
Levantamento aponta vulnerabilidade de cerca de 4.500 cidades a inundações, enxurradas, alagamentos e deslizamentos.
Cerca de 4.500 municípios brasileiros apresentam vulnerabilidade média, alta ou muito alta a desastres geo-hidrológicos, segundo levantamento do Observatório do Clima com base em dados do AdaptaBrasil, plataforma do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O número representa mais de 80% das cidades do país e inclui riscos de inundações, enxurradas, alagamentos e deslizamentos de terra analisados na última década.
O alerta ganha força nas capitais. Salvador aparece com a maior soma dos riscos de inundações e deslizamentos, seguida por Belém, Manaus e Macapá. As três capitais amazônicas estão entre as cidades brasileiras mais expostas, em um cenário no qual eventos extremos tendem a se intensificar nas próximas décadas.
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A análise mostra que 68% dos municípios brasileiros, o equivalente a 3.769 cidades, possuem risco médio, alto ou muito alto de sofrer danos causados por inundações, enxurradas e alagamentos. Em 1.513 municípios, ou 27% do total nacional, o risco é classificado como alto ou muito alto.
O cenário também é grave quando o foco são os deslizamentos de terra. Ao todo, 2.930 cidades, ou 53% dos municípios brasileiros, têm risco médio, alto ou muito alto. Em 1.041 delas, cerca de 19% do total, o risco chega às categorias alta ou muito alta.
Segundo o Observatório do Clima, 3.769 municípios brasileiros apresentavam risco médio, alto ou muito alto de inundações, enxurradas e alagamentos na base do AdaptaBrasil analisada em agosto de 2026.
Entenda o caso
O AdaptaBrasil combina dois fatores para calcular a vulnerabilidade de cada município: a sensibilidade da cidade aos eventos climáticos extremos e sua capacidade de adaptação. O resultado não mede apenas a ameaça natural, mas também as condições sociais, econômicas e urbanas que determinam quem consegue se proteger e se recuperar.
Por isso, cidades com áreas sujeitas a chuvas intensas podem apresentar impactos muito diferentes. Renda, saneamento, drenagem, moradia, transporte, regularização fundiária e acesso a serviços públicos influenciam diretamente a exposição da população.
Amazônia concentra riscos de inundações
Os riscos não se distribuem igualmente pelo território. As inundações aparecem com maior intensidade na Amazônia, nas grandes bacias hidrográficas e em áreas urbanas. A combinação entre rios, chuvas extremas, ocupação desordenada e infraestrutura insuficiente aumenta a pressão sobre cidades dos estados do Pará, Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso.

Belém, Manaus e Macapá se destacam entre as capitais com maior soma de riscos de inundações e deslizamentos. A vulnerabilidade amazônica também envolve comunidades ribeirinhas, bairros periféricos e áreas de expansão urbana que dependem de sistemas de alerta, transporte adequado e serviços públicos capazes de funcionar durante cheias e temporais.
Já os deslizamentos ameaçam principalmente as serras do Sudeste e do Sul, além de partes do litoral nordestino. Entre as dez capitais com maior soma de riscos estão cinco cidades do Nordeste: Recife, Maceió, João Pessoa, Aracaju e Salvador.
Desigualdade aumenta os impactos
Para Henrique Frota, diretor executivo do Instituto Pólis, a ameaça natural é apenas uma parte do problema. “Famílias de menor renda tendem a ocupar áreas mais expostas e dispõem de menos recursos para enfrentar eventos extremos”, afirmou.
O especialista citou as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Embora tenham afetado diferentes classes sociais, famílias de maior renda tiveram melhores condições para encontrar abrigo, reconstruir imóveis e retomar a vida após a emergência.
“No pós-desastre, as questões socioeconômicas voltam a ser centrais”, disse Frota. Para ele, uma política de adaptação não pode simplesmente reconstruir as cidades da mesma maneira. “Uma adaptação séria é preventiva e não deve reproduzir desigualdades nem infraestruturas que já eram vulneráveis”, declarou.
O geógrafo e pesquisador Diosmar Santana Filho, da Associação de Pesquisa Iyaleta, também relaciona a vulnerabilidade climática à desigualdade urbana. “É um erro analisar as mudanças climáticas no Brasil sem considerar as diferenças socioeconômicas, pois as cidades são estruturalmente desiguais”, afirmou.
Prevenção exige obras e planejamento
O levantamento aponta que a resposta aos desastres depende de investimentos em drenagem, contenção de encostas, habitação segura, saneamento, transporte e recuperação de bacias hidrográficas. Também exige equipes técnicas nas prefeituras para elaborar projetos e integrar políticas de urbanismo, meio ambiente, assistência social e Defesa Civil.
Na primeira etapa do Novo PAC, foram destinados R$ 5,3 bilhões ao programa Periferia Viva, R$ 4,8 bilhões para drenagem urbana e R$ 1,67 bilhão para contenção de encostas, conforme dados reunidos pelo Observatório do Clima. Frota, porém, considera os recursos insuficientes diante da demanda nacional.

“Obras de drenagem e de prevenção de deslizamentos são muito caras. Grande parte dos municípios depende de repasses federais para executá-las”, afirmou. O problema, segundo ele, não é apenas financeiro. Muitas prefeituras também não têm capacidade técnica para planejar e executar obras de adaptação.
Os planos diretores municipais podem impedir a ocupação de áreas de risco, orientar o crescimento urbano e ampliar a oferta de moradias seguras. Para Diosmar Filho, pessoas vivendo em áreas sujeitas a desastres também revelam a falta de terra acessível e adequada dentro das cidades.
Riscos devem crescer nas próximas décadas
As projeções do AdaptaBrasil indicam aumento dos riscos climáticos nas próximas décadas, mesmo em cenários considerados mais favoráveis para o clima. Em várias capitais, a diferença entre as projeções otimista e pessimista é pequena, o que reforça a necessidade de acelerar medidas de adaptação.
“Nenhum estado ou município brasileiro possui infraestrutura adequada para enfrentar a crise climática”, afirmou Diosmar Filho. Para ele, adaptação não deve ser tratada apenas como resposta emergencial, mas como parte da política de desenvolvimento e da manutenção dos serviços públicos.
“Num país cada vez mais exposto aos extremos, ela também passa a ser uma condição para manter as cidades funcionando e proteger a vida de quem mora nelas”, disse o pesquisador. A avaliação é que municípios, estados e União precisam avançar ao mesmo tempo em redução de emissões, prevenção e preparação para os desastres.
Os próximos passos dependem da transformação dos dados do AdaptaBrasil em planos diretores, obras preventivas, sistemas de alerta e investimentos públicos permanentes nas cidades mais expostas.
Perguntas frequentes
Quantos municípios brasileiros são vulneráveis a desastres climáticos?
Cerca de 4.500 municípios, mais de 80% do total do país, têm vulnerabilidade média, alta ou muito alta a desastres geo-hidrológicos.
Quais capitais apresentam maior risco?
Salvador lidera a soma dos riscos de inundações e deslizamentos. Belém, Manaus e Macapá aparecem na sequência entre as capitais mais expostas.
O que aumenta a vulnerabilidade das cidades?
Além da ameaça climática, pesam fatores como baixa renda, ocupação de áreas de risco, falta de saneamento, drenagem insuficiente, moradia inadequada e pouca capacidade de resposta do poder público.
Com informações de Observatório do Clima.
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