COP31 leva metano, resíduos e disputa de narrativas a Antália após a pressão climática de Belém

COP31 leva metano, resíduos e disputa de narrativas a Antália após a pressão climática de Belém
Ilustração: Revista Amazônia

Organizações brasileiras chegam à conferência na Turquia para acompanhar como compromissos climáticos serão transformados em ações.

Enquanto cidades e comunidades ainda lidam com os efeitos de eventos climáticos extremos, a próxima conferência do clima da ONU será convocada a responder uma questão prática: como fazer os compromissos ambientais saírem dos documentos e chegarem às políticas públicas. A COP31 começa em Antália, na Turquia, menos de 30 dias após 15 de outubro de 2026, com a presidência da conferência transferida do Brasil para o país anfitrião.

A Uma Gota no Oceano acompanhará esse processo a partir de três frentes centrais: redução das emissões de metano, gestão de resíduos e comunicação sobre políticas climáticas. A organização também manterá o apoio à participação de delegações indígenas e quilombolas, em continuidade ao trabalho desenvolvido nas conferências do clima e em redes brasileiras da sociedade civil.

Da implementação em Belém ao teste político em Antália

A COP30, realizada em Belém, colocou a implementação no centro da agenda climática internacional. Isso significa avançar da formulação de metas para a execução de medidas capazes de reduzir emissões, proteger territórios e ampliar a adaptação às mudanças do clima.

Em Antália, a discussão ocorrerá em um ambiente mais instável. O mundo ainda enfrenta os efeitos de um episódio intenso de El Niño, associado ao agravamento de eventos extremos em diferentes regiões. Ao mesmo tempo, o multilateralismo enfrenta dificuldades, enquanto grupos políticos críticos ou contrários à agenda climática ampliam sua influência em países e instituições estratégicas.

Segundo a Uma Gota no Oceano, a COP31 será realizada em Antália, na Turquia, após a COP30 de Belém e durante a transferência da presidência brasileira para o país anfitrião em 2026.

O desafio, portanto, não será apenas anunciar novas promessas. A conferência deverá avaliar a capacidade dos governos, organismos internacionais, empresas e organizações sociais de transformar decisões anteriores em resultados verificáveis. A Gota pretende acompanhar os desdobramentos dos mapas do caminho lançados em Belém e a velocidade com que as soluções poderão ser aplicadas.

Por que o metano entrou no centro da agenda

O metano tem vida mais curta na atmosfera do que o dióxido de carbono, mas apresenta forte capacidade de retenção de calor no período em que permanece no ar. Por isso, reduzir suas emissões pode produzir efeitos mais rápidos sobre o ritmo do aquecimento global nesta década.

As oportunidades de corte estão distribuídas por setores que fazem parte da economia e da rotina de diferentes países, como agropecuária, energia e resíduos. A combinação entre políticas públicas, tecnologia, fiscalização e financiamento já permite identificar pontos de redução e transformar parte dessas emissões em ganhos ambientais e econômicos.

Na Amazônia, essa agenda se conecta diretamente às cidades, aos territórios rurais e às cadeias produtivas dos estados da região. A destinação do lixo, o aproveitamento de resíduos orgânicos e a produção de biogás são temas que podem aproximar a negociação internacional dos problemas enfrentados no cotidiano amazônico, sem separar clima de saúde pública, renda e qualidade ambiental.

Resíduos Zero aproxima a negociação da vida cotidiana

A gestão de resíduos aparece entre as prioridades da COP31 por reunir medidas com potencial de reduzir emissões e gerar benefícios sociais. Compostagem, reciclagem, recuperação de materiais, redução do desperdício de alimentos e uso do biogás integram esse conjunto de soluções.

O tema também muda a forma como a política climática é percebida pela população. Em vez de depender apenas de grandes obras ou decisões tomadas em fóruns internacionais, a redução das emissões associadas aos resíduos pode envolver serviços municipais, cooperativas, produtores, empresas e consumidores.

Para a Gota, tratar dos resíduos significa discutir uma resposta climática que está presente nas cidades. A abordagem amplia a conversa sobre emissões e mostra como escolhas relacionadas ao descarte, ao reaproveitamento e ao consumo se relacionam com metas globais.

A informação como condição para implementar políticas

Mesmo com financiamento, tecnologia e normas públicas, uma medida climática pode perder força quando a sociedade não compreende sua finalidade ou quando informações falsas ocupam o espaço do debate. A COP31 terá, por isso, uma frente voltada à disputa de narrativas, à polarização e aos obstáculos criados pela desinformação.

A Uma Gota no Oceano realizará o painel oficial “Climate Policy Backlash and Disinformation: The Battle of Narratives and Who Shapes Them”. O encontro reunirá a própria organização, o Global Methane Hub, a Equal Routes, o Instituto de Energia e Meio Ambiente, o Instituto Torcuato Di Tella, o Research Institute for Sustainability, a Mediators Beyond Borders e o German Climate Consortium.

A proposta é discutir como campanhas de desinformação e reações políticas podem acelerar ou bloquear a execução de políticas climáticas. A comunicação aparece, assim, não como etapa posterior da ação ambiental, mas como parte da infraestrutura necessária para criar confiança, explicar escolhas e ampliar o apoio social.

Uma trajetória que começou em 2011

Criada em 2011, a Uma Gota no Oceano completa 15 anos de atuação e mantém uma estratégia baseada na aproximação entre especialistas, lideranças, jornalistas, organizações da sociedade civil e tomadores de decisão.

A presença em Antália dá continuidade à participação da organização nas conferências do clima desde a COP21, realizada em Paris em 2015, quando foi adotado o Acordo de Paris. Como organização observadora da ONU para clima e biodiversidade, a Gota também acompanha fóruns multilaterais ambientais.

Ao longo desse percurso, a entidade apoiou a presença de delegações indígenas e quilombolas e ampliou a circulação de suas pautas na imprensa nacional e internacional. Na COP31, a atuação será combinada com novas parcerias sobre metano, resíduos e comunicação, sem abandonar a defesa da justiça climática, dos direitos territoriais e da participação de povos tradicionais.

Para o público amazônico, o debate tem um significado adicional: decisões tomadas em Antália podem influenciar prioridades de financiamento, modelos de gestão urbana e reconhecimento de conhecimentos e direitos territoriais que afetam os nove estados da Amazônia Legal. Até a abertura da COP31, a organização deverá acompanhar a preparação das delegações e os desdobramentos das agendas encaminhadas a partir de Belém.

Com informações de Uma Gota no Oceano.

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