
Resistência dos Estados Unidos e divergências sobre financiamento reduzem a chance de um pacto internacional nesta conferência.
Para milhões de pessoas que dependem de água regular para produzir alimentos, manter rebanhos ou abastecer cidades, a COP17 da Desertificação pode terminar sem o instrumento internacional que organizaria respostas conjuntas às secas. A conferência da Convenção da ONU sobre Desertificação, realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, tinha o desafio de transformar um consenso político anterior em regras de cooperação, mas entrou em sua reta final bloqueada pela oposição dos Estados Unidos.
O impasse não é apenas diplomático. Ele define se os países terão uma referência comum para prevenir, monitorar e enfrentar períodos prolongados de falta de chuva ou se cada governo continuará tratando o problema quase exclusivamente dentro de suas próprias fronteiras. A posição americana ganhou apoio de Argentina, Chile e Paraguai, enquanto a União Europeia demonstrou resistência principalmente ao componente financeiro da proposta.
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A expectativa inicial era que a COP17 destravasse as questões deixadas em aberto pela COP16, realizada em Riad, na Arábia Saudita, dois anos atrás. Naquela reunião, os países concordaram sobre a necessidade de um instrumento internacional para a gestão de secas, mas não chegaram a uma definição sobre o formato, o funcionamento e o grau de compromisso do mecanismo.
Esse intervalo entre reconhecer o problema e estabelecer uma resposta é o centro da disputa atual. Um regime global poderia criar parâmetros para cooperação, planejamento e apoio a países vulneráveis. A negociação, porém, avançou para a fase final sem superar a divergência sobre quem teria obrigações, como os recursos seriam mobilizados e até que ponto as decisões seriam vinculantes.
Segundo a Convenção da ONU sobre Desertificação, as negociações da COP17 em Ulaanbaatar, em 27 de agosto de 2026, estavam concentradas na possibilidade de preservar o debate internacional sobre secas, mesmo sem um acordo definitivo.

Por que Washington rejeita o mecanismo
Os negociadores dos Estados Unidos sustentam que as secas são fenômenos de natureza nacional e, por isso, não exigiriam um instrumento internacional específico de ação e resposta. Essa interpretação reduz o espaço para uma governança compartilhada e contrasta com a avaliação dos países que enfrentam impactos que atravessam fronteiras, cadeias de abastecimento e mercados.
A resistência americana também elevou o custo de uma solução intermediária. O Brasil passou a defender o adiamento do tema para a COP18, prevista para ocorrer no Egito em 2028, como forma de impedir que a negociação fosse abandonada. Mesmo essa saída encontrou oposição: os representantes dos Estados Unidos queriam retirar completamente a questão dos documentos finais da conferência.
“Estamos em um momento em que o túnel está escuro, mas acho que sempre haverá uma luz no fim dele. Temos esperança e estamos trabalhando muito para isso”, afirmou Andrea Meza Murillo, secretária executiva adjunta da UNCCD.
Na avaliação de Andrea, a maioria dos países não poderia ignorar que a seca é um desafio comum. A declaração expõe uma contradição do processo: enquanto os efeitos são sentidos localmente, suas causas e consequências econômicas podem se espalhar por regiões inteiras, pressionando preços, migrações, produção agrícola e segurança hídrica.
O custo político de um acordo vinculante
O representante do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Alexandre Pires, adotou uma leitura mais cautelosa. Para ele, o ambiente geopolítico atual dificulta a criação de um instrumento com força obrigatória. A diplomacia brasileira, portanto, trabalha com uma prioridade defensiva: evitar que a COP17 faça os países retrocederem em relação ao que foi construído em Riad.

“Há um contexto geopolítico que está alterando as decisões do multilateralismo de modo geral. Eu tenho muita dúvida se nós vamos conseguir construir um instrumento vinculante”, disse Pires. “A diplomacia do Brasil segue com o cuidado de não perder aquilo em que já avançamos na COP16. O que estamos buscando é não retroceder ao que já foi decidido pelas partes”, completou.
O ponto financeiro é outro obstáculo. Conforme informações da Agência Brasil sobre a negociação na COP17, a União Europeia se opõe especialmente ao apoio financeiro solicitado por países pobres afetados por secas. Sem recursos, um eventual regime internacional corre o risco de estabelecer compromissos difíceis de executar justamente onde a capacidade de resposta é menor.
O que o impasse representa para a Amazônia
Para a Amazônia brasileira, a disputa tem uma consequência prática: a região pode continuar lidando com eventos de seca por meio de respostas fragmentadas entre União, estados e municípios. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins têm realidades diferentes, mas compartilham vulnerabilidades ligadas ao transporte fluvial, ao abastecimento, à produção rural e à pressão sobre os ecossistemas.
Um acordo internacional não resolveria sozinho esses problemas. Ainda seriam necessários investimentos locais, sistemas de monitoramento, planejamento de bacias hidrográficas e políticas específicas para comunidades ribeirinhas, agricultores e cidades isoladas. Porém, uma estrutura multilateral poderia facilitar a troca de dados, a cooperação técnica e o acesso a financiamento para prevenção, em vez de concentrar esforços apenas depois que a emergência se instala.
A ausência de um pacto também mantém uma lacuna entre a escala do fenômeno e a escala da resposta. Uma comunidade pode enfrentar a interrupção do transporte por semanas, enquanto governos discutem responsabilidades administrativas e fontes de recursos. Quando o acordo internacional não avança, a desigualdade entre países e regiões tende a pesar mais sobre quem tem menos capacidade de antecipar a crise.
As dúvidas que ficam para 2028
O adiamento para a COP18 preservaria formalmente o assunto, mas não resolveria as divergências. Até lá, permanecerão em disputa o caráter obrigatório do instrumento, a responsabilidade financeira dos países mais ricos e a definição de mecanismos capazes de atender situações muito diferentes, da agricultura em áreas semiáridas às secas que afetam rios e comunidades na Amazônia.
A COP17 ainda poderia registrar uma fórmula diplomática para manter o tema nos textos finais, mas a expectativa de aprovação do regime global havia caído drasticamente um dia antes do encerramento. O próximo passo dependerá do resultado das negociações em Ulaanbaatar e da preparação do debate que poderá ser retomado no Egito, em 2028.
Com informações de ClimaInfo.
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