
Estudo da Universidade de Munique, publicado na revista One Earth, mostra que pobreza, insegurança fundiária e governança frágil limitam o plantio de árvores justamente nos trópicos.
Plantar árvores costuma ser apresentado como a solução mais simples contra o aquecimento global, mas uma parte grande dessa conta depende de gente, terra e instituições. Um estudo conduzido na Universidade Ludwig-Maximilians de Munique (LMU), na Alemanha, e publicado na revista científica One Earth, concluiu que cerca de três quartos do potencial estimado de remoção de CO₂ por florestação e reflorestamento enfrentam barreiras sociais e institucionais relevantes.
O resultado interessa diretamente à Amazônia, já que o Brasil aparece entre os países em que esses obstáculos são maiores.
O que as florestas novas já entregam
Segundo a LMU, os esforços de criar florestas onde não havia (florestação) e de recuperar as que foram perdidas (reflorestamento) ajudaram a ampliar a cobertura florestal do planeta em mais de 300 milhões de hectares até hoje.
Na última década, essas ações removeram da atmosfera cerca de 2,2 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, segundo estimativas citadas pelos pesquisadores. É um volume comparável às emissões anuais de CO₂ de combustíveis fósseis de toda a União Europeia.
Como os pesquisadores chegaram ao resultado
A equipe, liderada pelo geógrafo Wenkai Bao, reuniu especialistas das ciências naturais e sociais. O método combinou evidências de estudos de caso reais com análise por aprendizado de máquina de grandes bases de dados globais.
O objetivo foi medir como condições sociais, institucionais e econômicas limitam o plantio e a manutenção de florestas, e o que isso significa para a remoção futura de dióxido de carbono.
Pobreza, terra e governança no centro do problema
Entre os maiores entraves identificados estão a pobreza, a insegurança alimentar, a insegurança sobre a posse da terra e a governança fraca. A infraestrutura florestal limitada e a falta de apoio de grupos locais também dificultam estabelecer e manter florestas no longo prazo.
O quadro varia entre regiões. Segundo o estudo, plantar e manter florestas enfrenta menos barreiras na Europa e na China. Os obstáculos são significativamente maiores na África, na Índia e no Brasil.
Há ainda a disputa por espaço. Florestas em larga escala concorrem por terra com a produção de alimentos e com os meios de vida de quem já vive no território, e o sucesso depende de direitos fundiários seguros e de instituições capazes de apoiar e proteger os projetos ao longo do tempo.
O que isso significa para a Amazônia
O estudo não detalha casos amazônicos, mas o diagnóstico conversa com a realidade da região, onde regularização fundiária, conflitos por terra e presença do Estado pesam sobre qualquer projeto de restauração. Iniciativas de recuperação de áreas degradadas que ignorem quem vive e produz no local correm o risco apontado pelos autores.
Segundo a LMU, desconsiderar essas condições pode resultar em plantios fracassados, carbono armazenado em menor quantidade ou de forma menos permanente, conflitos e mais dificuldades para comunidades pobres.
O que dizem os autores
Wenkai Bao resume a conclusão para a formulação de políticas:
“Because much of the estimated potential lies in places facing these constraints, especially in tropical countries, credible climate strategies must pair afforestation and reforestation with efforts that strengthen livelihoods, rights, and institutions.”
Julia Pongratz, professora de Geografia Física e Sistemas de Uso da Terra da LMU e coautora, lembra a escala do desafio:
“To reach greenhouse gas neutrality, we will have to at least triple the global amount of CO 2 that we remove from the atmosphere by 2050. Additional forest cover will play the dominating role while we scale up technological removal options. It is thus fundamental to understand and eventually resolve constraints to creating and keeping up these forests. It should be clearly stated, however, that planting forests can only complement, not replace, broader climate action and sustainable development.”
O que ainda precisa ser resolvido
O trabalho indica que o potencial das florestas novas é real, mas que transformá-lo em carbono efetivamente retirado do ar exige resolver antes questões de direitos, renda e instituições. Isso coloca a segurança fundiária e o apoio às comunidades na pauta dos países tropicais que pretendem contar com o reflorestamento em suas metas climáticas, e o estudo completo pode ser consultado na página da revista One Earth.
Com informações de Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU).
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