
Estudo da ActionAid com 65 nações vulneráveis mostra como pagar credores reduz a capacidade de reagir a enchentes, secas e ondas de calor.
Quando uma enchente destrói casas, estradas e plantações, o governo de um país pobre precisa reconstruir e, muitas vezes, recorre a novos empréstimos. Esse é o ponto de partida de um ciclo que o estudo “Dívida agrava crise climática: Como o Financiamento Flui”, da ActionAid, descreve em 65 nações entre as mais vulneráveis ao clima: elas gastam quase 25 vezes mais com dívida do que com ações climáticas.
O levantamento analisou receitas públicas, pagamentos de dívidas, orçamentos nacionais e planos climáticos desses países. A conclusão da organização internacional é que dívida e clima estão presos a um ciclo vicioso, mas que ele pode ser rompido.
Como o ciclo se retroalimenta
O relatório descreve o mecanismo em etapas. Os desastres climáticos forçam os países a contrair novos empréstimos para se recuperar. Depois, o pagamento das dívidas e as medidas de austeridade comprimem os investimentos em resposta a emergências, resiliência, serviços públicos essenciais e transição justa.
Há ainda um terceiro elo. Para obter as divisas exigidas pelos credores, os governos enfrentam pressão para ampliar a extração de combustíveis fósseis e a agricultura industrial. Isso impulsiona emissões, danos ecológicos e, em consequência, ainda mais dívida.
“Por tempo demais, as crises da dívida e do clima foram tratadas separadamente. Esta pesquisa revela como elas estão profundamente interligadas e quantifica o custo devastador envolvido”, afirma Arthur Larok, secretário-geral da ActionAid Internacional.
O que o cancelamento poderia liberar
Segundo a ActionAid, o cancelamento da dívida desses países poderia liberar recursos para financiar seis vezes seus planos climáticos nacionais básicos e incondicionais. Outra comparação do estudo é que o valor cobriria duas vezes, somados, os gastos com clima, saúde, educação e proteção social.
O relatório traz também um caso extremo. Em 2026, o serviço da dívida de um dos países analisados equivale a mais de 600 vezes o valor previsto no orçamento nacional para ações climáticas e supera 96% das receitas governamentais. Segundo o estudo, esse nível de endividamento adia investimentos em agroecologia, solução liderada pelas próprias populações que pode fortalecer segurança alimentar, meios de vida e resiliência.
Apoio que vira endividamento
Um dado do estudo contradiz a ideia de ajuda solidária: dois terços do que os países ricos classificam como financiamento climático chegam na forma de empréstimos, e não de doações. Grande parte deles tem juros comerciais elevados.
Na avaliação da ActionAid, isso cria uma ilusão de apoio, ao mesmo tempo que empurra os receptores para um endividamento ainda maior.
“A dívida representa um golpe triplo para o clima: impulsiona a expansão dos combustíveis fósseis e da agricultura industrial, bloqueia ações climáticas vitais e deixa as comunidades perigosamente expostas quando ocorrem desastres. Esta é uma relação tóxica. Os países contraem empréstimos para reconstruir, a austeridade enfraquece sua resiliência e a pressão para pagar as dívidas leva a mais extração, alimentando o desastre seguinte”, resume Teresa Anderson, líder global de Justiça Climática da ActionAid Internacional e uma das autoras do relatório.
As propostas da ActionAid e de seus aliados
O documento reúne uma lista de reivindicações a governos e instituições internacionais:
- cancelar dívidas impagáveis ou injustas dos países que gastam mais de 10% de suas receitas com o pagamento da dívida externa;
- acordar uma regra universal para suspender o pagamento das dívidas de qualquer país atingido por um desastre climático, válida para todos os credores e não apenas para os que aderirem voluntariamente;
- criar uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Dívida Soberana, com igualdade de voz para os endividados e um mecanismo multilateral de resolução;
- aprovar leis em Londres e Nova York que exijam a participação efetiva de credores privados em reestruturações, já que cerca de 90% dos contratos de títulos soberanos são regidos pela legislação do Reino Unido;
- regular as agências de classificação de risco e criar agências regionais e públicas ou uma agência multilateral;
- garantir financiamento climático em doações, em volume compatível com a crise;
- reformar as avaliações de sustentabilidade da dívida para colocar clima, serviços públicos e direitos humanos no centro da decisão sobre quanto cada país pode pagar;
- realizar auditorias públicas da dívida e do clima, com atenção a mulheres e meninas, para identificar como as dívidas interna e externa aprofundam impactos climáticos, pobreza e exclusão.
O que isso significa para a Amazônia
A região amazônica convive com o efeito direto dessa equação. Estiagens que isolam comunidades ribeirinhas e enchentes que atingem cidades dependem de capacidade pública de resposta, justamente o que o estudo aponta como espremido pelo serviço da dívida em países vulneráveis. A pressão por divisas via extração de recursos naturais também é um debate conhecido em territórios de floresta.
As imagens que ilustram o tema incluem as ruas alagadas do Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo, em 5 de fevereiro de 2025, o que mostra que o problema do preparo para eventos extremos também é urbano e brasileiro.
As propostas do relatório devem seguir como pauta de pressão da ActionAid e de seus aliados nas negociações internacionais sobre dívida e financiamento climático.
Com informações de ActionAid.
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