Corujas-das-torres chegaram às Américas voando sobre o Atlântico e se instalaram primeiro no Caribe, onde viveram corujas de um metro de altura

Corujas-das-torres chegaram às Américas voando sobre o Atlântico e se instalaram primeiro no Caribe, onde viveram corujas de um metro de altura
Coruja-das-torres americana (Tyto furcata), espécie que também vive em todo o Brasil. Foto: Charles J. Sharp, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

A coruja-das-torres, aquela de rosto branco em forma de coração que costuma morar em forros de igrejas, celeiros e prédios abandonados, está em todos os continentes, menos na Antártida. No Brasil, é chamada também de suindara, rasga-mortalha ou coruja-de-igreja. Um estudo genético propõe uma explicação surpreendente para a chegada dela às Américas: os ancestrais da espécie atravessaram o Oceano Atlântico voando e se instalaram primeiro nas ilhas do Caribe, de onde se espalharam pelos dois continentes.

Nem coruja verdadeira

As corujas-das-torres pertencem à família Tytonidae, diferente da família Strigidae, que reúne a maioria das corujas, como a corujinha-do-mato e a coruja-buraqueira. São corujas, claro, mas com uma história evolutiva própria. Hoje vivem em ambientes muito variados, de campos tropicais e lavouras a bosques temperados, e caçam principalmente pequenos roedores.

As rotas que não faziam sentido

Durante décadas, os cientistas consideraram duas explicações para a presença da coruja nas Américas. Ela teria vindo da Ásia pela Beríngia, a antiga ponte de terra entre a Sibéria e o Alasca, ou por uma rota pelo norte do Atlântico, passando por Islândia, Groenlândia e Canadá.

As duas hipóteses tinham o mesmo problema: corujas-das-torres não gostam de neve. Elas caçam ouvindo e localizando pequenos mamíferos em áreas abertas, e a neve funda atrapalha muito. O ornitólogo David Steadman, do Museu de História Natural da Flórida, resumiu a dúvida: a espécie é tropical e temperada, não aguenta latitudes altas, e por isso as rotas pelo norte nunca pareceram realistas.

DNA de museu

Para investigar, o pesquisador Min Zhao e colegas analisaram o DNA de dezenas de corujas guardadas em 11 museus. Alguns exemplares eram de 1876. A equipe estudou o DNA do núcleo das células e o das mitocôndrias, as pequenas estruturas que fornecem energia, e reconstruiu a árvore genealógica do grupo.

O resultado apontou para o Caribe. As ilhas guardam alguns dos ramos mais antigos da linhagem americana, e as corujas de lá são geneticamente muito mais diferentes entre si do que as do continente. Zhao explicou que, olhando a distribuição atual, seria natural imaginar que as corujas do Caribe vieram do continente, mas a genética mostrou o contrário: as linhagens mais antigas estão nas ilhas.

A travessia

Segundo a análise, as corujas-das-torres da Eurásia e do Hemisfério Ocidental se separaram há cerca de 5 milhões de anos. A travessia do oceano provavelmente aconteceu depois, durante ou pouco antes das eras do gelo do Pleistoceno. A linhagem americana teria surgido no Caribe há menos de 2 milhões de anos.

Uma coruja consegue cruzar um oceano? Em 1722, o naturalista inglês Mark Catesby relatou ter visto uma coruja voando sobre seu navio, no meio do caminho entre a África e a América, procurando onde pousar antes de sumir sobre o mar. O relato não prova a rota antiga, mas mostra que a ave é capaz de voos longos e inesperados. O estudo também encontrou sinais de que corujas-das-torres chegaram duas vezes, de forma independente, às distantes Ilhas Galápagos.

As corujas gigantes do Caribe

O Caribe não foi só uma escala. As ilhas abrigaram uma variedade extraordinária de corujas, incluindo gigantes. A Tyto pollens, das Bahamas, tinha cerca de um metro de altura, muito maior que as corujas-das-torres atuais. Pesquisadores suspeitam que ela tenha inspirado o chickcharney, criatura do folclore bahamense, uma ave enorme que traria sorte a quem a tratasse bem e azar a quem a maltratasse. Outra espécie gigante, a Tyto ostologa, viveu na ilha de Hispaniola.

Esse mundo desapareceu. Pelo menos seis espécies de corujas-das-torres que viviam no Caribe estão extintas, segundo o estudo. Muitos dos mamíferos nativos que elas caçavam também sumiram depois que os humanos começaram a ocupar as ilhas, há milhares de anos, com caça, destruição de habitat e espécies invasoras.

A coruja que mora perto da gente

No Brasil, a suindara é uma das corujas mais comuns e uma aliada de quem vive no campo e na cidade. Um único casal pode comer milhares de roedores por ano, o que ajuda a controlar ratos em lavouras e áreas urbanas. Apesar dos apelidos assustadores, como rasga-mortalha, inspirados no chiado que ela emite à noite, a ave é inofensiva para as pessoas e protegida por lei. A nova pesquisa acrescenta mais um motivo de admiração: a coruja do forro da igreja descende de viajantes que cruzaram um oceano.

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