
OMM alerta que o fenômeno pode ficar fora dos gráficos usados nas últimas quatro décadas, e seus efeitos devem durar além do pico.
O oceano Pacífico esquenta de um jeito que pode tirar o El Niño de 2026 da escala dos medidores. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirmou, em atualização divulgada na quarta-feira (21 de outubro), que o fenômeno pode ser “literally [be] off the monitoring charts that we have used for the past four decades”, ou seja, literalmente fora dos gráficos de monitoramento das últimas quatro décadas.
A previsão da OMM é que as temperaturas da superfície do mar subam até 3,8 °C acima da média entre novembro e janeiro. Para efeito de comparação, uma anomalia de 0,5 °C acima do normal no Pacífico já basta para disparar um alerta de El Niño, segundo a ONU.
“Uma bola de demolição”
O chefe de assistência humanitária da ONU, Tom Fletcher, foi direto na quarta-feira: “This El Niño is a behemoth”. Ele também o descreveu como “a wrecking ball”, carregada de “extreme heat, droughts, and floods”.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, disse em coletiva que os efeitos devem “be felt long after” o pico, previsto para o fim de 2026. A OMM indica que as temperaturas do mar só devem “increase to record levels” até dezembro.
Segundo a OMM, o El Niño de 2026 deve atingir seu pico em dezembro, conforme o mais recente Global Seasonal Climate Update.
Por que o calor extra não vem do nada
Saulo explicou o mecanismo no Global Heat Forum, em Bangkok, no início do mês. “El Niño doesn’t add new heat to the planet. It releases heat the ocean has already been storing beneath the surface”, disse ela, lembrando que isso ajuda a explicar por que um evento forte costuma coincidir com um dos anos mais quentes já medidos, como 2024.
Ela completou: “The ocean it’s drawing from is the warmest we’ve ever measured it. There is simply more heat available to release.”
O que dizem os centros de previsão
O Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, informou que o El Niño “strengthened further” em setembro. O órgão vê um evento de forte a muito forte como provável de janeiro a março.

“Chances remain high for a historic event that would exceed the strength of previous El Niño events dating back to 1950”, afirmou o CPC. O centro ressalvou: “With an event of this magnitude, the chances of experiencing impacts consistent with El Niño are larger, though not guaranteed.”
Em setembro, o cientista climático Azhar Ehsan, da Universidade Columbia, mostrou um gráfico com probabilidade de “100% to 99%” de o fenômeno durar até a primavera do hemisfério norte. “I wrote near-certain but it’s 100%”, disse. O CPC também vê o El Niño se mantendo por cerca de seis meses, embora uma La Niña possa não estar muito distante.
Daniel Swain, climatologista do California Institute for Water Resources, escreveu nas redes sociais: “Based on what I am seeing now, I am officially concerned. We’ve never seen an event this big before in the context of our rapidly warming climate … The warning lights are flashing.”
O espelho de 1997
Ehsan avalia que a evolução atmosférica deste ano se parece com a de 1997, quando se formou um dos El Niños mais fortes da história.
Segundo um relatório do Centro Nacional de Dados Climáticos dos EUA de abril de 1998, aquele inverno foi o segundo mais quente e o sétimo mais chuvoso desde 1895 no país. Houve tempestades de gelo no Nordeste, enchentes no Sudeste e na Califórnia e tornados mortais na Flórida.
O que isso significa para a Amazônia
A fonte consultada trata sobretudo dos efeitos nos Estados Unidos, e não detalha impactos regionais na Amazônia. Ainda assim, o alerta de “calor extremo, secas e inundações” feito pela ONU e a menção de Saulo a regiões do mundo sujeitas a seca severa merecem atenção na região.
A Amazônia depende de ciclos de chuva e vazante dos rios. Por isso, órgãos de monitoramento e defesa civil dos estados amazônicos costumam acompanhar de perto qualquer anomalia forte no Pacífico equatorial. O leitor deve seguir os boletins oficiais para saber como o evento se reflete localmente.
Há algum lado positivo?
Nos Estados Unidos, o meteorologista Henry DiCarlo, da KTLA, disse que a chuva acima da média pode ajudar a aliviar a seca na Califórnia. Já Saulo reforçou o limite dessa vantagem: “We cannot stop El Niño. But we can prevent many of its worst human consequences.”
Os próximos boletins da OMM e do CPC, nas semanas até o pico de dezembro, vão mostrar se o evento realmente superará os registros históricos desde 1950.
Com informações de Organização Meteorológica Mundial (OMM), ONU e NOAA.
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