Em Madagascar, Malawi e Moçambique, 77% a 90% receberam alerta de ciclone, mas menos da metade deixou suas casas

Em Madagascar, Malawi e Moçambique, 77% a 90% receberam alerta de ciclone, mas menos da metade deixou suas casas
Foto: acervo

Estudo da Universidade de Bristol aponta seis prioridades para que alertas climáticos na África austral cheguem a tempo e levem a ações reais de proteção.

Receber um alerta de ciclone não significa sair de casa. Em levantamentos domiciliares feitos em Madagascar, Malawi e Moçambique, a maioria das pessoas foi avisada sobre a aproximação de ciclones tropicais: 90% em Madagascar, 80% no Malawi e 77% em Moçambique. Ainda assim, menos da metade evacuou. A constatação está num novo estudo de pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, que investigou por que os avisos nem sempre chegam a tempo ou levam à proteção.

Um continente que paga caro pelos extremos

Segundo a Universidade de Bristol, eventos climáticos afetaram pelo menos 13 milhões de pessoas na África em 2025. O número consta de relatório da Organização Meteorológica Mundial sobre extremos climáticos no continente.

Na última década, populações africanas foram atingidas de forma desproporcional. O ciclone tropical Freddy, em fevereiro de 2023, provocou inundações extensas e deixou mais de 1.500 mortos. Em 2015 e 2016, uma seca na África austral causou perdas generalizadas de lavouras e insegurança alimentar para 40 milhões de pessoas.

Por que o aviso não vira ação

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Instituto Cabot para o Meio Ambiente, da Universidade de Bristol, em parceria com acadêmicos do Reino Unido, da Europa e do sul da África. A equipe analisou os motivos pelos quais os alertas falham em levar as pessoas a se proteger.

Os autores identificaram três barreiras principais: o aviso não chega com antecedência suficiente, há ceticismo quanto ao conteúdo e há imobilidade involuntária, ou seja, falta de recursos para evacuar. Em outras palavras, a previsão pode estar correta e, mesmo assim, não salvar ninguém.

“Africa is hugely vulnerable to the devastating impacts of severe weather events. Early warning systems require more than accurate forecasts. We must ensure that warnings reach everyone, communicate risks clearly and support people to take appropriate protective action. This includes being prepared for unprecedented events of the future. Achieving this requires collaboration between governments, scientists, emergency services, communication providers and local communities.”

A fala é de Lizzie Kendon, professora de Ciência do Clima no Instituto Cabot e autora principal do estudo.

As seis prioridades propostas

Para enfrentar a desconfiança nas previsões e aproximar as comunidades atingidas, a equipe definiu seis ações prioritárias, com o objetivo de que as populações assumam a apropriação local da informação climática e das respostas:

  • entender os riscos de eventos sem precedentes;
  • testar sistemas de alerta em condições extremas (stress-testing);
  • equipar os serviços hidrometeorológicos nacionais;
  • promover a participação comunitária na construção de resiliência, com sistemas voltados às vulnerabilidades;
  • integrar conhecimento local e científico;
  • fortalecer a coordenação entre agências.

Preparar-se para o que nunca foi registrado

Kendon contextualiza o trabalho com a iniciativa Alertas Precoces para Todos (Early Warnings for All, EW4All), das Nações Unidas, cujo prazo é 2027. A meta é que todas as pessoas no mundo estejam protegidas por sistemas de alerta para perigos naturais.

“As the United Nations’ Early Warnings for All (EW4All) initiative approaches its 2027 deadline, which aims to ensure everyone worldwide is protected by early warning systems for natural hazards, our recommendations support a shift, from the provision of warnings to enabling action, essential for EWS to save lives at scale.”

A pesquisadora também alerta que a mudança climática trará extremos fora do alcance do registro histórico, e provavelmente além da capacidade dos métodos locais e indígenas de adaptação. Por isso, defende que a ação antecipada não se baseie apenas em experiências passadas.

O que isso diz à Amazônia

O estudo trata da África austral, e os dados não se aplicam diretamente à região amazônica. Mas as barreiras descritas, como aviso tardio, desconfiança e falta de meios para sair, também são discutidas em contextos de cheias e secas severas em comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazônia, onde distâncias e dependência de barcos podem limitar a mobilidade. A recomendação de combinar saber local e ciência é um ponto de comparação para a região.

Financiamento e publicação

O trabalho foi financiado pelo programa REPRESA, apoiado pelo Foreign, Commonwealth and Development Office (FCDO), do Reino Unido, e pelo International Development Research Council (IDRC), do Canadá, no âmbito do programa CLARE.

O artigo, intitulado “Opportunities for increasing resilience to changing severe weather in southern Africa: ‘Early Action and Enhanced Adaptive Capacity for All’”, tem Elizabeth J. Kendon como primeira autora e saiu no Bulletin of the American Meteorological Society. Com o prazo da EW4All em 2027, as recomendações chegam a tempo de orientar a agenda de governos e agências até lá.

Com informações da Universidade de Bristol.

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