geração de energia e transporte. Já episódios de chuva intensa em outras áreas podem provocar alagamentos e deslizamentos. Por isso, um alerta internacional não substitui previsões regionais nem planos específicos para cada comunidade.
Segundo o IBGE, o Censo 2022 registrou mais de 7,6 mil comunidades quilombolas no Brasil. Esse dado ajuda a dimensionar o desafio de formular políticas que alcancem territórios com diferentes graus de isolamento e distintas formas de organização econômica.
Prevenção precisa chegar antes do socorro
A principal limitação do debate é que ainda não existe, no material apresentado, uma estimativa brasileira equivalente à cifra divulgada pela UNICEF para a África. Também não é possível afirmar que cada perda cultural ou econômica será causada diretamente pelo El Niño. Os impactos dependem da intensidade do fenômeno, da exposição de cada localidade e da capacidade de prevenção dos governos.
O ponto comum entre o alerta internacional e a discussão brasileira é a necessidade de antecipar medidas. Mapear rotas de acesso, proteger fontes de água, manter escolas em funcionamento, apoiar a produção local e garantir comunicação durante emergências são providências mais eficazes quando planejadas antes da crise.
Para comunidades tradicionais, a agenda climática precisa combinar proteção imediata e autonomia de longo prazo. A preparação para o El Niño de 2026 deverá avançar com previsões atualizadas, planos locais e investimentos capazes de reduzir a dependência de respostas tardias.
Com informações de UNICEF.
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