
Estudo do King’s College London mostra por que os registros conhecidos podem subestimar riscos climáticos extremos.
Os maiores desastres climáticos já registrados podem não ser uma boa medida para o que vem pela frente. Essa é a conclusão de pesquisadores do King’s College London, que analisaram mortes provocadas por ciclones tropicais e ondas de calor entre 2000 e 2025 e alertaram que eventos futuros podem produzir efeitos muito mais graves, inclusive com milhões de vítimas em cenários extremos.
O estudo foi publicado em 10 de setembro de 2026 na revista científica Nature Sustainability. A equipe sustenta que os instrumentos usados no planejamento ainda se baseiam demais em acontecimentos conhecidos e podem não considerar combinações inéditas de ameaças, justamente as situações capazes de ampliar rapidamente o número de mortos.
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O problema está em confundir o pior evento já observado com o limite máximo do risco. Os autores afirmam que o histórico disponível é curto diante da escala do clima e que as condições atuais já não são exatamente as mesmas de décadas anteriores.
Segundo o King’s College London, o registro histórico pode subestimar o risco de eventos climáticos extremos porque reúne apenas aquilo que já aconteceu, e não todas as combinações fisicamente possíveis em um clima mais quente ou mais frio.
Essa diferença altera a forma de preparar cidades, hospitais, sistemas de transporte, redes de energia e serviços de emergência. Um plano baseado apenas na repetição de episódios conhecidos pode funcionar para uma ameaça isolada, mas falhar quando vários problemas ocorrem ao mesmo tempo.
O que os números de ciclones revelam?
A análise examinou todos os ciclones tropicais letais registrados no mundo entre 2000 e 2025. Nesse intervalo, foram identificados 676 eventos com mortes, mas a distribuição das vítimas foi extremamente desigual.
O ciclone Nargis, que atingiu Mianmar em 2008, matou quase 140 mil pessoas. Sozinho, o fenômeno provocou mais que o dobro das mortes atribuídas aos outros 675 ciclones tropicais letais reunidos no período analisado.
O dado indica que o risco não cresce de maneira uniforme. Uma parcela pequena de eventos muito grandes concentra uma quantidade desproporcional de vítimas. Por isso, médias históricas podem esconder o impacto de episódios raros, mas devastadores.
Como as ondas de calor concentram tantas mortes?
O mesmo padrão apareceu na avaliação das ondas de calor. A maior parte das mortes também ficou concentrada em poucos episódios, em vez de se distribuir igualmente entre todos os períodos de temperaturas elevadas.
A onda de calor mais letal da série ocorreu na Europa em 2003 e foi associada a cerca de 70 mil mortes. Quase metade desse total aconteceu nas duas primeiras semanas de agosto, mostrando como o impacto pode se acumular em um intervalo muito curto.
O estudo também menciona milhares de mortes adicionais registradas na Europa durante as ondas de calor de junho do ano analisado. Para os pesquisadores, esses episódios recentes reforçam a necessidade de considerar não apenas a intensidade do calor, mas a duração, a vulnerabilidade da população e a capacidade dos serviços públicos de responder.
Que tipo de desastre ainda fica fora dos planejamentos?
Modelos atuais costumam testar ameaças familiares com intensidade maior. Um exemplo seria simular um furacão com ventos mais fortes do que os observados anteriormente. A limitação aparece quando a ameaça tem uma configuração sem precedente.
Uma das possibilidades discutidas pelos autores é uma onda de calor severa ocorrendo pouco antes da chegada de um ciclone forte. Nesse cenário, milhões de pessoas poderiam precisar deixar suas casas justamente quando estradas, abrigos e serviços de emergência estivessem sob pressão. Quem dependesse de ar-condicionado para se proteger do calor também poderia perder essa forma de proteção durante uma interrupção de energia.
Os cientistas ressaltam que a possibilidade de um evento com milhões de mortes não significa que esse resultado seja provável. A finalidade é trabalhar com o limite do risco para identificar vulnerabilidades que não aparecem em projeções baseadas apenas na repetição do passado.
O que o alerta significa para a Amazônia?
Na Amazônia, a discussão é relevante para os sete estados da região: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A advertência não prevê uma catástrofe específica nesses territórios, mas oferece uma questão prática para o planejamento local: os protocolos precisam considerar situações combinadas e pouco familiares, não somente os episódios mais conhecidos.
Para cidades amazônicas, isso envolve pensar de forma integrada em calor extremo, interrupções de energia, dificuldades de deslocamento, acesso a atendimento médico e comunicação com comunidades distantes. A lógica vale tanto para áreas urbanas quanto para populações que dependem de rios e estradas sujeitas a interrupções.
A contribuição regional também pode estar na experiência de comunidades que lidam com diferentes formas de vulnerabilidade e conhecem, na prática, os obstáculos de evacuação e atendimento em áreas remotas. Incorporar esse conhecimento aos exercícios de risco é uma das mudanças defendidas pelo estudo.
Quais medidas os pesquisadores recomendam?
O grupo propõe três frentes principais. A primeira é a realização de análises de horizonte, com especialistas de áreas diferentes, para imaginar eventos que ainda não aparecem nos bancos de dados históricos.
A lista inclui pesquisadores de risco existencial, comunidades expostas, seguradoras, escritores de ficção climática e modeladores do clima. A ideia é ampliar o repertório usado nas simulações e trabalhar de trás para frente: imaginar um resultado catastrófico e investigar quais circunstâncias poderiam produzi-lo.
A segunda prioridade é identificar os limiares a partir dos quais os impactos aumentam rapidamente. A terceira consiste em mapear os limites físicos do clima em condições muito mais quentes ou muito mais frias do que as atuais.
O que ainda precisa ser respondido?
O estudo não apresenta uma previsão com data, local e número definido de vítimas para o próximo grande desastre. Seu foco é mostrar que a ausência de precedentes não deve ser tratada como prova de impossibilidade.
Tom Matthews, professor sênior de Geografia Ambiental do King’s College London e autor principal, resumiu a preocupação em uma frase publicada pela instituição: “History is almost guaranteed to make us underestimate future risk.” Em tradução livre, a história quase certamente nos leva a subestimar o risco futuro.
Os próximos passos indicados pelos autores são melhorar os modelos, reunir especialistas de campos diferentes e testar cenários que ultrapassem as experiências já documentadas, antes que eles sejam colocados à prova no mundo real.
Com informações de King’s College London.
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