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Superpoluentes podem cortar pela metade o ritmo do aquecimento global em 15 anos, dizem cientistas

Superpoluentes podem cortar pela metade o ritmo do aquecimento global em 15 anos, dizem cientistas
Foto: acervo

Estratégia combina redução de metano, fuligem e HFCs com retirada de dióxido de carbono da atmosfera.

A janela para reduzir rapidamente o aquecimento global pode estar menos ligada a novas tecnologias do que à aplicação imediata de soluções já conhecidas. Essa é a avaliação de V. Ram Ramanathan, Durwood Zaelke e Marcelo Suárez-Orozco, autores de um artigo que propõe cortar pela metade, em 15 anos, a velocidade de elevação da temperatura do planeta. O plano começa por metano, hidrofluorcarbonetos, ozônio troposférico e fuligem, chamados de superpoluentes climáticos.

O texto foi preparado para uma apresentação de Ramanathan no Vaticano, em 26 de setembro, e parte de um alerta: segundo os autores, o mundo se aproxima da primeira ultrapassagem do limite de 1,5°C previsto no Acordo de Paris. A estimativa apresentada é que essa marca seja superada em cinco anos ou menos, enquanto os 2°C poderiam ser alcançados em cerca de 15 anos se o ritmo atual continuar.

Por que o foco começa fora do CO₂

O dióxido de carbono continua sendo o principal gás associado ao aquecimento de longo prazo, mas não é o único responsável pelo aumento da temperatura. Metano, HFCs usados em refrigeração, ozônio formado próximo ao solo e carbono negro emitido por motores a diesel e pela queima em cozinhas também retêm calor.

A diferença está no tempo de permanência. Esses poluentes de curta duração podem desaparecer da atmosfera em até duas décadas, enquanto o CO₂ permanece por várias décadas ou até um século antes de cair significativamente. Por isso, reduzir suas emissões poderia produzir uma resposta climática mais rápida, embora não substitua a necessidade de cortar o dióxido de carbono.

Segundo os autores do artigo, os superpoluentes respondem atualmente por mais da metade do aquecimento global já observado e são, em alguns casos, dezenas ou milhares de vezes mais potentes que o CO₂ na retenção de calor. A afirmação sustenta a escolha de uma frente de ação capaz de influenciar a taxa de aquecimento antes que medidas estruturais de longo prazo produzam todos os seus efeitos.

As medidas já disponíveis e o que falta executar

Uma das referências usadas no texto é a Emenda de Kigali, aprovada em 2016 para reduzir os hidrofluorcarbonetos. O acordo complementa o Protocolo de Montreal, tratado criado para proteger a camada de ozônio e que, de acordo com os autores, também ajudou a evitar uma parcela do aquecimento projetado.

No caso do metano, a proposta inclui controlar vazamentos e desperdícios na produção de petróleo e gás, setor em que o gás natural é composto majoritariamente por metano. A redução também poderia ocorrer em aterros sanitários, com políticas de diminuição do desperdício de alimentos e aproveitamento do gás gerado pela decomposição dos resíduos.

A estimativa apresentada é que a adoção dessas medidas antes de 2030 e sua expansão ao longo da década reduziriam em 30% a taxa de aquecimento até os anos 2040. Ainda assim, o objetivo defendido é mais ambicioso: diminuir o ritmo de quase 0,4°C por década para menos de 0,2°C por década.

O segundo passo é retirar carbono da atmosfera

Reduzir emissões não basta para eliminar o excesso de CO₂ já acumulado. O artigo estima que a camada de dióxido de carbono produzida pela atividade humana corresponda a cerca de 1,2 trilhão de toneladas. Para reduzir esse estoque em 5%, seria necessário remover aproximadamente 60 bilhões de toneladas.

As soluções baseadas na natureza retiram hoje cerca de 2 bilhões de toneladas por ano, segundo os autores. A proposta é dobrar essa capacidade para 4 bilhões de toneladas anuais, combinando métodos naturais com alternativas químicas, biológicas e tecnológicas ainda em desenvolvimento. Nessa escala, a quantidade indicada seria removida em aproximadamente 15 anos.

Esse cálculo depende de uma expansão de projetos que enfrentam desafios de custo, disponibilidade de áreas, permanência do carbono armazenado e medição dos resultados. Plantar árvores, por exemplo, pode retirar carbono, mas o benefício diminui se a vegetação for destruída por incêndios, secas ou desmatamento. A remoção, portanto, não elimina a urgência de interromper novas emissões.

O risco para a Amazônia e para a estabilidade climática

O alerta tem relação direta com a Amazônia. O artigo aponta que um aquecimento de 2°C pode favorecer a transição de partes da floresta para uma paisagem semelhante à savana. A mudança afetaria biodiversidade, chuvas, agricultura, geração hidrelétrica e comunidades dos nove estados da Amazônia Legal, embora o texto não apresente uma previsão específica para cada estado.

Os autores também citam o enfraquecimento da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC e relacionada à Corrente do Golfo. Essa circulação transporta calor para o norte do Atlântico. Um colapso é descrito como um evento de baixa probabilidade, mas com possíveis efeitos severos, incluindo mudanças climáticas abruptas e deslocamentos populacionais em larga escala.

Outro mecanismo apontado é a perda de gelo marinho e geleiras. Com menos superfícies claras para refletir a radiação solar, o planeta absorveria mais energia. A estimativa apresentada no artigo é de que esse efeito amplifique o aquecimento em 25% ou mais.

Reduzir a velocidade não encerra a crise

Mesmo que o plano seja executado, os impactos climáticos não desapareceriam de imediato. Ondas de calor, secas, enchentes e alterações nos ecossistemas continuariam por décadas, exigindo adaptação de cidades, sistemas de saúde, agricultura e infraestrutura.

O texto menciona ainda uma projeção de até dois bilhões de mortes relacionadas ao calor em 2050 em um cenário de pior caso analisado por especialistas atuariais da Universidade de Exeter. Trata-se de uma estimativa de cenário extremo, não de uma previsão inevitável. Essa distinção é importante porque os resultados dependem da evolução das emissões, da adaptação e das políticas públicas.

Para acelerar a mobilização, os autores propõem a formação de um milhão de Defensores do Clima, voltados ao apoio de ações locais e nacionais, e um milhão de Campeões do Clima, responsáveis por conectar sociedade civil, governos e empresas. A apresentação no Vaticano, marcada para 26 de setembro, deve detalhar essa proposta de cooperação e os caminhos para transformar metas em medidas concretas.

Com informações da Universidade da Califórnia em San Diego, do Instituto de Governança e Desenvolvimento Sustentável e da Universidade de Massachusetts Boston.

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