
Relatório aponta avanço puxado pelo Brasil, porém recursos para adaptação e mitigação seguem quatro vezes abaixo do necessário.
O dinheiro destinado a enfrentar a crise climática cresceu na América Latina e no Caribe, mas ainda perde a disputa por capital para os combustíveis fósseis. Em 2024, a região movimentou US$ 108 bilhões em financiamento climático, enquanto petróleo, gás fóssil e carvão receberam US$ 95 bilhões no mesmo período. A diferença expõe o limite do avanço: mesmo com mais recursos para energia solar, agricultura sustentável, adaptação e redução de emissões, a economia regional continua financiando em escala comparável as atividades que prolongam a dependência de carbono.
A análise da Climate Policy Initiative, CPI, considera investimentos em ações climáticas entre 2020 e 2024. O volume praticamente dobrou no intervalo, saindo de US$ 54 bilhões para US$ 108 bilhões. Convertidos pelos valores apresentados no levantamento, os montantes equivalem a aproximadamente R$ 270 bilhões e R$ 540 bilhões, respectivamente.
O Brasil concentrou mais da metade do dinheiro regional
O Brasil foi o principal responsável pela aceleração mais recente. Entre 2022 e 2024, o fluxo de recursos para projetos climáticos no país aumentou 162,5%, ou cerca de 163%. Apenas em 2024, o território brasileiro concentrou 58% do financiamento climático contabilizado na América Latina e no Caribe, com US$ 63 bilhões, equivalentes a R$ 315 bilhões nos valores usados pela análise.
Esse peso não significa que o país tenha resolvido o problema do financiamento climático. Significa, antes, que a escala brasileira altera a média regional e faz com que decisões tomadas no mercado nacional tenham impacto expressivo no resultado latino-americano. A expansão da geração solar e o apoio a práticas de agricultura sustentável aparecem como os principais destinos do crescimento registrado entre 2022 e 2024.
Segundo a Climate Policy Initiative, a América Latina e o Caribe movimentaram US$ 108 bilhões em financiamento climático em 2024, enquanto o mínimo anual estimado para mitigação e adaptação seria de aproximadamente US$ 467 bilhões.
O dinheiro verde avançou, mas não mudou a direção do fluxo
As energias renováveis receberam US$ 43 bilhões em 2024. O valor representa uma fatia relevante do financiamento climático, mas ficou muito abaixo dos US$ 95 bilhões direcionados a petróleo, gás fóssil e carvão. Na prática, os combustíveis fósseis captaram mais que o dobro do volume destinado às fontes renováveis.
A comparação é importante porque o financiamento climático não se resume à construção de usinas solares ou eólicas. Ele também inclui medidas de adaptação, proteção contra eventos extremos, agricultura de menor emissão e ações capazes de tornar cidades, cadeias produtivas e comunidades menos vulneráveis. Ainda assim, quando a transição energética é observada pelo lado da alocação de capital, a vantagem permanece com as fontes fósseis.
Essa contradição ajuda a explicar por que o crescimento percentual dos investimentos verdes não produz, automaticamente, uma mudança estrutural na economia. O volume renovável subiu, mas os projetos de exploração, produção e consumo de combustíveis fósseis continuam atraindo recursos em escala maior.
A conta da adaptação ainda não fecha
O relatório também identifica um sinal de possível perda de ritmo. O financiamento climático regional chegou a US$ 110 bilhões em 2023 e recuou para US$ 108 bilhões em 2024. A diferença é pequena, mas interrompe a trajetória de alta e sugere que o crescimento pode não estar se consolidando de forma linear.
Mais relevante do que a oscilação entre dois anos é a distância até o patamar considerado necessário. Os US$ 108 bilhões registrados em 2024 correspondem a pouco menos de um quarto dos US$ 467 bilhões anuais estimados como piso para ações de mitigação e adaptação. Em outras palavras, seria preciso multiplicar por mais de quatro o volume atual para alcançar a necessidade calculada pela CPI.
O déficit tende a ser mais grave em áreas que precisam se adaptar a secas, enchentes, ondas de calor, incêndios e alterações no regime de chuvas, mas que têm menor capacidade de atrair investidores. Projetos de prevenção e resiliência costumam oferecer retorno financeiro menos imediato do que empreendimentos de geração de energia ou extração mineral. Essa característica cria uma barreira adicional justamente para as populações mais expostas.
O que o cenário representa para a Amazônia
Na Amazônia, a discussão alcança diretamente os nove estados da região: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A necessidade de recursos envolve frentes diferentes, como prevenção de incêndios, recuperação de áreas degradadas, produção rural de menor impacto, infraestrutura resiliente e alternativas energéticas para localidades isoladas.
O dado regional, porém, não permite concluir que os US$ 63 bilhões concentrados pelo Brasil tenham sido distribuídos de maneira uniforme entre estados ou biomas. A participação brasileira mostra a dimensão do mercado nacional, mas não revela, por si só, quanto chegou a comunidades amazônicas, municípios pequenos ou projetos de adaptação. Essa é uma lacuna relevante para quem acompanha a transição a partir da região.
Também há uma disputa sobre o uso das receitas geradas pela exploração fóssil. María Sierra, gerente de inovação financeira da CPI para a América Latina, afirmou: “Vamos conviver com algum nível de extração de combustíveis fósseis nos próximos anos. [Mas] a questão central é o que fazer com as receitas vindas dessa atividade e como usá-las para fortalecer a resiliência”.
O desafio é mudar o destino do capital
A declaração coloca o debate além da simples oposição entre investimento verde e investimento fóssil. Mesmo em um cenário de continuidade da extração, a questão passa a ser se as receitas serão usadas para reduzir vulnerabilidades, financiar novas tecnologias e preparar regiões dependentes de atividades intensivas em carbono para uma transição econômica.
Para o Brasil, o contraste é especialmente importante. O país aparece como motor do financiamento climático regional, mas também precisa demonstrar que a concentração dos recursos produz benefícios sociais e ambientais fora dos grandes centros e dos projetos mais rentáveis. Na Amazônia, isso significa observar não apenas quanto dinheiro é anunciado, mas quais territórios acessam o crédito, quem executa os projetos e quais resultados permanecem depois do investimento.
O próximo teste será transformar o crescimento registrado até 2024 em uma trajetória contínua, aproximando o financiamento real dos US$ 467 bilhões anuais estimados pela CPI e reduzindo a vantagem dos combustíveis fósseis nos próximos ciclos de investimento.
O relatório completo da Climate Policy Initiative reúne a análise sobre os fluxos de financiamento climático na América Latina e no Caribe.
Com informações de Climate Policy Initiative.
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