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Após reunir 17 mil organizações em 150 países, Race to Zero troca promessas por entrega climática global

Após reunir 17 mil organizações em 150 países, Race to Zero troca promessas por entrega climática global
Foto: Divulgação

Campanha criada em 2020 será incorporada a uma estrutura internacional voltada a transformar metas de emissões em planos executáveis.

Para empresas, cidades e investidores que aderiram à Race to Zero, a próxima etapa não será apenas anunciar uma meta para 2050, mas provar como ela será cumprida. A campanha internacional será incorporada à nova estrutura da Agenda de Ação Climática Global, anunciada na COP30, para acelerar a execução de soluções e acompanhar resultados. A transição foi detalhada em 6 de agosto de 2026 pela Climate High-Level Champions.

Por que a Race to Zero está mudando de formato?

A campanha foi criada em 2020 para reunir organizações não estatais em torno de uma definição comum de neutralidade de emissões. Ao longo de cinco anos, ela deixou de ser apenas uma mobilização política e ajudou a estabelecer critérios para que compromissos climáticos fossem considerados confiáveis.

Agora, o cenário é diferente. Metas de redução de gases de efeito estufa passaram a fazer parte de estratégias empresariais, políticas públicas, normas técnicas e sistemas de divulgação. Com esse amadurecimento, o desafio central mudou: o foco saiu da adesão e passou para a implementação, a medição e a comprovação do impacto.

Quantas organizações participaram e quais resultados apareceram?

A Race to Zero mobilizou mais de 17 mil integrantes em 150 países. Esse grupo representava 60% das empresas do índice FTSE 100, 40% dos ativos financeiros globais e mais de 12% da população mundial, segundo o balanço divulgado pela campanha.

Os dados disponíveis indicam que parte dos participantes conseguiu reduzir emissões diretas. Entre os membros que reportaram informações ao CDP, 64% registraram queda nas emissões de Escopo 1 em comparação com seus anos-base. No Escopo 3, que reúne emissões da cadeia de valor e costuma ser mais difícil de cortar, 56% das grandes empresas relataram redução. No Escopo 2, ligado principalmente à energia adquirida, o índice foi de 33% entre grandes companhias.

Esses percentuais não significam que todas as organizações tenham cumprido suas metas, nem que a queda tenha ocorrido no mesmo ritmo ou pela mesma razão. Eles mostram, porém, que a coalizão passou a produzir indicadores de implementação, além de declarações de intenção.

O que mudou na definição de net zero desde 2020?

Net zero não significa eliminar toda emissão de gases de efeito estufa. O conceito prevê que a maior parte das emissões seja reduzida e que apenas uma parcela residual, considerada tecnicamente difícil de evitar, seja compensada por uma quantidade equivalente de remoções.

A meta de longo prazo está associada ao Acordo de Paris e à necessidade de alcançar emissões líquidas zero até 2050 para manter o limite de 1,5°C ao alcance. Quando a Race to Zero começou, o principal esforço era convencer milhares de organizações a adotar esse objetivo com critérios mínimos comuns.

Segundo a Climate High-Level Champions, a campanha contribuiu para transformar práticas voluntárias, como metas baseadas na ciência, planos de transição e relatórios transparentes, em referências incorporadas por normas internacionais e estruturas de divulgação.

Qual será o papel do novo Net Zero Activation Group?

Na nova arquitetura, quase 500 iniciativas existentes foram distribuídas em grupos de ativação ligados a seis áreas: energia e transporte; florestas e biodiversidade; agricultura e sistemas alimentares; cidades, infraestrutura e água; desenvolvimento humano e social; além de financiamento, tecnologia e capacitação.

A Race to Zero será levada para o Net Zero Activation Group, que reunirá seus parceiros e outras iniciativas relacionadas à neutralidade de emissões. A função do grupo será coordenar soluções, acompanhar resultados, mostrar o que funciona e acelerar a execução de planos com prazos definidos.

Na prática, a mudança tenta evitar que compromissos climáticos permaneçam isolados em páginas institucionais. Empresas e organizações participantes deverão avançar na adoção de padrões para definir metas e elaborar planos de transição. Entre as referências citadas estão o padrão corporativo de net zero da Science Based Targets initiative e a futura norma ISO 14060, voltada ao planejamento de transição de organizações.

O [relatório sobre os resultados da Race to Zero](https://www.climatechampions.net/media/urmfekf1/race-to-zero-2024-progress-report.pdf) apresenta o balanço da mobilização e os dados de redução de emissões associados aos participantes.

O crescimento das metas foi suficiente para garantir ação?

Não. O aumento das metas mostra que a neutralidade de emissões ganhou espaço, mas não resolve sozinho o problema da execução. O Net Zero Tracker identificou que pelo menos 1.935 das 4.083 maiores empresas de capital aberto acompanhadas possuíam metas de neutralidade até setembro de 2025. O número foi 250% maior que o registrado em dezembro de 2020.

Ao mesmo tempo, a campanha reconhece que mudanças políticas e diferenças entre setores e regiões afetaram a velocidade da ação climática. Algumas coalizões e compromissos enfrentaram pressão em um ambiente internacional mais instável. Por isso, a nova fase aposta em padrões verificáveis, transparência e acompanhamento dos resultados, em vez de depender apenas da adesão voluntária.

O que isso representa para a Amazônia?

A mudança interessa diretamente a empresas, governos locais, instituições financeiras e organizações da sociedade civil que atuam nos estados da Amazônia Legal. Metas climáticas relacionadas a energia, transportes, florestas, agricultura, água e infraestrutura precisam ser traduzidas em planos que considerem as características econômicas e ambientais da região.

Para organizações amazônicas, a adoção de critérios internacionais pode facilitar a comparação de resultados e aumentar a exigência sobre informações de emissões. Também pode influenciar decisões de financiamento e contratos de cadeias produtivas, especialmente quando compradores e investidores passarem a cobrar metas verificáveis de fornecedores.

Isso não elimina desafios como o custo da transição, a falta de capacidade técnica e a necessidade de ampliar acesso a tecnologia e recursos. A própria Agenda de Ação Climática Global colocou financiamento, tecnologia e capacitação entre os eixos que devem sustentar os demais setores.

Quais são os próximos passos?

Em 2026, a Science Based Targets initiative atualizou seu padrão corporativo de net zero com maior ênfase na implementação. A Organização Internacional de Normalização também desenvolve a ISO 14060, em um processo que envolve entidades de normalização de mais de 170 países.

A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima iniciou ainda um projeto-piloto de estrutura para reconhecer iniciativas de neutralidade e convidou antigos parceiros da Race to Zero a participar. Os resultados estão previstos para a COP31. Até lá, a nova fase será medida menos pelo número de promessas e mais pela capacidade de demonstrar redução de emissões, planos executáveis e resultados comparáveis.

Com informações de Climate High-Level Champions.

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