
Pesquisa publicada na revista Science indica que a intensificação do fenômeno acelerou nas últimas quatro décadas.
O próximo El Niño pode levar ao limite a capacidade de comunidades e ecossistemas de lidar com calor, secas, enchentes e perdas na pesca. Um estudo publicado em 27 de agosto de 2026 na revista Science indica que os episódios do fenômeno estão 36% mais intensos do que eram antes do início da era industrial, em meados do século 19. A pesquisa também identificou uma alta de 16% somente nos últimos 40 anos.
O resultado chama atenção porque um El Niño considerado forte se formou cerca de dois meses antes da publicação do estudo e tem previsão de se tornar o maior já registrado nos próximos meses. O fenômeno é um aquecimento temporário de áreas do Pacífico Equatorial, mas seus efeitos se espalham pelo planeta ao alterar padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica.
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Para chegar à conclusão, os pesquisadores analisaram registros climáticos que remontam a aproximadamente nove séculos. A comparação permitiu observar como a intensidade dos El Niños variou antes e depois da expansão do uso de combustíveis fósseis.
A autora principal, Julia Cole, cientista do paleoclima na Universidade de Michigan, afirmou que a equipe comparou os dados históricos com o registro do aumento da temperatura média global. Segundo ela, a força dos episódios acompanha de perto a elevação do aquecimento associada a causas humanas, como a queima de carvão, petróleo e gás.
“Isso é importante porque El Niños fortes têm impactos muito maiores sobre os riscos climáticos e os extremos em todo o mundo”, disse Julia Cole.
Segundo a Universidade de Michigan, os El Niños ficaram 36% mais intensos desde o período anterior à industrialização e tiveram aumento de 16% entre os últimos 40 anos analisados.
Por que alguns episódios produzem danos tão amplos
O El Niño não é uma tempestade isolada nem um evento restrito ao oceano. O aquecimento anormal do Pacífico Equatorial modifica a posição e a intensidade de correntes de ar que distribuem calor e umidade pela atmosfera. É essa reorganização que pode produzir consequências diferentes em regiões distantes entre si.
Em determinados pontos do planeta, o fenômeno favorece ondas de calor e estiagens prolongadas. Em outros, aumenta a possibilidade de chuvas intensas e inundações. O mesmo episódio pode provocar queda na produção de alimentos, pressionar o abastecimento de água, elevar o risco de incêndios e causar prejuízos à atividade pesqueira.
A dimensão econômica também é relevante. Episódios intensos de El Niño podem gerar danos avaliados em trilhões de dólares, somando perdas em infraestrutura, agricultura, energia, transporte, saúde e serviços públicos. Quando o fenômeno ocorre sobre um planeta já mais quente, os extremos partem de uma base de temperatura mais elevada.
O que a pesquisa acrescenta ao debate climático
O estudo não trata o El Niño como uma invenção das mudanças climáticas. O fenômeno é natural e aparece periodicamente como parte da variabilidade do sistema climático. A questão examinada pelos cientistas é se o aquecimento provocado pela atividade humana está ampliando sua intensidade.
A associação encontrada entre o avanço das temperaturas globais e o fortalecimento dos episódios oferece uma resposta favorável à hipótese. Ainda assim, a importância do resultado está também na escala temporal: ao reunir evidências de 900 anos, os pesquisadores conseguem comparar o comportamento recente com um período muito mais longo do que as séries instrumentais modernas.
Essa perspectiva ajuda a separar duas dimensões que costumam ser confundidas. Uma é a ocorrência natural do El Niño. Outra é o ambiente climático em que ele acontece. Com o planeta aquecido, um episódio de mesma intensidade pode produzir impactos mais severos, e um episódio mais forte pode ampliar ainda mais a exposição das populações.
O reflexo esperado para a Amazônia
Na Amazônia, a notícia interessa menos pelo nome do fenômeno do que pelo efeito sobre a previsibilidade do território. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins dependem de ciclos de chuva e de rios que influenciam o transporte, a produção rural, o abastecimento, a pesca e a prevenção de queimadas.
Uma alteração no padrão climático do Pacífico pode repercutir no planejamento de municípios, produtores, comunidades ribeirinhas e órgãos de defesa civil. A intensidade de cada impacto, no entanto, varia conforme a localização, a estação do ano e a combinação com outros fatores atmosféricos. Por isso, o resultado da pesquisa não permite prever sozinho como cada cidade amazônica será afetada.
O dado mais importante para a região é o alerta sobre a combinação entre variabilidade natural e aquecimento global. Monitorar o Pacífico continua necessário, mas também se torna indispensável acompanhar a umidade do solo, o nível dos rios, a temperatura e a ocorrência de secas ou chuvas extremas em escala local.
O próximo episódio será o teste da hipótese
O El Niño que se formou aproximadamente dois meses antes da divulgação do estudo deverá ganhar força nos meses seguintes, de acordo com a previsão mencionada na pesquisa. A expectativa de que ele possa ser o maior já registrado coloca o fenômeno atual no centro da observação científica.
Esse episódio não será, sozinho, uma prova definitiva da tendência descrita pelos pesquisadores. A confirmação depende da continuidade das medições e da comparação com novos eventos. O acompanhamento dos próximos meses deverá mostrar como a intensidade oceânica se traduzirá em calor, chuva, seca e impactos nas diferentes regiões do mundo.
A pesquisa foi divulgada em 28 de agosto de 2026, um dia depois da publicação do artigo científico, e os próximos meses devem concentrar novas análises sobre o comportamento do fenômeno e seus efeitos climáticos.
Com informações da Universidade de Michigan e da revista Science.
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