
Presidente do painel da ONU para a biodiversidade avalia que o fenômeno em formação pode levar os corais a ultrapassar a marca de 50% das espécies ameaçadas.
Quase metade das espécies de coral do planeta já estava em risco elevado de extinção em 2020, e o pior ainda pode estar por vir. Um super El Niño ganha força no Pacífico tropical e eleva as temperaturas dos oceanos a níveis recordes, o que levou o pesquisador David Obura a classificar a ameaça aos recifes como “aterradora”, em entrevista à AFP, em Paris.
Obura é biólogo marinho queniano e preside o IPBES, o painel científico da ONU para a biodiversidade. Ele liderou uma reavaliação do estado dos corais, publicada na revista Nature nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026.
O que o novo levantamento encontrou
A revisão cobriu centenas de espécies da Lista Vermelha da UICN, entre elas corais como os do tipo chifre-de-veado e os de mesa. São os organismos cujos esqueletos minerais dão aos recifes a complexidade tridimensional que abriga outras formas de vida.
Os dados mostram uma deterioração acentuada desde o último censo global, de 2008. “Our results show that by 2020, nearly half of coral species were at elevated relative risk of extinction”, escreveram Obura e dezenas de cientistas, apontando a mudança climática como principal causa.
Para Obura, o resultado indica que as condições para os corais pioram de forma significativa. Ele disse que isso não surpreende, dado o aquecimento acelerado e a falta de redução dos fatores globais de declínio.
Um retrato que já ficou para trás
O estudo foi concluído em 2020. Segundo o pesquisador, o quadro atual seria ainda mais grave.
Desde então, as temperaturas globais dos oceanos chegaram a máximas inéditas. Entre 2023 e 2025, ocorreu o pior episódio de branqueamento de corais já registrado, com mortalidade generalizada nos recifes.
“It is entirely possible that reassessing the status of corals just after this coming El Niño may show them to have crossed the 50 percent mark of the proportion of species at elevated risk of extinction”, disse Obura.
Por que este El Niño preocupa tanto
O El Niño é a fase de aquecimento de um ciclo climático natural. Ele eleva temporariamente as temperaturas globais, altera padrões de nuvens e ventos e amplia o risco de eventos meteorológicos danosos.
Segundo previsores globais, o episódio atual deve ser o mais forte já registrado. Em partes do Pacífico, a temperatura da superfície do mar já bateu recordes, meses antes do pico esperado.
Obura lembrou o impacto do super El Niño de 1997/98. “That this coming event is worse than that, after three intervening global bleaching events … is a terrifying reality”, afirmou. Para ele, o fenômeno acrescenta “a terrifying level of additional risk” a corais já fragilizados.
Ponto sem volta e colapso sem aviso
No ano passado, cientistas alertaram que os recifes de águas quentes quase certamente cruzaram um ponto sem retorno, com oceanos aquecidos além do que a maioria suporta.
O estudo da Nature afirma que o aumento projetado das temperaturas e outras pressões determinam “quando e onde”, e não “se”, as condições se tornarão inviáveis para os corais.
O pesquisador alerta que o colapso pode ser abrupto. “When they hit their threshold the collapse of reefs in that region could be precipitous and we don’t know if that is five, 15 or 30 years into the future, or maybe this year with the super El Niño ramping up?”, disse.
O que isso significa para a Amazônia
O Pacífico equatorial, onde o El Niño nasce, também influencia o clima amazônico. Em episódios anteriores, o fenômeno esteve associado a secas mais severas na região, o que torna o acompanhamento do evento relevante para estados amazônicos.
Há ainda um elo costeiro. A foz do Amazonas abriga o Grande Sistema de Recifes da Amazônia, formação de recifes na plataforma continental da região. O material desta pauta não traz dados específicos sobre ela, mas o debate sobre aquecimento dos oceanos e perda de recifes dialoga diretamente com a proteção desse ecossistema.
Segundo a AFP, citando Obura, uma nova reavaliação feita logo após este El Niño poderá mostrar se os corais cruzaram a marca de 50% das espécies sob risco elevado de extinção. O pico do fenômeno ainda não ocorreu, e cientistas devem seguir monitorando as temperaturas do Pacífico nos próximos meses.
Com informações de AFP.
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