
A combinação entre El Niño e emissões humanas mantém o mar em um patamar de calor sem precedente recente.
O mar que deveria funcionar como regulador do clima passou a acumular marcas de calor em sequência. Em 10 de setembro, os oceanos do planeta completaram 100 dias com temperaturas médias diárias recordes e, desde 2 de junho, permaneceram acima de todos os registros anteriores para o período, segundo dados da agência climática dos Estados Unidos, a NOAA.
A estimativa preliminar para a superfície dos mares fora das regiões polares chegou a 21,15°C em 10 de setembro. No mesmo dia de 2015, quando um El Niño considerado muito forte estava em curso, a média era de 20,72°C. A diferença parece pequena no termômetro, mas representa uma quantidade enorme de energia acumulada em uma massa de água que cobre a maior parte do planeta.
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Para quem vive no litoral ou depende da pesca, a sequência de recordes não é apenas uma estatística climática. Água mais quente transfere calor e umidade para a atmosfera, favorecendo chuvas e tempestades mais intensas. Ao mesmo tempo, o aquecimento faz a água se expandir, contribuindo para a elevação do nível do mar.
O resultado pode ser uma combinação mais difícil de administrar: ressacas, erosão, inundações costeiras e pressão sobre estruturas instaladas perto da faixa de praia. A bióloga Marina Correa, especialista em conservação oceânica do WWF-Brasil, afirma que o problema também deve ser tratado como uma questão de adaptação climática e segurança urbana.
“Para cidades costeiras, isso significa uma combinação particularmente preocupante: elevação do nível do mar, erosão, ressacas, inundações costeiras e maior exposição da infraestrutura e das populações aos eventos extremos”, diz Correa.
Essa conexão interessa diretamente à Amazônia. Os efeitos sobre o oceano e a atmosfera alcançam a faixa costeira amazônica e podem repercutir sobre atividades pesqueiras, comunidades ribeirinhas e cidades expostas a chuvas fortes e variações no nível da água. Mesmo nos estados amazônicos sem litoral, alterações no regime de umidade e nas chuvas fazem parte de um sistema climático conectado, no qual o oceano tem papel central.
Três anos de marcas acima dos recordes anteriores
A atual onda de calor não surgiu isoladamente. As temperaturas da superfície marinha ficaram acima dos recordes anteriores por três anos consecutivos, sinal de que o clima dos oceanos está operando em outro patamar. Na comparação com a média de 1982 a 2010, a temperatura global do mar está 0,94°C mais alta nesta época do ano.
Agosto também entrou nessa cronologia. O mês empatou com junho de 2023 como o mais quente já registrado e teve ainda o maior valor diário conhecido para a temperatura da superfície marinha. O comportamento reforça a persistência do aquecimento, em vez de indicar apenas um pico isolado provocado por uma oscilação passageira.
Segundo a NOAA, a temperatura média global da superfície do mar fora das regiões polares atingiu 21,15°C em 10 de setembro, enquanto o valor observado na mesma data de 2015 foi de 20,72°C.
El Niño acelera um aquecimento que já existia
O El Niño iniciado em junho ajuda a explicar a intensidade do episódio. O fenômeno ocorre quando as águas da região tropical do Pacífico ficam mais quentes do que a média e alteram a circulação atmosférica em várias partes do mundo.
Ele, porém, não explica sozinho a mudança de escala. Cerca de 30% das emissões de gases de efeito estufa produzidas pelas atividades humanas e aproximadamente 90% do calor gerado por essas emissões são absorvidos pelos oceanos. A combinação entre a variabilidade natural do El Niño e o aquecimento provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento empurra o sistema para níveis cada vez mais elevados.
“A temperatura da superfície do mar permanecer excepcionalmente alta por tanto tempo é um sinal muito importante do desequilíbrio energético do planeta”, afirma Marina Correa.
Recifes têm menos tempo para se recuperar
Os organismos marinhos não conseguem simplesmente se afastar do calor, como uma população humana pode buscar um ambiente refrigerado. A pesquisadora Claire Bergin, da Universidade de Maynooth, explica que uma elevação de 1°C pode ter impacto relevante sobre a biodiversidade e que a capacidade de adaptação da vida marinha é extremamente limitada.
As ondas de calor marinhas atingem com especial intensidade os corais. Esses animais formam estruturas que servem de abrigo e área de alimentação para cerca de um quarto da vida marinha. Quando os recifes sofrem, o efeito se espalha pela cadeia ecológica e chega às comunidades que dependem da pesca.
O intervalo entre grandes perturbações também está diminuindo. De acordo com Correa, em muitas regiões o tempo entre eventos severos nos recifes caiu de aproximadamente dez anos para cinco ou seis anos. Com menos espaço entre uma crise e outra, os ecossistemas perdem a oportunidade de recompor suas populações e estruturas.
No Brasil, a temperatura da superfície do mar aumentou 0,76°C entre 1985 e 2025. No mesmo país, a cobertura de coral duro diminuiu cerca de 34% entre 2016 e 2024. A combinação desses números ajuda a traduzir o que o aquecimento significa na prática: menos tempo de recuperação para os recifes e maior vulnerabilidade para os territórios que dependem deles.
O que pode mudar nos próximos meses
A expectativa é que o oceano continue aquecido nos meses seguintes, especialmente enquanto o El Niño se intensifica. Isso não significa que cada cidade terá o mesmo tipo de evento ou que toda tempestade será causada diretamente pelo fenômeno. O que muda é o pano de fundo energético do sistema climático, capaz de aumentar os riscos quando outros fatores atmosféricos se combinam.
A resposta, segundo os especialistas citados, passa pela redução das emissões de gases de efeito estufa e por medidas de adaptação para áreas costeiras. O oceano também pode participar da solução. Tom Pickerell, diretor global do Programa para os Oceanos do World Resources Institute, estima que a descarbonização do transporte marítimo e a expansão de fontes renováveis offshore poderiam responder por 35% das reduções de emissões necessárias até 2050.
O tema deverá ser levado às negociações da COP31, marcada para novembro, na Turquia, em parceria com a Austrália. A cúpula será uma oportunidade para discutir se os oceanos continuarão tratados como consequência da crise climática ou se passarão a ocupar posição central nas políticas de redução de emissões e proteção das cidades.
Com informações de NOAA, WWF-Brasil e World Resources Institute.
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