El Niño aquece o Pacífico em até 6°C, afasta peixes e reduz renda de pescadores do Equador ao Panamá

El Niño aquece o Pacífico em até 6°C, afasta peixes e reduz renda de pescadores do Equador ao Panamá
Foto: Divulgação

A combinação entre oceano mais quente e mudanças climáticas aumenta custos, reduz capturas e pressiona mercados de pescado.

Em Santa Rosa, no litoral do Equador, uma noite inteira de trabalho terminou com apenas seis cavalas-fragata na rede. O resultado resume a crise que atingiu pescadores artesanais do Pacífico oriental em setembro de 2026: o El Niño elevou a temperatura do mar, empurrou atuns, pargos e anchovetas para águas mais profundas e reduziu a renda de comunidades entre o Equador, o Peru, o Panamá e a Guatemala.

A mudança não aparece apenas na quantidade de peixe desembarcada. Ela também transforma a conta da viagem. Para alcançar cardumes cada vez mais distantes, pequenas embarcações precisam gastar mais com combustível, gelo e comida, enquanto o tempo no mar se alonga e a probabilidade de voltar com uma captura suficiente diminui.

Quando a viagem deixa de pagar a própria viagem

O pescador equatoriano Juan Ollague, de 56 anos, relatou que passou a noite acordado antes de retornar ao porto parcialmente paralisado de Santa Rosa, na província de Santa Elena. “A água está quente”, disse à AFP. Seu colega Darwin Zambrano, de 53 anos, contou que as redes deixaram de trazer exemplares maiores da família do atum, como albacoras e bonitos.

Em Veracruz, nas proximidades da Cidade do Panamá, Rigoberto González precisa navegar por mais tempo para capturar pargos, serras e barracudas. Em uma jornada, ele gastou 100 dólares em gasolina e obteve 150 dólares com a venda. O valor ainda precisaria ser dividido entre quatro trabalhadores, antes da dedução dos demais custos.

“Não podemos continuar perdendo”, afirmou Jesús Morales, líder do sindicato de pescadores artesanais do Panamá.

A decisão de permanecer no porto já deixou de ser exceção. No Panamá, a menor quantidade de chuvas associada ao El Niño também reduziu o tráfego pelo canal interoceânico, acrescentando pressão a uma economia que depende de circulação marítima, abastecimento e comércio.

O calor se concentra também abaixo da superfície

O problema não é explicado apenas por uma sensação térmica na costa. Uma expedição recente identificou aumento de aproximadamente 3°C na superfície das águas equatorianas e de até 6°C a 40 metros de profundidade. Para o oceanógrafo Jonathan Cedeño, esse aquecimento diminuiu a produtividade marinha e alterou a disponibilidade de determinadas espécies.

Segundo o observatório europeu Copernicus, a temperatura média dos oceanos, sem considerar as regiões polares, chegou a 21,07°C em agosto de 2026, igualando o recorde registrado em março de 2024. O El Niño funciona como um amplificador de um cenário já agravado pelas mudanças climáticas, ao alterar correntes, distribuição de nutrientes e localização dos cardumes.

Na prática, espécies que sustentam frotas artesanais passam a procurar zonas mais frias. O deslocamento aumenta a distância entre os portos e os peixes, mas não garante que as embarcações menores tenham autonomia, equipamentos ou segurança para acompanhá-los.

Do peixe que some ao alimento que encarece

Em Iztapa, na Guatemala, Eliseo Ovando, de 50 anos, afirmou que precisa de três dias para obter o que antes pescava em apenas um. Ele também denunciou que os grandes empreendimentos são os principais beneficiários da ajuda estatal, enquanto os trabalhadores artesanais enfrentam custos maiores e menor capacidade de resposta.

No Peru, o afastamento das anchovetas já está levando pescadores a buscar ocupações temporárias na construção civil. A espécie tem importância que ultrapassa o consumo direto: o país é o principal produtor mundial de anchoveta, usada como matéria-prima para ração animal e fertilizantes.

O efeito chega aos mercados. Em um ponto de venda próximo ao atracadouro da Cidade do Panamá, o comerciante Carlos Nieto, de 46 anos, relatou receber menos mariscos e encontrar parte da mercadoria deteriorada pelo calor. Para conservar os produtos, passou a gastar cerca de 600 dólares por mês apenas com gelo.

No Equador, a indústria informou que o preço do dourado e da bicuda dobrou por causa da escassez. Ainda não houve alta significativa em todos os mercados panamenhos, mas a combinação de menor oferta, perdas por conservação inadequada e combustível mais caro cria uma pressão que pode aparecer primeiro na renda dos pescadores e depois no bolso dos consumidores.

O impacto chega antes às comunidades dependentes do porto

Em Santa Rosa, a crise atravessa toda a cadeia. Francisco Orlando, de 37 anos, trabalha cortando filés, mas depende da chegada dos barcos para ter ocupação. “Se trouxerem, nós trabalhamos. Se não trouxerem, não trabalhamos”, resumiu. Restaurantes instalados diante do porto fecharam temporariamente porque a falta de renda reduziu o consumo local.

Janeth Toasa, de 54 anos, descreveu uma dificuldade que costuma ficar invisível nas estatísticas de desembarque: quando o peixe desaparece, também desaparece o dinheiro que circula entre vendedores, fileteadores, cozinheiros, transportadores e pequenos comerciantes.

Esse ponto interessa diretamente à Amazônia, onde comunidades ribeirinhas, mercados urbanos e cadeias de pescado também dependem da regularidade ambiental e do acesso ao combustível, ao gelo e ao transporte. O caso do Pacífico não deve ser tratado como uma previsão automática para os rios amazônicos, porque são ambientes diferentes, mas mostra como uma alteração climática pode atingir simultaneamente o recurso natural e a renda de quem trabalha na ponta.

Uma crise ambiental com resposta desigual

O episódio também expõe uma disputa sobre quem consegue se adaptar. Empresas maiores tendem a operar com embarcações mais distantes, armazenagem ampliada e maior capacidade de absorver prejuízos. Para o pescador artesanal, uma viagem malsucedida pode comprometer o orçamento da família e limitar a próxima saída.

O calor do oceano, portanto, não produz apenas uma mudança ecológica. Ele redistribui riscos econômicos. Enquanto algumas frotas podem seguir o peixe, trabalhadores menores precisam escolher entre ampliar a dívida, reduzir a jornada ou abandonar temporariamente a atividade.

As comunidades atingidas agora dependem da evolução das temperaturas do Pacífico, da disponibilidade dos cardumes e de medidas públicas capazes de alcançar os pescadores artesanais, não apenas os grandes produtores. Até lá, cada nova saída ao mar continuará sendo uma aposta entre o custo certo do combustível e uma captura que pode não aparecer.

Com informações de AFP.

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